Há mais na Bairrada para além do leitão

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Longe vai o tempo em que as romarias à Bairrada se faziam pelo leitão. Hoje, esta região do Centro de Portugal tem muito mais para oferecer aos que fazem a Nacional 1 pela famosa iguaria. Fomos descobrir a Rota da Bairrada: dos espumantes, do pão da Mealhada, das caves vinícolas, das termas, das serras a perder de vista, dos palácios habitados por reis e rainhas.

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Chegamos ao Rei dos Leitões a meio da Quinzena do Leitão. Somos recebidos com uma curiosa cabidela que faz parte da degustação de produtos deste evento realizado pela Câmara Municipal da Mealhada com vários restaurantes da região. É uma das iniciativas para dar a conhecer os melhores produtos da região, entre os quais o leitão, a água do Luso, o pão em forno de lenha e os vinhos do concelho, que compõem as “4 Maravilhas da Mesa da Mealhada”.

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É nas bebidas que nos detemos este fim-de-semana. Os espumantes da Bairrada estão na ribalta e o primeiro que é dado a conhecer é o Marquês de Marialva Cuvée de 2010, da Adega de Cantanhede, destacado pela Revista de Vinhos na lista de melhores do ano de 2014. Pela mesa, passam ainda o Hibernus Cuvée de Noir Vintage, 2011, e o Vinha Formal, de Luís Pato, 2009, antes de seguirmos para Sangalhos onde nos espera o Aliança Underground Museum. O museu, em Sangalhos, Anadia, é (como o restaurante Rei dos Leitões) um dos associados da Rota da Bairrada. Pertencem a diferentes sectores de actividade as entidades que se juntaram à associação e que integram oficialmente os roteiros turísticos sugeridos pela Rota da Bairrada.

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Pelo caminho, conseguimos contar algumas das oito rolhas de cortiça gigantes que foram colocadas em pontos estratégicos da região Bairrada: Águeda, Anadia, Aveiro, Coimbra, Cantanhede, Oliveira do Bairro, Mealhada e Vagos. Uma por município, as rolhas são símbolos turísticos que representam a oferta de cada município da rota. Este foi um momento marcante no esforço de dinamização que a Rota da Bairrada tem vindo a fazer, na sequência da criação, por decreto-lei, das rotas vinícolas. Financiada pelo FEDER (Fundo Europeu de Desenvolvimento Regional) no âmbito do Programa Operacional Regional do Centro 2007-2013, do QREN, a Rota da Bairrada tem apontado como objectivo ir mais além na divulgação da região incorporando todos os produtos e riquezas naturais e turísticos. A testemunhar e, em simultâneo, a participar da mudança: a Bairrada está a crescer e a atrair um novo turismo.

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A Bairrada cultural: longe da vista, perto do coração
Sinal dessa mesma mudança foi a compra das Caves Aliança, fundadas em 1927 por 11 produtores, e adquiridas pelo grupo Bacalhôa Vinhos de Portugal em 2007, altura em que assumiu a designação Aliança Vinhos de Portugal. O investimento então realizado transformou as caves num projecto pioneiro que hoje abarca um amplo museu debaixo da terra e imperceptível aos olhos de quem por ali passa. Sangalhos, mais conhecia por alojar o velódromo nacional, esconde oito vastas e variadas colecções de arte do comendador Joe Berardo. Mas o espaço das caves manteve-se praticamente inalterado e é isso mesmo que se encontra depois de vistas as oito colecções permanentes: a arqueológica, de peças com mais de 1500 anos; a de arte etnográfica africana; a de escultura contemporânea do Zimbabwe, em figuras de pedra que muitos habitantes tentam vender a turistas ou trocar por alimentos e roupas; a de minerais raros, na sua maioria do Brasil; a de fósseis, com mais de 20 milhões de anos; a de cerâmica das Caldas, essencialmente focada em Rafael Bordalo Pinheiro e Manuel Cipriano Gomes; a de azulejos, portugueses e franceses; e ainda a de estanhos, com peças do século XVI até ao século XIX.
Transposto o museu, o visitante depara-se com um espaço com capacidade para alojar três milhões de garrafas de espumante – a Aliança vende um milhão por ano.

