Billie Holiday by Jon Marx

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O meu primeiro contacto com a figura de Billie Holiday foi através do filme “Lady Sings The Blues” do realizador Sidney J. Furie. Estreado em 1972, o filme vai buscar o nome à autobiografia de Lady Day, escrita a meias com William Dufty e publicada em 1956. O livro foi traduzido por José Duarte e editado em Portugal em 1982 pela Regra do Jogo. “Lady Sings The Blues” é também o título de um dos mais famosos discos de Billie Holiday, editado no mesmo ano de publicação da sua biografia. Em Portugal, o filme estreou em 1973 com o estapafúrdio título “Destino de Mulher”. Desse facto não guardo recordação.

Mas recordo-me de o ter visto em rigoroso e austero preto-e-branco (originalmente, o filme é colorido) numa sessão de cinema do anteriormente denominado “segundo canal da RTP”, eventualmente na segunda metade da década de 70. Da parte musical pouco ou nada me ficou. À época devia andar a ouvir uma qualquer pomposa banda de metal ou prog rock ou mesmo tralha protopunk e o Jazz era uma música para velhos a que não ligava puto. Mas fiquei impressionado com o desenrolar de catástrofes que se abatia sobre a personagem e que originava uma dramática atuação de Diana Ross (impressionante para mim, mas críticas da época não foram muito simpáticas para a cantora). O filme contava ainda com a interpretação de Richard Pryor, um dos mais influentes comediantes da década de 70, e Billie Dee Williams que se tornaria famoso no papel de Lando Calrissian em Star Wars.

Ao longo da noite obscurantista do Punk continuei de costas viradas para o Jazz nas suas variadas formas apesar de o consumir diariamente, como um abençoado ignorante, através do James White, de John Lurie ou dos Rip Rig + Panic. Em 1981, dois acontecimentos vêm mudar este cenário. Em primeiro lugar, a edição do álbum ‘Jumpin’ Jive’ de Joe Jackson, um disco totalmente preenchido com standards de Jazz dos anos 30 e 40 que funcionou como um despertar de consciências para o conhecimento de uma outra música existente num universo paralelo e que era trazida à cena por um dos nomes icónicos da New Wave britânica.

Como se sabe, e para tristeza de muita gente, este disco funcionou como um grito de libertação do espartilho rock’n’roll para Jackson que, a partir desse momento, se radicou nos Estados Unidos e começou a produzir música em registos próximos de compositores norte-americanos da Broadway como Cole Porter, Harold Arlen ou Johnny Mercer. Mas essa é outra história.

No mesmo ano da edição de ‘Jumpin’ Jive’ foi publicado no semanário ‘O Jornal’ uma crónica de Miguel Esteves Cardoso sobre Billie Holiday a propósito de uma edição local de um dos seus álbuns. Não me recordo do nome do álbum nem do título da crónica, mas quem possuir uma cópia do livro ‘Escrítica Pop’ vai encontra-la por lá. No meio dos textos que regularmente escrevia no ‘Sete’ e em ‘O Jornal’ sobre a cultura do pop/rock e os nomes que iam fazendo a História do pós Punk, ocasionalmente MEC oferecia um escrito sobre nomes que não se enquadravam no género habitual das suas crónicas. Lembro-me de Sinatra, Ornette Coleman ou mesmo Amália Rodrigues, entre poucos outros. Como aconteceu variadíssimas vezes, a crónica sobre Billie Holiday levou-me a procurar por material da cantora junto das discotecas mais generalistas do Porto.

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Como o conhecimento era nulo e o dinheiro quase inexistente, comprei em saldo, na extinta Vadeca da Rua 31 de Janeiro, a coletânea ‘Billie Holiday History Of Jazz’, um lançamento de 1972 da editora italiana Joker com importação local da responsabilidade da Dargil. O disco tinha a data de edição nacional de 1980 e, na contracapa, incluía um texto em forma de carta que fazia referência à raridade de algumas das gravações incluídas e à baixa qualidade de alguns dos registos. A carta, assinada por A.M. (António Macedo?) tinha como destino um tal Zé, muito provavelmente José Duarte (esta afirmação pode não ser muito correta, pois estou convencido que deve haver mais que um apreciador de Jazz com nome José).

Para quem consumia diariamente e quase em exclusivo a música que vinha do eixo Manchester-Liverpool-Nova Iorque, escutar ‘Billie Holiday History Of Jazz’ teve um efeito semelhante ao experimentado com a primeira audição de ‘Closer’ ou ‘Fear Of Music’, tal a estranheza sonora e o enquadramento no espaço e no tempo relativamente ao que escutava diariamente. Apesar de não incluir algumas das mais brilhantes canções que interpretou, como ‘Stormy Weather’, ou algumas da sua autoria como ‘God Bless The Child’ ou ‘Don’t Explain’, o disco inclui alguns clássicos: ‘Yesterdays’, ‘Fine And Mellow’, ‘She’s Funny That Way’, ‘On The Sunny Side Of The Street’.

Mas a pancada definitiva surge quase no fim do disco, na penúltima faixa. Um pequeno tema com o título ‘Strange Fruit’ que já conhecia através da voz de Robert Wyatt que o incluiu no lado B do 7” ‘At Last I’m Free’. A interpretação de Robert Wyatt e os simples arranjos da sua versão de 1980 transformam ‘Strange Fruit’ numa belíssima canção pop, mas apenas uma mais no meio da sumptuosa colheita de singles do período 1980-1982. É através da voz de Billie Holiday que as palavras ‘Black bodies swinging in the southern breeze, strange fruit hanging from the poplar trees’ e ‘Scent of magnolias, sweet and fresh, then the sudden smell of burning flesh’ ganham uma dimensão de horror e melancolia, de medo e resignação, e transformam ‘Strange Fruit’ num hino macabro, um testemunho cantado sobre a segregação que, de forma violenta e continuada, a cantora sentiu na própria pele.

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Por: Jon Marx

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