À volta das letras com os tradutores Nina Guerra e Filipe Guerra

Por ocasião da celebração do seu 200 aniversário, a Editorial Presença relança 10 obras do escritor russo Fiódor Dostoiévski. As obras, que chegam aos leitores numa cadência mensal, foram traduzidas por Nina Guerra e Filipe Guerra, com quem tivemos o prazer de falar.

Como e quando começaram a trabalhar juntos em tradução?
Em 1996, com o livro de poesia e prosa “Guarda Minha Fala para Sempre” do poeta Óssip Mandelstam.

Quantos livros/obras já traduziram até ao momento?
Não os contámos, mas têm conta: na casa dos oitenta, sobretudo clássicos como Aleksandr Púchkin, Nikolai Gógol (sete volumes, entre romance, contos e todo o teatro), Dostoiévski (18 volumes, entre os quais três contêm vários contos e novelas), Lev Tolstói (12 volumes, quatro dos quais contêm vários contos e novelas), Anton Tchékhov (dez volumes de contos e todo o teatro); e, se não for aborrecido, mais os seguintes autores russos, entre clássicos e modernos: Mikhail Lérmontov, Ivan Turguénev, Aleksandr Ostróvski (teatro), Ivan Búnin, Leonid Andréev, Daniil Harms, Iliá Ilf/Evguéni Petrov, o já citado Óssip Mandelstam, Anna Akhmátova, Marina Tsvetáeva, Vladímir Korolenko, Aleksei K. Tolstói, Aleksandr Blok, Mikhail Bulgákov, Andrei Béli, Vassíli Grossman, Isaac Bábel, Evguéni Zamiátin, os irmãos Presniakov (teatro), Liudmila Ulítskaia, Liudmila Petruchévskaia.

Como é o vosso processo de tradução?
Digamos que a tradutora em primeira mão é Nina Guerra que, além de traduzir, procura fontes, sempre russas, sobre o livro e exteriores ao livro (históricas, gramaticais e de análise do texto em causa); depois apresenta-me o primeiro rascunho em português. Esse rascunho é tratado por mim, no que ao português diz respeito, não dispensando a consulta a Nina, que vai indicando o ritmo possível e as particularidades estilísticas a aplicar ao texto. O passo seguinte é uma revisão conjunta, tendo sempre presente o original russo, originando esse confronto novas consultas até ambos considerarmos a tradução definitiva.

Há muita coisa das obras originais que se perde na tradução?
Em termos gerais, como há uma diferença irredutível entre as línguas, há perdas e insuficiências em qualquer tradução. Por isso a tradução é sempre uma escrita secundária, um segundo nível de distância entre o texto original, o traduzido e o leitor. Logo, a fidelidade absoluta ao texto original é um conceito abstrato, irrealizável. No nosso caso, tentamos dar ao texto em português uma fidelidade relativa, não procurando «melhorar» o original para o tornar mais legível e chão, para o depurar de imprecisões ou estranhezas estilísticas (comuns em Dostoiévski, por exemplo), mas sabemos no entanto que não o conseguimos, que se perde na tradução a reprodução dessas estranhezas ou imprecisões (cremos que, ainda no caso de Dostoiévski, desejadas propositadamente pelo autor para descrever estados de espírito e emoções extremas como delírios ou acessos de loucura). Perdem-se também na tradução situações, gestos, costumes única e atavicamente russos, que qualquer leitor russo capta naturalmente e a que, na tradução, não é possível dar o significado e o sentimento certos.

O facto de a Nina ser russa e o Filipe português é uma mais-valia para o vosso trabalho?
No nosso caso é uma das condições obrigatórias para uma tradução mais fiel; a outra condição é a proibição que nos impusemos de não seguirmos nem sequer consultarmos, no nosso processo de tradução, qualquer outra versão que não a russa. Uma tradução do russo para o inglês, o francês, o espanhol, etc. pode ser considerada “boa” mas somente para a língua inglesa, francesa ou espanhola. Essas traduções, quando passadas para o português, irão refletir duplamente as perdas e as insuficiências encontradas por esses tradutores e irão, sobretudo, refletir o espírito dessa línguas e não do russo. Há que não esquecer também o aspeto ético da questão: os tradutores ingleses, franceses, espanhóis, etc, realizaram sem dúvida, tal como nós traduzindo do russo, um trabalho de pesquisa minucioso para que a sua tradução seja o mais eficaz possível. Seria desonesto para o tradutor português aproveitar-se desse trabalho.

