António Sérgio, a homenagem de Jon Marx

Não me lembro de ouvir o António Sérgio no Rotação, não me lembro do indicativo do programa, não faço ideia qual era o horário das emissões, mas tenho a certeza que foi aí que o ouvi pela primeira vez, em 1979. Também sei quem me aconselhou a ouvir o programa do “gajo que tem uma voz que parece que comeu cascalho”, um puto com uma pequena, mas criteriosa colecção de discos, cuja casa eu frequentava diariamente. Lembro-me bem de jogar futebol no pátio desse meu amigo, com mais meia-dúzia de rapazes da mesma idade, enquanto um rádio manhoso, estrategicamente colocado em cima de um muro, debitava os sons do Rock em Stock do Luís Filipe de Barros para nós (e a certamente entusiasmada vizinhança) ouvirmos e cantarmos, enquanto destruíamos de forma categórica e metódica os vasos e as plantas que, estupidamente, não se desviavam dos nossos espectaculares remates.

Mas à noite, a atitude era diferente. Era a hora do Rolls Rock – estávamos em 1980 e o António Sérgio tinha mudado da Renascença para a Comercial – e a brincadeira terminava. Era a hora de sacar das cassetes de qualidade altamente duvidosa (custavam 20$00 numa papelaria da Rua de Cedofeita), para gravar os programas retirando-lhes a voz, de modo a podermos criar as nossas próprias compilações e fazer um figurão junto dos dois ou três amigos que, fora do nosso círculo íntimo, tinham paciência para nos ouvir tecer grandes elogios “aquele 12″ lançado pelos Neubauten numa editora da Patagónia e comercializado, em exclusivo, no Burkina Faso”. O sucesso junto das miúdas estava garantido…

Obviamente que, nessa altura, para nós, putos imberbes e pouco esclarecidos, o Mestre ainda não era o Mestre. Rapidamente percebemos que amputar os programas da voz, daquela voz, não era uma atitude muito inteligente. Como ouvíamos os programas de caneta e bloco de notas em riste, prontinhos a anotar o nome das canções que íamos gravando, está visto que, ao mais pequeno deslize, o caos caía sobre as nossas cabeças. Assim, andamos vários meses convencidos que a canção Sorry For Laughing, um single dos Josef K, afinal não fazia parte do portfolio de John Cale.

Nessa altura, o Rolls Rock de António Sérgio tinha um parceiro no crime, as crónicas de Miguel Esteves Cardoso publicadas no Sete e n’O Jornal, que eram editados, respectivamente, à quarta e à sexta-feira.

Se o papel de António Sérgio na divulgação da nova música dessa época é de uma importância única, o trabalho de Miguel Esteves Cardoso não pode ser ignorado, funcionando, muitas vezes, como um complemento fundamental, não sendo poucas as vezes que novos nomes surgiam em primeiro lugar nos textos do MEC e, um pouco mais tarde, eram apresentados no programa do António Sérgio. A informação cruzada entre os textos do MEC e os sons do António Sérgio ajudaram a formar o gosto a uma geração, numa época de acesso limitadíssimo aos discos e às publicações que eram lançadas lá fora, e reduzida às importações da Cobb Records e a escassas viagens de amigos ao estrangeiro.

Em 1982 nasceu o Som da Frente e, mais que um programa de rádio, o António Sérgio, de forma involuntária, ajudava a criar toda uma estética, a definir um gosto musical, tão vasto e impossível de ser definido, tal era a profusão de géneros que nele cabiam, limitados apenas pelas diversas correntes musicais que nos era dado a descobrir, diariamente, através da antena da Comercial.

Algo de único aconteceu. Enquanto o NME ou o Melody Maker falavam de New Wave, Cold Wave, Ska, Goth, ou mais tarde, Shoegazers ou Grunge, toda uma geração de ouvintes do António Sérgio auto-definia-se por gostar de uma coisa híbrida, de nome “Som da Frente”, criada por um homem que, não fazendo música, oferecia como ninguém, a música dos outros. E à sexta-feira e sábado, saíamos à rua, e encontrávamo-nos em clubes como o Griffon’s ou o Batô para ouvir o Som da Frente, que tanto definia um programa de rádio como a música que nele passava, os Psychedelic Furs ou Echo and The Bunnymen, que hoje são sons correntes em discotecas revivalistas da moda, mas à época eram sonoridades non-gratas na maior parte dos lugares de diversão nocturna.

