Vodafone Paredes de Coura 2017 Dia II

Ao segundo dia da edição 2017 do Vodafone Paredes de Coura a magia volta a encher o anfiteatro natural de Coura com concertos absolutamente memoráveis.

Sunflower Bean > You Can’t Win, Charlie Brown

Com o sol a pique a dar calor a uma tarde de verão em Paredes de Coura, o segundo dia do festival tinha início com os norte-americanos Sunflower Bean. Nascidos no bairro nova-iorquino de Brooklyn, em 2013, são formados por Nick Kivlen que mais parece um sósia de Bob Dylan enquanto jovem, na guitarra e voz, Jacob Faber, na bateria, e Julia Cumming, no baixo e voz. No palco Vodafone FM brindaram o público, grande parte dele vindo directamente do rio, com um alinhamento assente no registo discográfico de 2015 “Show Me Your Seven Secrets”, lançado sob a chancela da Fat Possum, com alguns temas novos lá pelo meio.

Na hora de descer até ao palco maior do festival, temos de deixar aqui um esclarecimento: devido ao fabuloso alinhamento de ambos os palcos somos incapazes de qualificar um como principal e outro como secundário. Para nós apenas divergem no tamanho, mas igualam em qualidade musical.

Feito isto era tempo de dar espaço ao You Can’t Win, Charlie Brown. A banda portuguesa que já tínhamos apanhado num festival anterior, não falha, o que não espanta se levarmos em linha de conta a enorme qualidade dos músicos que dela fazem parte. Ainda tarde estava quente, mas eram já muitos os fãs que na frente de palco se iam juntando para abrilhantar uma prestação já de si brilhante do colectivo lisboeta. Com os membros na casa dos trinta anos de idade, os You Can’t Win, Charlie Brown sabem fazer canções maduras, cheias de conteúdo musical. Ao longo dos anos percebemos que têm crescido, apresentando-se hoje em cima de um palco grande como o de Coura como uma banda coesa e completa. «Há 15 anos nós estávamos aí desse lado», afirma Afonso Cabral relembrando os seus tempos como festivaleiro. «Na altura tínhamos o sonho de um dia vir tocar ao festival e esse dia aconteceu hoje», conta visivelmente feliz. Dirigindo-se ao público pergunta «quem daí tem 15 anos e uma banda, ponha o dedo no ar». Das respostas a única verdadeira veio do nosso lado, o nosso filho, mas Afonso não viu estávamos longe, mas David ouviu a resposta «quem sabe se um dia, daqui a 15 anos não são vocês a tocar aqui». Pois quem sabe…

Nothing > Car Seat Headrest

Não sendo a sua primeira vez por terras lusas, os Nothing vieram até ao festival para nos brindar com o seu último registo discográfico, “Tired of Tomorrow”, editado em 2016 pela Relapse Records. Uma mistura explosiva entre shoegaze e punk é o que define os Nothing, mas desta vez o som esteve demasiado baixo. Nada que interferisse com o nosso agrado em vê-los por cá (de tal forma que comprámos o vinil o qual veio para casa autografado pela banda!).

Algo que os You Can’t Win, Charlie Brown talvez não saibam é que por entre o público que assistiu ao seu concerto estava Will Toledo, mentor e vocalista dos Car Seat Headrest que tocaram perto da hora do jantar no Palco Vodafone. Depois de terem dado em 2016 um grande concerto no NOS Primavera Sound, que nos encheu a medidas a nós e pelo que disse numa entrevista recente, também agradou sobremaneira a Will que inclusive o apelidou de «um dos melhores da nossa carreira», este regresso foi mais morno. A culpa? Pois essa não morrendo solteira, na nossa opinião, vai recair no público fortemente desconhecedor das canções da banda norte-americana. Com 24 anos de idade, Will Toledo é um mágico do Bandcamp onde foi dando a conhecer os seus projectos musicais durante praticamente uma dezena de anos. Os fãs, que colados à grade não tiraram os olhos do seu ídolo, sucumbiram a “Drunk Drivers/Killer Whales” e “Vincent”, temas que integram o muito aclamado registo discográfico de 2016, “Teens of Denial”. De cima do palco a postura inalterada de Will e uma prestação morna e sem grande “salero”, bem ao contrário da voracidade que vimos e vivemos no Porto há cerca de um ano.

Timber Timbre > King Krule

20h30 e começava aquele que viria a ser para mim (Sandra) o concerto que mais gostei em todos os quatro dias. E porquê, será legitimo da vossa parte perguntar. Porque, respondo eu, ali naquele palco aconteceu tudo o que mais me fascina no universo da música: o efeito surpresa. E quando falo em supresa não me refiro à música da banda canadiana, que essa conheço bem, mas à forma como a transpõem do disco para o palco sem que pelo meio do trajecto se perca a essência. Aliás, no caso dos Timber Timbre ela está lá toda, reforçada pela presença física dos quatro elementos da banda. Envoltos numa forte carga de mistério, a escuridão que envolve as melodias da banda abraça-nos e aconchega a nossa alma. Sentimo-nos transportados para dentro de um filme de David Lynch cuja personagem maior é o enigmático vocalista Taylor Kirk. Em palco faz-se acompanhar de Mathieu Charbonneau, Simon Trottier e Olivier Fairfield. Depois de terem lançado em 2011 “Creep on Creepin’ On” que garantiu o nome nas listas do Polaris Prize e de em 2014 terem lançado “Hot Dreams”, com uma nomeação para os JUNO Awards, chegou a vez de em abril passado pasmarem o mundo com o registo “Sincerely, Future Pollution”, inspirado no caos e na agitação política que se vive hoje no mundo.

