À volta das letras com Nelson Marques sobre “Os Homens Também Choram”

Um livro que relata histórias de homens cansados do velho guião da masculinidade tradicional, ao qual, hoje, opõem formas mais diversas e inclusivas. “Os Homens Também Choram” pretende apresentar a realidade de homens que também são vítimas desta estereotipagem «tóxica». Convocá-los para a luta pela igualdade e o combate à violência de género, como explica em entrevista o autor Nelson Marques.

O que é a nova masculinidade?
Uma nova masculinidade (ou novas masculinidades) é uma masculinidade que rejeita o guião tradicional que nos diz que um homem não chora, reprime as suas emoções, não tem medo, não é vulnerável, não pede ajuda, que renega os estereótipos segundo os quais um homem para ser homem tem de ser forte, corajoso, dominante, líder. É preciso libertar os homens dessas amarras que os aprisionam dentro de uma jaula, limitando as suas possibilidades e afetando o seu bem-estar físico e emocional. Por exemplo, em Portugal, mais de sete em cada 10 suicídios são de homens e estes vivem, em média, menos seis anos do que as mulheres. Ainda que muitos homens tenham dificuldade empercebê-lo, as expectativas irrealistas do modelo tradicional de masculinidade prejudicam-nos grandemente e também às mulheres, que são as principais vítimas desta realidade, eternizando as desigualdades de género e o ciclo de violência e opressão. Há, por exemplo, uma ligação direta entre o pensamento que, na cabeça de muitos homens, os coloca como superiores às mulheres e os números trágicos da violência doméstica. Uma nova masculinidade será, por isso, uma masculinidade mais responsável, cuidadora e não violenta, que rejeite a desigualdade de género, o machismo, o assédio e a violência sobre as mulheres, e que seja aliada na construção de um mundo melhor e mais justo para todas as pessoas.

O que o levou a escrever este livro?
Costumo dizer que, com os livros, passa-se algo muito interessante: são as histórias que nos escolhem, não somos nós que as escolhemos. Elas andam por aí à espera de encontrar quem as conte. Foi também assim com este livro; há dois anos estava muito longe de imaginar que um dia iria escrevê-lo. A culpa é em grande parte de outro livro, “A (R)Evolução do Homem: Repensar a masculinidade para o século xxi”, que disseca os preconceitos que persistem nas sociedades ocidentais sobre o que é “ser-se homem”. Li-o em março do ano passado, quando a pandemia de covid-19 chegou a Portugal, e teve em mim um impacto tão grande que me levou a escrever primeiro uma reportagem e depois este livro, com histórias de homens que no nosso país rejeitam o velho guião da masculinidade e querem escrever um novo, mais aberto, mais empático e, sobretudo, que liberte os homens da caixinha onde são colocados ainda antes de nascerem.

Nele assume-se como um ativista ou como um jornalista?
Sou acima de tudo um jornalista e um escritor, não um ativista. O que faço é dar voz a histórias que acho que merecem ser contadas. Ao mesmo tempo, tenho consciência que quando o meu trabalho pode chegar a muitas pessoas, isso traz uma grande responsabilidade. Se puder usar o meu trabalho para ser um agente de mudança, desafiando outras pessoas a quererem construir um mundo onde todas as pessoas possam ser mais felizes, tanto melhor.

Começa o livro com uma citação de Barack Obama. O que levou e fazer esta escolha?
Antes de mais porque me revejo nela, na ideia de que ser homem é, sobretudo, “ser um bom humano”. É isso que nos deve nortear. E também por Obama ser um excelente exemplo de alguém que usou a sua enorme visibilidade para tentar promover a mudança, afirmando-se como um aliado das mulheres e desafiando mais homens a juntarem-se a ele. Todo o oposto do que simboliza o seu sucessor, Donald Trump, acusado ao longo dos anos de condutas sexuais impróprias por pelo menos 25 mulheres e que foi eleito depois de agarrar mulheres pela vulva.

