Ambição justificada: “Burning Ambition”, o documentário sobre os Iron Maiden, chega hoje às salas de cinema

Hesitei em iniciar este texto com uma referência ao 13 de Maio, dia de aparições ou trips colectivas, peregrinações ou grandes ajuntamentos movidos pela fé, pois seria demasiado cliché. Mas por o tema ser Iron Maiden, tal parece que se impõe. “Imagem ou ideia muito repetida ou estereotipada ”, diz o dicionário da Infopédia sobre o que é um cliché, e uma grande percentagem daqueles que o heavy metal tem foram criados pelos Iron Maiden, muito mais que pelos pais fundadores, Black Sabbath, só rivalizando com os Judas Priest. Damos uma conotação negativa à palavra, mas aqui não a aplico em sentido pejorativo, mas de reconhecimento da importância fulcral dos Iron Maiden no som, imagem e idiossincrasias do género musical em que se inserem, e da sua importância na história da música em geral.

Por Ricardo S. Amorim

“Burning Ambition” é o novo documentário sobre os Iron Maiden (e não dos Iron Maiden, como Steve Harris já fez questão de sublinhar) e teve a sua antestreia precisamente no dia 13 de Maio. De  acordo com a sua apresentação oficial, cito: “abrangendo cinco décadas, este documentário eletrizante traça a ascensão da banda desde os pubs do leste de Londres até aos maiores estádios do mundo. Com entrevistas exclusivas com membros da banda e colaboradores como Javier Bardem, Lars Ulrich e Chuck D, bem como sequências animadas totalmente novas da lendária mascote da banda, Eddie, o filme oferece um olhar raro e íntimo sobre a visão intransigente dos Iron Maiden e a sua ligação inabalável com o seu exército verdadeiramente global de fãs.”

É um resumo bastante fiel do que é este filme: relata as origens humildes de um grupo de jovens da classe trabalhadora, a sua ascensão, queda e ‘re-ascensão’, tem testemunhos de vedetas (novamente, sem conotações pejorativas), fãs de diferentes origens e backgrounds e com percursos bastante distintos.

Sobre as vedetas, a maioria não acrescenta muito. Lars Ulrich e Scott Ian picam o ponto, como parece acontecer em todos os documentários sobre todos os assuntos, bem como Tom Morello, que parece ser o novo porta-estandarte do metal (e até está a realizar um documentário sobre os Judas Priest). Por outro lado, o actor espanhol Javier Bardem dá um testemunho apaixonante em todas as suas intervenções. Não é apenas uma celebridade que usa a t-shirt pela graça, é tão fã quanto nós (excelente, o momento em que declama a letra de “Run to the Hills” como se de Shakespeare se tratasse), e fica a sensação de que o testemunho de Chuck D, dos Public Enemy poderia ser mais bem aproveitado. Por ser uma pessoa com um discurso tão articulado, com um nível cultural tão elevado e por ser uma figura incontornável de um género tão distante do heavy metal (ou não, aqui as opiniões dividem-se e não é este o espaço para a discussão sobre esses cruzamentos), poderia ter muito de interessante a dizer, além do pouco que foi incluído.

No que diz respeito ao relato da história dos Iron Maiden, não existe propriamente qualquer novidade para os fãs medianamente informados sobre o percurso da banda. A história é contada de forma necessariamente superficial, pois seriam necessárias horas de documentário para a detalhar. Por exemplo, entende-se o que levou à saída de Paul DiAnno e, mais tarde, de Adrian Smith e Bruce Dickinson (que regressariam em 1999), mas ficou por explicar a mudança de Clive Burr por Nicko McBrain, ou até mesmo Dennis Stratton (que é praticamente ignorado) por Adrian Smith.

Todavia, para quem pretender conhecer a história em maior detalhe, além de diversa bibliografia, existem os documentários “The History of Iron Maiden – Part 1: The Early Days”, seguidos da segunda parte como extra na edição de 2008 de “Live After Death” em DVD e “Maiden England ‘88” em 2013. Nessas três peças, essenciais para qualquer fã, a história é contada com bastante detalhe até determinada fase cronológica.

“Burning Ambition”, como documento histórico, tem a mais-valia de cobrir a fase Blaze Bailey, e o regresso de Bruce e Adrian no final da década de 90, para voltar a fazer crescer os Iron Maiden no Século XXI a patamares de popularidade muito superiores à década dourada de 80 e com uma impressionante capacidade de rejuvenescimento da sua base de fãs. Existe hereditariedade, da paixão que passa de pais para filhos e até para netos, mas também há redescoberta orgânica e espontânea pelos mais jovens, o que é verdadeiramente notável. Sobre Blaze Bailey, parece existir uma clara intenção na sua defesa, pois personifica a queda dos Maiden. A popularidade caiu a pique nessa fase, mas a criatividade, já dava sinais de esgotamento depois de “Seventh Son of a Seventh Son” e a saída de Adrian Smith em 1990.

