Sal e açúcares escondidos nos alimentos processados: os “Cavalos de Tróia” da era moderna

O sal e os açúcares estão escondidos em quantidades excessivas nos alimentos processados; eles sequestram o nosso paladar e comprometem os comportamentos alimentares saudáveis. É preciso traçar limites sem demora!

Sabemos que a informação sobre a composição nutricional destes produtos é disponibilizada no rótulo alimentar, mas nem sempre nas melhores condições, dado que a indústria alimentar recorre a palavras indecifráveis para a grande maioria de nós que não domina os termos específicos próprios da química alimentar. Em função disto, o que recomendo é que consulte e aprenda a avaliar, nos produtos que mais consome, pelo menos, estes dois aspetos: a quantidade de sal (ou cloreto de sódio) e os açúcares. Estes dois ingredientes são prejudiciais para a saúde de qualquer um de nós e, atualmente, eles impõem massivamente a sua presença. Analise qualquer informação acerca deste assunto e vai chegar a esta conclusão: quando a alimentação não é à base de alimentos frescos e integrais, estamos condenados a alimentos que nos invadem como “Cavalos de Troia”: parecem ser úteis, estruturados e muito nutritivos mas, na realidade, comprometem a saúde de quem os come.

A expressão “Cavalo de Troia” surgiu da mitologia grega e deu origem a outra expressão também conhecida como “presente de grego”; é um termo usado para qualquer coisa que aparenta ser boa e agradável mas que, pelo contrário, produz consequências negativas, revelando-se, por isso, perigosa, neste caso, para a nossa saúde. Na verdade, este termo encaixa que nem uma luva nos alimentos processados altamente ricos em sal ou em açúcares que estamos a comprar.

Parece-me a mim que estamos a ficar mais conscientes e críticos e, gradualmente, a despertar para opções verdadeiramente saudáveis, naturalmente caraterizadas pela ausência do sal e de açúcares artificialmente adicionados. Mas ainda há quem resista a estas verdades e não acredite que a indústria alimentar seja capaz de fabricar “presentes de grego”, convencidos pela máquina da publicidade que a toda a hora os leva a crer que os seus produtos preenchem os requisitos nutricionais adequados para tornar qualquer lanche num lanche saudável e que até são alternativas válidas aos alimentos naturais e integrais nas refeições principais.

A título de exemplo, e por várias razões, selecionei, entre dezenas de alimentos processados bastante consumidos, o pacote de batatas fritas. Arrisco a afirmar que não há criança, jovem ou adulto que lhe resista. Está em qualquer ponto de venda.

Analisemos então um pacote de batatas fritas com o peso de 120 g. Depois de consultar rótulos alimentares de três marcas, recolhi a seguinte informação: em média, em cada pacote há 1,92 g de sal; detetei também a presença de açúcares adicionados (uma das marcas apresentava 16,8 g) e portanto, uma fonte escondida de calorias. No que respeita ao consumo de sal, a Organização Mundial de Saúde recomenda que não se ultrapassem os 5 gramas diários. Na maioria dos países desenvolvidos, a ingestão de sal anda à volta dos 9 a 12 g/dia, sendo que nas crianças com mais de 5 anos este valor geralmente já é superior a 6 g/dia, um valor que vai aumentando com a idade, sobretudo à custa do sal que se ingere nos alimentos processados.

Posto isto, temos que ponderar e fazer contas: se um mero pacote de batatas fritas atinge mais de 1/3 do valor diário aconselhado em sal (38%), restam 3,08 g para todos os outros alimentos e refeições de um dia inteiro. É fácil adivinhar que fica muito difícil ficar por aqui, já que a lista dos alimentos processados altamente salgados é extensa e bastante consumida; é o caso das bolachas, das pipocas, das pizas, dos fiambres, da mortadela, do bacon e das salsichas. Confirme também naqueles queijinhos portáteis que pode levar consigo e que, se comer dois por dia, o sal chega aos 0,7 g. Todos estes exemplos tornaram-se elementos presentes de forma assídua no atual padrão alimentar português.

Por que razão devemos reduzir o consumo de sal?
O consumo excessivo de sal aumenta a pressão arterial, o que contribui em grande medida para o risco aumentado de doença cardiovascular e doença renal. Além disso, tem efeitos diretos no risco de morte por acidente vascular cerebral e na hipertrofia ventricular esquerda para além de, provavelmente, ser uma das principais causas de cancro do estômago. Há também evidências crescentes de que o consumo de sal está indiretamente relacionado com a obesidade infantil, por induzir ao consumo de refrigerantes.

Seja pelo sal ou pelos açúcares camuflados, a minha recomendação é que os elimine da rotina alimentar e os substitua por alimentos naturais, livres de rótulos. Pense em fruta e na sua grande variedade como uma opção verdadeiramente saudável para pequenos lanches. A fruta da época, de acordo com as 4 estações, afasta a monotonia imposta pelos “Cavalos de Troia” da era moderna e liberta-nos dos prejuízos devastadores para a saúde.

Não espere que a indústria alimentar baixe o sal ou os açúcares dos seus produtos, sem que a isso seja forçada. Encarregue-se de iniciar o processo de educar o seu ambiente familiar e seja o primeiro a desencadear essa mudança! Lembre-se que a saúde e a família são suas e o dinheiro também!

Por Margarida Vieira, nutricionista

Referências
WHO. Guideline: Sodium intake for adults and children. Geneva, World Health Organization (WHO), 2012. He, F. J., & MacGregor, G. A. (2010). Reducing population salt intake worldwide: from evidence to implementation. Progress in cardiovascular diseases, 52(5), 363- 382.

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