As músicas de Timber Timbre são donas de uma forte intensidade pontuadas por elementos mágicos e estranhos resultado do crescente interesse de Taylor pelo sobrenatural. Nas letras pontuam referências a objectos mágicos, artes transcendentais e rituais de magia, como bem se percebe na faixa de “Magic Arrow”, do álbum homónimo editado em 2009. Momento único, bonito e brutal que quem o viveu não vai certamente esquecer!

King Krule foi o senhor de quase 23 anos que se seguiu no alinhamento do palco maior do festival. Há muito que ansiávamos vê-lo ao vivo para atestar ainda mais a sua qualidade, que, diga-se de passagem, em disco é irrepreensivel. Archy Ivan Marshall, assim o apresenta o seu cartão de cidadão, deu um concertão daqueles que faria corar de inveja alguns mais velhos que se munem de muitas peneiras e pouca qualidade. Peneiras ali não vimos nenhuma, mas qualidade vimos de sobra. Tanta para um garoto ruivo e magrinho que por momentos nos fez lembrar a personagem de Mark Twain, o miúdo Tom Sawyer. «Gosto deste monte», referiu numa alusão à multidão que enchia a encosta do festival. A fazer-lhe companhia cinco músicos, juntos alavancaram grande parte do alinhamento em “6 Feet Beneath The Moon” o registo discográfico lançado em 2013, mas não se fizeram rogados em trazer ao concerto outros temas. A voz rouca da Archy Marshall lembra por momentos Waits para depois ganhar força por si própria. Se canta assim com 23 anos, nem imaginamos como cantará daqui a uma década ou duas. Ainda melhor, certamente.

HO99O9 > At the Drive In

Não faziam parte do meu (Sandra) roteiro musical deste dia, mas como na equipa somos três e os outros dois tinham como um dos pontos altos da sua noite, lá nos fomos abeirando do Palco Vodafone. «Olha, já fotografei», dizia o início da sms do nosso fotografo, fã declarado da banda, «venham cá ter à frente que está-se aqui muito bem», era o convite, apetitoso sem dúvida, mas impossível de concretizar pois era tanta a gente que ali se acumulava que optámos por assistir ao concerto através de uma, chamemos-lhe, distância de segurança. Nada que perturbasse a visão do concerto que em cima do palco decorria com toda a força e pujança. Ou não fossem os HO99O9 uma banda nascida da combinação “mortal” de rap, punk hardcore e hip-hop industrial. Enquanto ao meu lado o elemento mais jovem da equipa (vestido com uma t-shirt dos Black Flag!!) me esclarecia que eram um duo, mas que ali estavam em trio com bateria, apreciava o mosh que na frente de palco decorria sem interrupção.

theOGM, o vocalista mais destacado da dupla oriunda de Newark , traz sobre o corpo uma t-shirt com Marilyn Manson e com ela ou ainda mais inspirado por ela berra e grita e sampla como se não houvesse amanhã. O caos chegou quando um dos elementos decide vir “visitar” o público dando um tremendo trabalho aos seguranças para voltar a por tudo na “ordem”. Resultado? Um dos concertos mais brutais de todo o festival.

Em 1993 nascia na cidade norte-americana de El Paso, no Texas, uma banda formada por Cedric Bixler-Zavala, na voz, Jim Ward, na guitarra, Omar Rodriguez-Lopez, na guitarra e na voz, Paul Hinojos, no baixo, e Tony Hajjar, na bateria. O mundo viria a conhecê-los como com o nome At the Drive-In. Tendo dado por terminada a sua existência em 2001, (Bixler e Rodriguez-Lopez formaram os The Mars Volta, enquanto Ward, Hajjar, e Hinojos a banda Sparta), os At the Drive-In voltaram a juntar-se em 2012.

De origem hispânica, Omar é filho de pais mexicanos e Cedric nasceu em Porto Rico, os At the Drive-In conseguem congregar e chamar a si o punk e o hardcore. A agitação de Cedric que não pára literalmente um segundo, apela ao incessante mosh e crowdsurfing por parte do público que em Coura tem gosto em levantar poeira….e ninguém se queixa, faz parte da festa.

Depois de uma hora de concerto, ouve-se Cedric dizer, «obrigada por nos terem vindo ver”, acrescentando que «lembrem-se que só podemos continuar a fazer isto se nos amarmos e aceitarmos uns aos outros».

Grande parte do público do Vodafone Paredes de Coura é composto por pessoal que passou a adolescência ou parte dela na década de 90 e eram precisamente esses os mais ansiosos relativamente a este concerto. A verdade é que no final todos se mostraram felizes e radiantes catalogando o concerto como um momento inesquecível.

Nick Murphy

Se enquanto Chet Faker nos agradava, agora como Nick Murphy não nos deixou nenhum tipo de memórias. Que nos desculpem os fãs, mas assim não. O agrado enquanto Faker foi tal que por quatro vezes o fomos ver: a primeira num festival lisboeta, outra ao Lux, seguida de outra no Coliseu de Lisboa e a derradeira noutra edição do mesmo festival lisboeta. Com esta nova “umbrella” parece-nos que algo ficou pelo caminho, mas pronto tudo bem. Concerto certinho e limpinho. Ele sabe fazer bem as coisas e encantou quem tinha de encantar.

Texto: Sandra Pinto
Fotos: Luís Pissarro

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