À conversa com Maria de Medeiros

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Cinema, teatro, música. De tudo isto se compõe a vida de Maria de Medeiros. Radicada em Paris, a intérprete esteve em Portugal para promover o seu mais recente registo discográfico, «Pássaros Eternos», pretexto para uma interessante conversa.

– Cinema, teatro, música…qual o seu maior amor?
Tudo! (risos) Acho que está tudo intimamente relacionado, há um diálogo entre todas essas expressões…

– …há uma complementaridade entre as diferentes facetas da Maria…
Sem dúvida! A minha formação é de intérprete, é evidente que, de alguma forma, trago essa formação tanto para o cinema como para a música. Por exemplo, neste caso em que é a primeira vez que componho e escrevo as canções tendo a trabalhar quase como se estivesse a escrever cada canção como uma curta-metragem. Tenho essa tendência de visualizar as personagens e as situações.

– Radicada em Paris há bastantes anos como é que se sente, mais portuguesa ou mais francesa?
Sinto-me portuguesa! (risos) Embora seja também francesa e tenha muita influência francesa, a relação com a língua portuguesa e com a cultura portuguesa é predominante.

– Como alguém que mora fora de Portugal como vê a situação da cultura no nosso país, em particular do cinema?
Apesar de estar longe tento sempre acompanhar a produção portuguesa, e tenho grande admiração pelos artistas portugueses, os quais são sempre uma enorme fonte de inspiração. Mas, é evidente que sinto muita preocupação pelo que está a acontecer, é um momento muito difícil para toda a cultura portuguesa.

– «Pássaros Eternos» é o seu terceiro registo discográfico. Nele arrisca uma nova atividade, a escrita de canções. Foi fácil colocar no papel as palavras certas?
(risos) Eu não sei se são certas, mas são aquelas que se impuseram no momento. Na verdade este trabalho surgiu na sequência de muitos concertos pelo mundo e no nascimento de uma banda musical que se foi formando pouco a pouco. Tratou-se de encontrar os parceiros certos para comunicar, fazendo uma boa troca de ideias. Depois nasceram muitas das parcerias que estão no disco, como com o Paulo Furtado ou o Raimundo Amador. Tudo isto foi-me dando confiança para pouco a pouco me atrever a fazer as minhas próprias canções.

– Como funciona o seu processo criativo? Primeiro a música ou a letra?
Depende muito. Por exemplo, no disco há um poema da Sophia de Mello Bryener Andresen, «Por Delicadeza», que de certa forma já homenageia outro poeta, o Rimbaud, mas que é um poema que eu tive a ocasião de recitar em diversos espetáculos. O engraçado é que sempre que lia esse poema havia uma música que se impunha, que me vinha sempre ao espírito. Pensei: se esta música nasce naturalmente da leitura do poema talvez signifique que eu deva fazer uma canção sobre ela…e foi isso mesmo que aconteceu. Mas, geralmente é a música que vem primeiro.

– Falou em Sophia de Mello Bryener Andresen. É a poetisa uma das suas referências?
Sem dúvida!

– Falou há pouco no Paulo Furtado…neste disco volta a colaborar com Legendary Tiger Man, numa canção digamos muito cinematográfica. Como nasceu «Shadow Girl»?
Esta canção nasceu de um espetáculo que nos propuseram em Paris sobre Jim Jarmusch. Já tínhamos colaborado na canção «These Boots Are Made for Walking»…mas, na verdade estou muito grata ao Paulo porque foi ele que teve a ideia de me contactar. A nossa parceria tem sido sempre excelente, entendemo-nos muito bem, não só artisticamente mas também pessoalmente. Os dois gostamos de Jim Jarmusch e o engraçado é que, espontaneamente, pensámos ambos no «Down By Law», um filme que nos marcou na adolescência. No guião do «Down By Law» a certa altura o Tom Waits diz uma frase meio misteriosa, meio fora do contexto falando de uma rapariga sombra, a tal «shadow girl» e dai nasceu a canção, mas nasceu também «24 Mila Baci» que é uma homenagem ao Adriano Chelentano e à cultura italiana. Mas devo dizer que nesse espetáculo o Paulo Furtado revelou que é também um excelente ator. Fazia um Roberto Begnini fantástico!