O livro centra-se nas histórias de sete portugueses. De que forma “escolheu” estas histórias? O que têm elas em comum?
Em bom rigor, são cinco portugueses (um deles nascido em Cabo Verde), um espanhol e um chileno. Têm em comum o facto de serem homens cansados do velho guião da masculinidade e que se envolveram ativamente em projetos que tentam promover formas mais diversas e inclusivas de ser homem, como as Men Talks, os encontros “O Homem Promotor da Igualdade”, a associação Quebrar o Silêncio, o movimento antimachista Não é Normal ou o coletivo Hombres Tejedores, que junta homens que tricotam como forma de derrubar estereótipos de género.

É preciso a revolução da masculinidade? Ou seja, é preciso que os homens assumam a sua humanidade, como seres que sentem, choram, riem e sofrem?
Sem dúvida. Só assim será possível construirmos um mundo onde todos possam ser “mais felizes e mais honestos consigo próprios”, como escreve a Chimamanda Ngozi Adichie. Ao longo do tempo, têm sido as mulheres, em especial as feministas, a carregar o fardo da mudança. Está na hora de os homens assumirem também o seu papel para acabar com uma cultura que os aprisiona tanto a eles como às mulheres. É a grande revolução pendente do nosso século e precisa da ajuda de todos.

Nota alguma evolução nas novas gerações, na forma como eles assumem a masculinidade?
Há diferenças significativas entre a minha geração e a geração dos meus pais e dos meus avós. E tenho grande esperança na geração dos meus sobrinhos. O mais velho tem 15 anos e vejo cada vez mais jovens na idade dele que, por exemplo, olham para a comunidade LGBT com uma tolerância e uma empatia que não existiam há 20 ou mesmo há 10 anos.

Homens e mulheres devem estar juntos nesta luta?
Sem dúvida! Só juntando as forças de todas as pessoas, homens, mulheres e quem não se revê nesta lógica binária, podemos construir um mundo melhor. Felizmente, há cada vez mais pessoas a perceber que a igualdade de género não é uma conta de subtrair, é uma conta de somar, que nos beneficia a todos/as.

De que forma observa o movimento Me Too?
O livro começa precisamente pelo movimento MeToo porque foi um daqueles momentos de viragem que têm o poder de provocar verdadeira mudança. Foi um movimento que colocou a masculinidade debaixo do microscópio, obrigou os homens a olharem-se ao espelho e a questionarem o seu papel e os seus privilégios na sociedade.
Obviamente, não sou ingénuo ao ponto de achar que foi o suficiente para acabar de vez com a cultura machista que ainda domina a nossa sociedade, mas é um passo na direção certa. E, acima de tudo, teve o enorme mérito de começar a derrubar o muro de silêncio em redor dos casos de assédio e de abuso sexual, fazendo com que a voz das mulheres se ouça e se sintam menos sós, e obrigando a sociedade a olhar para uma realidade que manifestamente tem negligenciado.

Pode algum dia derrubar-se o velho ideal de masculinidade?
Essa é, pelo menos, a esperança que tenho. Obviamente, há ainda um caminho longo a percorrer, mas não devemos subestimar os avanços que temos tido nas últimas décadas.

Em algum momento teve dúvidas se devia ou não avançar com este livro?
Não. Senti sempre que eram histórias que tinham de ser contadas e um debate que tínhamos de ter. Mas não espero unanimismos, sei que haverá sempre quem critique, quem ache que este debate não é necessário e queira manter o status quo. Geralmente, são aqueles que atacam o que entendem ser a “ditadura do politicamente correto”, uma expressão que nasce na extrema direita e nos setores mais conservadores da sociedade. Não é nada de novo. Sempre que se tenta fazer uma revolução, há forças que procuram impedir que o mundo avance. Mas não vencerão. O amor e a empatia são mais fortes do que o ódio e a intolerância.

E o Nelson também chora?
Claro. Choro de alegria, choro de tristeza, emociono-me cada vez com mais facilidade. A partir do momento que deixamos de tentar bloquear as nossas emoções, abre-se todo um novo mundo, é extremamente libertador. A questão é: haverá quem não chore? E, se existir, será verdadeiramente feliz? Duvido muito.

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