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A Bairrada cosmopolita: dos petiscos aos produtores
Antes de conhecermos outro associado, há tempo para visitar a antiga Estação da Curia, inaugurada em 1944. Há muito desactivado como estação de caminho-de-ferro, o espaço é hoje sede da Rota da Bairrada, nascida em 2006. Mantém-se inalterado: ainda mostra as salas de espera, uma por cada classe de passageiros, e a decoração de época. É aqui que turistas e locais procuram os conselhos da associação sobre actividades a fazer na Bairrada. Encontram ainda a possibilidade de fazer provas de vinhos gratuitas, dos produtores associados da Rota da Bairrada, como não podia deixar de ser.

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Na lista de nomes que integram a oferta da Rota, está o recém-inaugurado Dux – Petiscos & Vinhos, também ele destacado pela Revista de Vinhos na edição de balanço de 2014 como melhor “wine bar”. De decoração moderna e descontraída, esta taberna urbana parece ter sido retirada de qualquer capital europeia. Foi criada por jovens promessas da hotelaria nacional, que idealizaram um espaço onde os petiscos reinam ao lado dos vinhos para pratos saborosos e demorados: tapas chique, à portuguesa.

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A experiência destrunfa a simples refeição, muito por causa dos rótulos que nos são trazidos: o espumante Unum Primavera, 2012; o vinho branco Vinhas Velhas, Luís Pato, 2013; e ainda o tinto Reserva Ortigão, 2010. Acompanham petiscos tão simples quanto surpreendentes: sardinha e cavala em conserva, cogumelos com linguiça, chocos fritos, lombinhos de porco com bacon e puré de ervilhas. Existem já três espaços Dux, aposta dos sócios que identificaram a falta de um conceito de taberna urbana em Coimbra e da forte adesão do público. O ponto de passagem ideal para anteceder uma ida aos fados.

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Baga Bairrada: o futuro dos espumantes
A descoberta da Bairrada continua com uma visita ao maior edifício romano conservado em Portugal: o criptopórtico de Aeminium, ou Coimbra, que se esconde debaixo da entrada do centenário Museu Machado de Castro (escultor local aqui homenageado), ladeando a Universidade de Coimbra. Nascida há dois mil anos, a cidade conta aqui a sua história através de uma viagem pelo seu próprio traçado. É que este espaço – com dois pisos de câmaras romanas impensáveis a partir da superfície – foi alterado ao longo dos tempos: Octávio César Augusto criou aqui o fórum da cidade, a que se adicionou uma plataforma suportada por um pórtico ancorado na encosta para compensar o declive existente. O criptopórtico acaba por ser coberto, depois da ocupação pelo Bispo, já no século XI, quando é construído o Paço Episcopal, mas as escavações que preparavam a abertura do museu revelam uma autêntica cidade romana subterrânea. Nas escavações, encontraram-se relíquias como quatro esculturas de cabeças de imperadores e suas mulheres e câmaras utilizadas como fornos em que ainda hoje se vêem restos de carvão. Mas o museu prolonga o seu testemunho para lá dos vestígios romanos e tem na antiga igreja de São João de Almedina uma das suas peças mais curiosas, porque revela em diversas camadas as diferentes ocupações daquele território – aqui são visíveis 20 séculos em patamares sobrepostos. Tudo isto ganhou sentido na recente remodelação e ampliação do museu, conduzidas por Gonçalo Byrne, que manteve este cuidado de não só preservar as referencias históricas mas também de colocá-las em evidência. A riqueza do museu é ainda mais ampla: encontram-se aqui alguns dos mais importantes exemplos da escultura portuguesa, como obras de Mestre Pero, a quem a Rainha Santa Isabel encomendou o próprio túmulo; e o Cristo Negro, peça de madeira sem autoria. Quando é levada para Lisboa, para ser vista por António de Oliveira Salazar, as obras de limpeza revelam que, afinal, a figura não é negra como se pensava mas o resultado do efeito do fumo das velas dos fiéis, que a tinha escurecido.