– E escreveu um fado…afirmação de que continua acima de tudo portuguesa?
Na verdade, foi uma das primeiras canções que escrevi, vá-se lá saber porquê (risos). Este fado é dedicado à minha amiga Mísia porque, de certa forma, foi ela que me fez aproximar do fado. De há uns anos para cá ela tem-me convidado para dizer poesia nos seus concertos. Sou muito fascinada pelo seu trabalho e pela sua relação sempre muito intensa com Portugal. Foi isto que eu quis contar neste fado.

– No disco Maria fala diferentes idiomas músicas, entre os blues, o jazz, o flamenco, a bossa nova e o fado. Como se encaixam estas diferentes linguagens na mesma interprete? Foi um desafio?
Sim, provavelmente…não aconteceu de propósito, mas acho que o que fazemos acaba sempre de alguma forma por ser um retrato nosso, e é verdade que na minha vida, no meu quotidiano tenho que falar várias línguas, estou sempre a viajar e em contacto com pessoas de diferentes nacionalidades, além de que também tenho gostos bastante diversos na música e isso reflete-se nesta primeira obra. Eu comparo muitas vezes este disco como quando nos oferecem a nossa primeira máquina fotográfica e nos dizem: agora faz fotos! Eu achava que fazer canções era algo que me estava vedado, que eu nunca faria e afinal descobri que tenho este instrumento, esta «máquina fotográfica» musical e que a vou apontando em diferentes direções.

– Porquê o nome de «Pássaros Eternos»?
O nome vem da canção «Nasce o dia na cidade», a qual fala um pouco das nossas cidades europeias, cidades deprimidas pela crise. Na canção uma criança observa o nascer do dia numa dessas grandes cidades e fica maravilhada com o fluxo dos automóveis, enquanto as rádios nos esmagam com notícias catastrofistas de bolsas que caem, de desemprego, entre outras. Essa criança perante essa realidade tão triste, tão deprimente em que vivemos vai soprando nuvens de vapor no vidro da janela, nuvens que assumem formas diferentes e ela imagina serem pássaros os quais são tudo menos eternos, são só nuvens de vapor absolutamente efémeras. Mas de alguma forma essa ideia dos pássaros eternos transmite que aquilo que é eterno é a nossa irredutível força de sonhar e de contemplar. E não há crise que possa acabar com essa nossa liberdade tão fundamental.

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– Pegando no que agora nos contou podemos dizer que foi nesse menino contemplativo que surgiu a ideia de dar imagem a cada uma das canções?
Também sim…porque tenho esta tendência de relacionar sempre música com imagem. Este disco acabou por ser uma aventura tão nova e tão pessoal que pensei trazer para ele todas as minhas «manias» (risos) e uma delas é mesmo essa, relacionar música e imagens. Assim propus a vários amigos, cujas nacionalidades vão desde o México ao Irão, passando por França e Portugal, para conceberem uma imagem para cada canção e, para minha grande alegria, todos aceitaram mandando-me imagens lindíssimas. No fim, faltavam duas imagens, a capa e a canção «The Cougar song » e para essas acabei sendo eu a fazer a ilustração…

– …mais um desafio?
(risos) Sim! Eu sempre desenhei, e pensei: porque não?

– Rodou dois filmes em 2013 no Canadá. Como aconteceram esses convites?
Já tinha feito vários filmes no Canadá, rodei o «Meetings with a Young Poet», um filme lindíssimo sobre o Samuel Beckett, de quem eu sou uma apaixonada, e depois fiz uma comédia.
Agora acabei de chegar de Roma onde participei no filme do Abel Ferrara sobre o último dia da vida de Pier Paolo Pasolini, interpretado pelo Willem Dafoe. Adorei trabalhar com ele, pois é um dos atores que mais admiro desde sempre. É um ator grandioso, com uma base forte do teatro, aliás teve durante muitos anos a sua própria companhia. É uma pessoa extremamente culta. Foi, efetivamente, uma grande alegria conhecê-lo.

– Gosta mais de estar à frente ou atrás da câmara?
Gosto de ambas as situações! É curioso que desde que sei o que é estar atrás da câmara, descobri que é algo que me enche de felicidade. De alguma forma fez-me apreciar ainda mais ser simplesmente intérprete, dando-me uma muita tolerância par com os realizadores porque agora sei o quanto é difícil a posição deles.

– É essa perceção do que se sofre como realizador a mais-valia que obtém ao ser realizadora de cinema e que não alcança como atriz?
(risos) Exato! Um realizador é solicitado sobre tudo, mas tudo mesmo, desde a cor das unhas da atriz (risos) até à maquinaria…nada lhe passa ao lado, nada! É uma aventura extraordinária. Agora tenho ainda mais gosto em colocar-me ao serviço dos diversos realizadores com quem trabalho.

