Vagos Metal Fest 2026 Dia II: entre a melancolia dos Katatonia e a escuridão dos Satyricon

Em Vagos, há dias que parecem durar muito mais do que as horas que marcam o relógio. O calor aperta, o pó começa a colar-se às botas e as pernas vão acumulando quilómetros, mas ninguém parece verdadeiramente interessado em parar. No segundo dia do Vagos Metal Fest, a música fez o resto: começou por surpreender, passou pelo peso, encontrou a melancolia, celebrou a história do heavy metal e terminou na escuridão. Uma viagem sem uma única direção e talvez tenha sido justamente isso que a tornou tão especial.

Texto: Sandra Pinto
Fotos: Luís Pissarro

Há uma altura, em qualquer festival, em que já não se sabe muito bem se o cansaço vem do calor, das horas de pé ou das guitarras que não param. No segundo dia do Vagos Metal Fest, essa sensação começou cedo. A Quinta do Ega foi enchendo devagar, entre reencontros, cervejas, pó levantado pelos passos e aquela expectativa que cresce sempre que se aproxima uma banda que queremos mesmo ver. Pelo caminho, houve espaço para propostas bastante diferentes entre si, mas que acabaram por construir um dos dias mais variados desta edição.

A tarde começou com Jana Bastien, uma escolha que, à primeira vista, parecia quase deslocada daquele cenário. Entre t-shirts pretas, patches e camisolas de bandas, a artista checa trouxe pop rock para um público habituado a coisas bem mais pesadas. E talvez tenha sido precisamente por isso que acabou por resultar. Jana não tentou transformar-se noutra coisa para caber no cartaz. Subiu ao palco, assumiu a diferença e entregou-se às canções. Houve quem ficasse mais atrás, quem simplesmente observasse e quem entrasse no jogo. “Lalala”, “I’m Your Doctor” e “No A Čo” trouxeram uma energia mais descontraída, enquanto “What Is Love” mostrou um lado mais contido. Não foi o concerto mais óbvio do dia. Mas também não precisava de ser. Num festival que vive tanto da tradição como da descoberta, ter alguém a puxar o público para fora da zona de conforto também faz parte da experiência.

Depois, os Toxikull fizeram aquilo que sabem fazer melhor: meter o heavy metal a andar. A banda portuguesa tem vindo a afirmar-se como um dos nomes mais interessantes da nova geração nacional ligada ao heavy metal tradicional. Desde 2016, tem construído um percurso assente em riffs rápidos, atitude old school e uma energia que parece feita para palcos de festival. Em Vagos, havia ainda outro motivo para estar atento: Turbulence, o novo álbum, lançado este ano, traz uma banda que continua a olhar para as raízes sem ficar parada nelas. Ao vivo, a conversa é outra. Os Toxikull não precisam de grandes explicações. As guitarras começam e o público responde. “Metal Defender”, “Hard to Break” e “Cursed and Punished” fizeram precisamente isso. O circle pit que se abriu durante “Cursed and Punished” foi daqueles momentos em que se percebe que o público já não está simplesmente a assistir. Está dentro do concerto. Lex Thunder conduz a coisa com naturalidade, enquanto a banda despeja riffs atrás de riffs. Há uma honestidade nos Toxikull que funciona particularmente bem em Vagos. Não estão ali para reinventar o género. Estão ali porque gostam genuinamente daquela música e isso sente-se.