Em 2002 ganharam o Grande Prémio de Tradução Literária Associação Portuguesa de Tradutores/Pen Clube e em 2012 receberam o prémio especial do júri da revista LER/Booktailors pelas suas traduções literárias. O que significam para vocês estes reconhecimentos?
É sempre gratificante ver-se que o nosso trabalho é reconhecido e verificar-se que a nossa ideia das traduções diretas do original russo são levadas em conta pelos editores e pelos júris dos prémios.

Quando foi a primeira vez que leram Dostoiévski e com que impressão ficaram?
Filipe Guerra – Lembro-me que li Dostoiévski na primeira juventude, depois de ter lido um texto de Jean-Paul Sartre (não recordo em que obra) no qual este já intuía a importância fundamental e inovadora de Dostoiévski no romance europeu.
Nina Guerra – Comecei a ler Dostoiévski aos quinze anos, “O Idiota” (que reli vezes sem conta) e “A Aldeia Stepantchikovo”.

Qual é o maior desafio que Dostoiévski coloca aos tradutores?
Um dos maiores desafios é a aproximação ao seu estilo muito particular que, decididamente, rompe com o esmero literário, com a elegância e a linearidade da frase segundo os ícones da época. A sua prosa é muitíssimo teatral e a fala direta de cada personagem é muito individualizada e específica, em correspondência com a condição social, a idade, a nacionalidade: há a fala do comerciante moscovita, a do fidalgo latifundiário, a do intelectual dos anos de 1840, a de um aristocrata marasmático, a fala dos camponeses, o russo deturpado de um polaco, de um alemão, etc. Além disso o autor dá-nos o movimento natural das emoções das personagens, dos seus pensamentos e sentimentos, com as suas hesitações, pausas, acelerações, lapsos, incongruências, dúvidas, contradições…

Como escritor, foi um dos precursores da mais moderna forma do romance, posteriormente representada por nomes como Marcel Proust, Virginia Woolf e James Joyce. Para vós qual é o traço da literatura russa mais característico deste autor?
Neste aspeto, consideramos definitiva a obra grandiosa sobre Dostoiévski do historiador e teórico russo da literatura Mikhail Bakhtin (1895-1975) que mostra como Dostoiévski inventou uma forma artística fundamentalmente nova, na Rússia e não só: o romance polifónico, ou dialógico (de diálogo), “em que as vozes das personagens, como instâncias discursivas, se confrontam numa contradição permanente”. A obra de Dostoiévski “ultrapassa mesmo os limites exclusivos da criação romanesca e alcança princípios fundamentais da estética europeia” (Bakhtin).

Das 10 obras agora lançadas pela Editorial Presença qual a que se revelou mais desafiadora e porquê?
Desde o ano 2000, a Editorial Presença publicou mais de vinte obras de Dostoiévski por nós traduzidas (se considerarmos que em 3 dos 16 volumes há vários contos e novelas), conjunto onde se incluem as 10 agora relançadas, por ocasião do bicentenário do nascimento do autor.
Todas elas foram “desafiadoras”, no sentido da abordagem intrinsecamente literária. No sentido da abordagem extra-literária, digamos, o nosso maior “desafio” consistiu em termos escrito para publicação um prefácio recente à obra fundamental do autor, “Os Irmãos Karamázov” (cujo relançamento está previsto para junho), em que apontámos a deturpação da biografia de Dostoiévski contida num texto acompanhante de outra tradução, texto esse escrito por um conhecido autor que se compraz em identificar uma personagem negativa de “Os Irmãos Karamázov” com um membro real da família do escritor Dostoiévski e, a partir daí, atribuir características insultuosas ao homem Dostoiévski com base na conclusão psicanalítica do “tal pai, tal filho”.

Descubra mais sobre “O Dulpo” aqui.

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