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– O seu documentário mais recente «Repare Bem», premiado no Brasil mas ainda não exibido por cá, fala sobre três gerações de mulheres. Como surgiu o tema e como foi esta experiência?
O documentário surgiu com uma proposta por parte da Comissão de Amnistia e Reparação brasileira criada pelo Ministério da Justiça. Na sequência do que também foi feito na Argentina e no Chile, essa comissão está a realizar processos de amnistia dos antigos perseguidos políticos, oferecendo a essas pessoas a possibilidade de uma reconstrução administrativa e jurídica que tem um valor simbólico enorme, porque essas pessoas há décadas que não cruzam uma fronteira sem sentirem uma angústia terrível. Nunca tiveram os passaportes em dia, as crianças que nasceram na clandestinidade não tinham os seus nomes verdadeiros, pelo que recuperar uma identidade completamente legal e dentro das regras é algo de muito importante e extraordinário. Além disso, oficialmente o governo brasileiro pede desculpas pelo sofrimento que essas pessoas passaram, oferecendo em muitos casos também uma compensação económica.
Este é um trabalho formidável e essa mesma Comissão de Amnistia está a incentivar todo o tipo de trabalho artístico sobre as histórias da repressão, e isto é algo que acho extraordinário, pois é exatamente o contrário do que acontece na Europa. Filmes exposições, peças de teatro, fotografia, seja o que for! A comissão solicita aos artistas que trabalhem sobre isso, e foi isso que aconteceu comigo. No meu caso eles propuseram-me trabalhar sobre esta história, que é uma história muito intensa, onde se incluem 40 anos de exilio na Europa. Foi exatamente por isso que eles pensaram em mim, pois por um lado sabem que eu apoio completamente este tipo de iniciativas e por outro porque a família da qual falamos teve um destino incrível!
As mulheres sobreviveram quando os homens foram presos e massacrados nas condições mais bárbaras e inimagináveis. A avó, mãe e filha escaparam (a filha sendo bebé, porque a Denise foi torturada grávida…) para o Chile onde Salvador Allende estava a ajudar estas pessoas, mas aí foram apanhadas novamente por um golpe de estado militar, outra vez repressão, outra vez fuga…desta vez para Itália onde passaram a viver. É de facto uma história muito comovente porque a Eduarda nunca chegou a conhecer o pai que foi assassinado em condições pavorosas, e toda a vida foi uma italiana, e agora, com este processo de amnistia, está a recuperar uma identidade que ela tinha completamente oculta, pois o Brasil não era nenhuma realidade para ela.
Foi um filme que mudou a minha vida, foi uma experiência muito, muito intensa. Da parte do governo criar esta comissão é de facto um ato muito corajoso, pois pedir desculpa só engrandece e enaltece quem o faz. Não há que fugir do passado, pois não há país que tenha um passado perfeito. É melhor que os cidadãos tenham acesso a essa verdade, justamente para poderem aproveitar o presente e olhar para um futuro muito mais justo.

– Para quando a exibição por cá do documentário «Repare bem»?
Estou à espera de propostas! (risos) Eu adoraria apresentar o documentário cá em Portugal, sendo este um filme falado em português e tendo nós muita coisa em comum com estas histórias.

– E concertos em Portugal, quando vamos poder vê-la ao vivo?
É uma coisa que estamos agora a começar a organizar. Gostaria muito! O disco saiu primeiro em Espanha onde fizemos muitos concertos, saiu depois no Brasil onde continuámos a dar muitos espetáculos e agora sendo lançado aqui estamos desejosos de o apresentar em Portugal. Até agora só apresentei um concerto deste disco em Portugal, o qual aconteceu na Madeira e do qual tenho uma belíssima lembrança.

– O que se sente em cima do palco?
Não há nada mais extraordinário do que o espetáculo ao vivo, para quem o faz e para quem assiste. Amo o cinema, mas hoje em dia se me dão a escolher entre ver um filme ou um espetáculo ao vivo vou sempre escolher este último. É um momento que compartilhamos. Fico muito feliz quando me dizem que me viram em tal filme, mas quando me dizem que me viram em determinado espetáculo ou em determinado concerto é algo que para mim é ainda mais emocionante, porque nos damos conta que vivemos um momento, que partilhámos um momento com essa pessoa.

Por: Sandra Pinto

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