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As restantes colecções ficam por ver, quando a visita dá lugar ao almoço no restaurante do museu. O Loggia tem vista sobre a Sé Velha e, na verdade, sobre toda a cidade. Espaço convidativo para uma tarde de Domingo, em que os anfitriões voltam a ser os produtos da Bairrada: um leitão em versão gourmet seguido d’O Melhor Pão-de-Ló do Universo”, acompanhados pelo espumante Pinot Noir Campolargo, 2013; o vinho branco Rama & Selas, 2013; o tinto São Domingos Grande Escolha, 2011; o Colheita Tardia Apartado 1, das Caves São João, 2012; e, a fechar, pelo espumante Quinta da Mata Fidalga Reserva Pessoal, 2006.

Uma das missões da Rota da Bairrada e projecto cimeiro da Comissão Vitivinícola da Bairrada é a certificação dos espumantes da região. Sensibilizar os produtores para a mais-valia de certificar os seus produtos tem sido uma das bandeiras das suas entidades, numa altura em que o marketing ajuda a vender, no mercado nacional e lá fora. Se os produtores querem aumentar as suas vendas, por que não atestar os espumantes com um selo que garanta a qualidade dos mesmos é o que nos explica Pedro Soares, presidente da Comissão Vitivinícola da Bairrada, à mesa do Loggia.

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Os espumantes da Bairrada, isto é, os certificados, são apenas aqueles que se enquadram nas categorias bruto natural (com não mais de duas gramas de açúcar por litro), extra bruto (até seis gramas), bruto (até 13 gramas) e meio seco (de 22,5 a 35 gramas). E porquê certificar esta qualidade? Explica Pedro Soares que é aqui, na Bairrada, que se acredita estar a origem dos espumantes como produção efectiva. As primeiras caves, hoje desactivadas, são as de Monte Crasto, em Anadia. O primeiro espumante da Bairrada foi lançado há 125 anos, numa altura em que franceses apoiavam a produção portuguesa. Aqui se encontra o motivo que justifica a utilização de castas francesas nos espumantes da região, como Pinot Noir e Chardonnay. São 20 as castas utilizadas na Bairrada, com cinco essenciais. Mas é Baga aquela que a Comissão Vitivinícola da Bairrada está a promover mais neste momento, tendo sido apresentados neste fim-de-semana os primeiros rótulos do projecto da logomarca “Baga Bairrada”.
Para Pedro Soares, é preciso categorizar a região da Bairrada para a vender aos mercados internacionais. E isto faz-se através desta casta portuguesa, Baga, uma das mais utilizadas na produção de espumantes e tintos da região. Até porque o consumo de espumantes está a crescer “há três ou quatro anos” e deverá subir 17% no Reino Unido, estima o responsável da Comissão, que recebeu uma distinção da Revista de Vinhos (em 2014) como Organização Vitivinícola do Ano.

À qualidade da casta e da produção local junta-se o conhecimento e tecnologia de fabrico de espumantes, que Pedro Soares considera únicos no País. Quase todos os espumantes de Portugal são produzidos aqui, salienta. Junta-se ainda o muito característico “hábito da tacinha”, ou seja, a tradição de oferecer uma taça de espumante aos visitantes, que se repete pelos lares da Bairrada.

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Mas há ainda muito a fazer, acredita o presidente da Comissão Vitivinícola. Porque, diz, “não é admissível” que um restaurante da região apresente como vinho da casa um produto que não seja da Bairrada perante a diversidade, riqueza e qualidade de vinhos e espumantes aqui criados. É preciso sensibilizar não só os produtores mas todo o tecido empresarial da região, pôr as pessoas a falar da oferta gastronómica e turística da Bairrada. É preciso envolver os produtores nas acções da Comissão e da Rota da Bairrada, adianta Pedro Soares.

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É o caso de acções como o Refresh – Bairrada Meets Coimbra 2015, que contou com o apoio da Comissão e teve, na sua quarta edição, a presença de cerca de 20 produtores e mais de 80 referências de espumantes certificados. O evento repetiu o sucesso da edição anterior, que registou mais de mil visitantes, entre produtores, apreciadores e curiosos pelos espumantes desta região que, afinal, tem para oferecer muito mais do que o leitão à Bairrada.

Texto e fotos: Filipa Moreno

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