Para uma geração que cresceu a ouvir o pedido de “scream for me Long Beach” no “Live After Death”, sabendo que esgotavam arenas por toda a América do Norte, foi chocante saber que passaram a tocar em salas com capacidade para 1000 pessoas naquele território e nem 500 tinham em algumas cidades. E sabemos que, mesmo que com menor decadência, aconteceu em todos os territórios, embora Rod Smallwood diga que foi circunscrito à América do Norte. É verdade que Bailey teve o emprego mais difícil do mundo (substituir Bruce Dickinson), mas fica patente uma clara intenção de defesa do infamado vocalista, que terá as suas valências, mas que creio ter sido um erro de casting, embora não tão mau quanto o gosto para calças nos anos 80. E nessa defesa, era escusado tanto tempo de imagens de Bailey e Harris passados, à procura de quem teria cuspido no vocalista. Poucos segundos seriam suficientes para ilustrar as adversidades com que se deparou na altura. Tanto tempo, foi apenas humilhante.

O papel de Eddie é bem explicado e demonstrado, e com várias animações ao longo do documentário (pessoalmente, acho que poderiam ser melhores: um Eddie com uma qualidade de animação Pixar teria sido brutal), pois é o personagem que cria uma intemporalidade e misticismo em relação a Maiden, atrai os mais jovens (sou disso exemplo, não tivesse visto os cartazes na parede do concerto da “Seventh Tour” e as capas do “Live After Death” e “Somewhere in Time” nas lojas de discos, não vos estaria aqui a escrever). Os relatos dos fãs anónimos são particularmente tocantes, fossem os polacos que tinham de contrabandear cassetes piratas para lá da Cortina de Ferro, a libanesa que encontrou no álbum “Fear of the Dark” um reflexo da sua vida num país dizimado pela guerra, o polícia de Nova Iorque traumatizado por ter estado no ground zero no 11 de Setembro, e encontrou na música dos Maiden o seu escape, os fãs da antiga Jugoslávia… todos nos revimos, à escala da nossa realidade particular, naqueles testemunhos. E, mais uma vez, o Javier Bardem não se empoleira no seu Óscar ou na sua popularidade, é um fã como qualquer outro que dá o seu testemunho, de t-shirt orgulhosamente vestida.

Excelente realização de Malcom Venville, todo a narrativa se desenvolve com muita fluidez e dinamismo, o som (pelo menos na sala de cinema) é impactante, especialmente nos clips iniciais com Paul DiAnno em que se ouve toda a sua agressividade, com as imperfeições genuínas que acontecem num concerto, sem polimentos adicionais; várias imagens nunca antes vistas, outras já bastante conhecidas, a omnipresença de Rod Smallwood, o manager de sempre, e outros episódios mais recentes, como a luta de Bruce contra o cancro ou o AVC de Nicko McBrain que levou à sua aposentação… muitos pontos de interesse para listar.

Reflectindo sobre o momento da banda, passados 50 anos de carreira, e a contínua indiferença da indústria, não há como não deixar de pensar na recente notícia da nomeação dos Iron Maiden para Rock n’Roll Hall of Fame. Durante vários anos isso foi tema de debate, e apesar da indesmentível importância histórica dos Maiden, esse reconhecimento nunca chegou, o que foi sendo sucessivamente desvalorizado pelos membros da banda, e que até afirmaram que recusariam a nomeação caso viesse a acontecer. O seu hall of fame são os seus fãs, e este documentário é a tentativa de demonstração disso, e bem-sucedida nesse desiderato, mas o filme parece ter essa agenda. Serve quase como carta de apresentação, acompanhada de CV actualizado, em jeito de candidatura, ou também um induction speech e vídeo para passar no ecrã gigante no Peacock Theater de Los Angeles no próximo dia 14 de Novembro, só que em longa-metragem (1h46m, de acordo com o IMDB). Enquanto fã, sinto-me dividido quanto a esta nomeação. Por um lado, é da mais elementar justiça, por outro, é a institucionalização de algo que é muito nosso, precioso e que não queremos ver conspurcado pelo establishment.

Penso que os Iron Maiden encontraram o melhor caminho: não recusam a nomeação, mas não vão marcar presença na cerimónia. A sua celebração será da forma que deve ser, num concerto seu, com os seus fãs e não com os tubarões da indústria em fatos Armani.

Filme obrigatório para fãs, recomendável para melómanos, interessante para curiosos e entretido para qualquer um.

Terminando com mais um cliché: Up the Irons \m/

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