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Com os Katatonia, a temperatura emocional mudou. A banda sueca, formada em Estocolmo em 1991 por Jonas Renkse e Anders Nyström, já atravessou demasiadas fases para poder ser encaixada numa única etiqueta. Começou no death/doom, passou por territórios góticos e progressivos e acabou por construir uma identidade muito própria, onde o peso convive com a melodia e, sobretudo, com uma melancolia quase permanente. Em Vagos, essa melancolia apareceu logo nos primeiros acordes. Os Katatonia estavam a apresentar o universo de “Nightmares as Extensions of the Waking State”, álbum que marcou mais uma etapa na longa história da banda. E havia uma curiosidade adicional em torno desta passagem: problemas na viagem fizeram com que o grupo chegasse a Portugal sem o seu equipamento, obrigando a uma solução de última hora para que o concerto pudesse acontecer. Aconteceu. E ainda bem. Jonas Renkse não é um frontman de grandes excessos. Não precisa. A sua presença é mais discreta, quase distante, mas encaixa perfeitamente naquela música. “Thrice”, “The Liquid Eye”, “Wind of No Change” e “Warden” foram criando uma espécie de bolha no meio do festival. Durante alguns minutos, o barulho à volta pareceu desaparecer. É essa uma das coisas curiosas nos Katatonia. Conseguem ser pesados sem precisar de estar constantemente a mostrar que o são. A guitarra pode esmagar, mas é a atmosfera que fica. E num festival onde o público passa grande parte do dia entre mosh pits e refrões gritados, aquele espaço para respirar acabou por saber particularmente bem.

Depois veio Doro. E com ela veio também uma parte da história do heavy metal europeu. Doro Pesch dispensa apresentações, mas vê-la em palco continua a ser diferente de simplesmente falar sobre a sua carreira. Desde os Warlock, nos anos 80, a alemã tornou-se uma das figuras incontornáveis do heavy metal, num percurso que já ultrapassa quatro décadas. Burning the Witches, Hellbound e Triumph and Agony fazem parte de uma história que ajudou a abrir caminho para muitas das mulheres que chegaram depois ao género. Em Vagos, Doro decidiu olhar para trás. O Warlock Special Set foi uma viagem a esses primeiros anos, com “Earthshaker Rock”, “I Rule the Ruins”, “Burning the Witches”, “Metal Racer” e “East Meets West” a puxarem pela memória de quem cresceu com aqueles discos. E depois veio “All We Are”. A resposta estava dada. Havia pessoas a cantar, braços levantados e uma sensação muito particular de comunhão. Doro tem essa capacidade: não parece estar simplesmente a interpretar músicas antigas. Parece estar a partilhar uma parte da própria vida com quem está à sua frente. E talvez seja isso que torna a sua presença tão especial. Não há aqui apenas nostalgia. Há resistência. Há uma carreira inteira construída num género que mudou várias vezes, mas onde Doro continua a encontrar o seu lugar.

Quando os Satyricon subiram ao palco, já era noite. E o ambiente mudou completamente. Satyr e Frost carregam consigo mais de três décadas de história. Os Satyricon nasceram em 1991 e tornaram-se uma das bandas fundamentais do black metal norueguês, sobretudo através de discos como Nemesis Divina. Mas seria demasiado fácil reduzi-los ao passado. Os Satyricon de hoje continuam negros, mas são também mais amplos. Há rock, há groove, há momentos quase hipnóticos. E há aquela sensação de que a banda não precisa de correr atrás do passado para provar o que quer que seja. Satyr surge no centro do palco, enquanto Frost, atrás da bateria, parece estar permanentemente a tentar partir alguma coisa. “Midnight Serpent”, “Black Crow on a Tombstone”, “Now, Diabolical” e “Repined Bastard Nation” foram construindo a noite. “Fuel for Hatred” trouxe a explosão física que faltava, com o público novamente entregue ao mosh e ao circle pit. Mas havia uma música que toda a gente sabia que iria chegar. “Mother North”. Quando os primeiros acordes surgiram, deixou de ser apenas mais um momento do alinhamento. É uma daquelas canções que já ultrapassaram a própria banda e pertencem a várias gerações de fãs de metal. O público tratou de a cantar à sua maneira, transformando a Quinta do Ega num coro improvável, vindo de todos os lados. E talvez tenha sido aí que o segundo dia encontrou o seu verdadeiro ponto final.

Jana Bastien

Toxikull

Katatonia

Doro

Satyricon

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