Em 1987 comecei a trabalhar e os horários não me permitiam escutar, em directo, o programa do António Sérgio. Durante dois ou três anos, para resolver o problema, gravava programa atrás de programa e ouvia no leitor de cassetes do carro. Como o dinheiro não abundava, gravava uns por cima dos outros até as fitas ficarem num estado de tal forma degradado que não davam para mais. Obviamente que, assim sendo, quem viajava comigo e não partilhava os meus gostos musicais, acabava por sofrer autênticas torturas sonoras. O trauma foi tão grande que, numa dedicatória por altura do meu 44º aniversário, um amigo de longa data escreveu o seguinte num cartão de parabéns: “Entusiasta de programas de rádio como o Som da Frente, cujas bolorentas gravações ainda hoje guarda, começa desde tenra idade a coleccionar uma discografia musical inaudível interpretada por grupos com nomes impronunciáveis.”

antonio

Reencontrei o António Sérgio quando a inesquecível XFM iniciou as suas emissões para a cidade do Porto, onde vivo. Nunca o trânsito caótico da minha cidade me pareceu tão suportável. Foram os tempos do Grande Delta, da possibilidade de ouvir o António Sérgio em horário diurno, e tomar contacto com outros radialistas que, claramente, se identificavam com uma forma de fazer rádio e de divulgar alternativas, diferentes formas de fazer rádio influenciadas, cada uma à sua maneira, pelos projectos do Mestre ao longo dos anos 80 na Rádio Comercial. A XFM terminou e, durante mais de dez anos, deixei de ouvir os programas do António Sérgio. Ocasionalmente, num regresso mais tardio a casa, acabava por ouvir e matar saudades. Mas raramente acontecia.

A partir de 2008, os programas do António Sérgio voltaram a fazer parte do meu dia-a-dia, através da emissão via Web da Radar, para onde se tinha mudado em boa hora, e também através dos podcasts do Viriato 25 e do SOS Radar que continuo a guardar, agora em formato digital.

1 de Novembro de 2009, por volta das 13 e qualquer coisa.

“O António Sérgio não ERA aquele tipo da rádio de quem tu GOSTAVAS muito?” A pergunta sem sentido, feita por quem sabia bem a resposta, mas desconhecia a melhor forma de dar a notícia, deixou-me perturbado. Balbuciei qualquer coisa como “o Sérgio morreu?”, atravessei a casa, do escritório até à cozinha onde a televisão transmitia uma entrevista de ocasião com um colega do António Sérgio, cujo nome não recordo e que, estou certo, debitava algumas palavras de circunstância que não fui capaz de reter.

Para quem, como eu, não conheceu o António Sérgio, nunca o viu ou falou com ele, cujo único contacto existiu através do envio de postais com a votação para a Lista Rebelde, torna-se difícil explicar o sentimento de vazio que o seu desaparecimento deixa. No fundo, que diferença faz, para mim e muitos como eu, não voltar a ouvir os programas do António Sérgio se, graças à tecnologia, podemos matar saudades da sua voz, da sua presença nas ondas da rádio através das gravações feitas ao longo do tempo? Com a vantagem para aqueles que têm uma costela revivalista, de não ter de aturar aquelas novos sons que se estranham e que ele tinha a irritante mania de nos oferecer, noite após noite, independentemente da estação onde se encontrasse.

O problema, para mim e muitos outros, é que o António Sérgio não representa apenas aquele tipo, de voz cavernosa, que nos deu a música de que gostamos, que nos ajudou a traçar o nosso próprio caminho e a definir os nossos gostos na área do pop / rock, do blues, e também do cinema ou literatura através de referências constantes em inúmeras rubricas que, em parceria com a Ana Cristina, lutou contra o marasmo e traçou um percurso único na rádio portuguesa.

Mais que tudo isso, o António Sérgio foi aquele que, poucos anos após a revolução de 74, num país ainda fortemente marcado pelo analfabetismo, ignorância e preconceito, declarava diariamente, no início dos seus programas: Som da Frente, O DIREITO À DIFERENÇA.

Mais do que a música, mais do que o gosto pela constante divulgação e pela procura de novos sons e novas pistas, este é o legado que o António Sérgio deixou, ainda em vida, a muitos como eu, da minha geração e das que se seguiram. A melhor forma de o homenagear é continuar a respeitar este proclamado direito à diferença, mesmo que, por vezes, os nossos preconceitos e os nossos próprios demónios tornem a tarefa um pouco complicada.
Para e por uma imensa minoria…

https://www.facebook.com/ListaRebelde?fref=ts

Por: Jon Marx

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