Vagos Metal Fest 2026 Dia I: a noite em que os Lamb of God incendiaram a Quinta do Ega

O primeiro dia do Vagos Metal Fest 2026 começou sem pedir licença e terminou com a Quinta do Ega ainda a vibrar. Entre riffs, mosh pits, crowd surfing e um público que nunca deixou de responder, as bandas atravessaram diferentes territórios do metal. Dos An Endless Path aos Kenòs, com os Lamb of God a incendiarem a noite, Vagos mostrou desde cedo porque continua a ser um dos grandes encontros do metal em Portugal.

Texto: Sandra Pinto
Fotos: Luís Pissarro

Quando a equipa da LOOK mag chegou à Quinta do Ega, os An Endless Path já estavam em palco. O Vagos Metal Fest ainda estava a começar, mas o som que vinha do palco deixava poucas dúvidas: a tarde não ia ser propriamente tranquila. Vindos das Ilhas Canárias, Espanha, os An Endless Path trabalham no território do metalcore e deathcore, cruzando peso, agressividade e uma abordagem moderna que assenta tanto na força dos riffs como nos breakdowns. A banda tem já uma história construída ao longo de vários anos. Depois de Inhale, de 2016, surgiu o álbum homónimo An Endless Path, lançado em 2018, trabalho que ajudou a consolidar a identidade do grupo. Seguiram-se singles como “The Phoenix” e “Gallows”, antes de a banda regressar em 2026 com “Nothing Matters To Us”, lançado a 19 de abril. E foi precisamente essa nova fase que chegou a Vagos.
Ainda havia espaço entre o público, ainda havia quem estivesse a entrar no recinto e quem procurasse os amigos, mas junto ao palco já se sentia movimento. Os primeiros mosh pits começaram a aparecer e a resposta foi crescendo à medida que os An Endless Path avançavam pelo seu território de metalcore/deathcore. Há qualquer coisa de particularmente interessante em ver uma banda abrir um festival (pois apesar de já terem tocado outra antes para nós foram os primeiros). Não existe ainda a pressão de um recinto completamente cheio, nem a segurança de quem sabe que milhares de pessoas vieram especificamente para o ver. Existe apenas a oportunidade de conquistar quem está à frente. Os An Endless Path agarraram-na. O peso dos breakdowns encontrou rapidamente resposta no público. Cabeças a abanar, braços no ar e os primeiros corpos a atravessar a multidão deram-nos, logo à chegada, uma amostra daquilo que iria definir o resto do dia. E foi também uma excelente forma de começar a nossa passagem pelo Vagos. Chegámos e eles já estavam a tocar. O público já estava a mexer-se. E, naquele momento, percebemos que o festival tinha começado a sério.

Depois da primeira descarga dos An Endless Path, a intensidade não baixou. Pelo contrário. Os Almost Dead entraram em cena para acelerar ainda mais o ritmo e trazer para Vagos uma combinação de thrash metal, groove metal e atitude hardcore diretamente de Martinez, Califórnia. Formados em 2002, os Almost Dead carregam na sua identidade a herança do thrash da Bay Area, mas não se limitam a reproduzir essa fórmula. A banda acrescenta-lhe uma agressividade muito própria do hardcore, criando um som pesado, direto e particularmente eficaz ao vivo. A formação é liderada por Tony Rolandelli, na voz, e Zach Weed, na guitarra, dois dos nomes centrais da atual encarnação da banda. O grupo conta ainda com Travis LaBerge no baixo e Eddie Huestis na bateria.
Ao longo da carreira, os Almost Dead foram construindo uma reputação assente precisamente nessa mistura de velocidade, peso e atitude. Atualmente ligados à Innerstrength Records, têm em Destruction Is All We Know um dos trabalhos que melhor representa essa abordagem: música agressiva, riffs cortantes e uma energia que parece estar permanentemente à procura de uma saída. E em Vagos encontrou-a.
Quando os primeiros temas começaram a sair das colunas, já o público estava mais concentrado junto ao palco. A banda não precisou de muito tempo para perceber que tinha diante de si uma audiência preparada para responder. E respondeu.
O que tinha começado com pequenos mosh pits durante os An Endless Path começou a ganhar outra dimensão. A velocidade dos Almost Dead puxava pelo público e, pouco a pouco, o espaço entre as pessoas começou a desaparecer. Havia movimento por todo o lado. Mosh. Saltos. Cabeças a abanar. Braços no ar. E, inevitavelmente, o crowd surfing começou a aparecer.
É difícil ficar indiferente a uma banda que toca com esta intensidade. Os Almost Dead têm aquela capacidade de transformar uma música pesada numa espécie de impulso físico. Não é apenas ouvir. É sentir o riff no corpo e deixar que ele dite o movimento. A influência da Bay Area está lá, mas há uma rudeza adicional que vem dessa ligação ao hardcore. É uma música que não pede contemplação. Pede reação. E Vagos reagiu. Para a equipa da LOOK mag foi também o momento em que percebemos que aquela primeira jornada ia ser muito mais do que uma sequência de grandes nomes. Havia bandas para descobrir. Havia histórias para conhecer. E havia um público disposto a entregar-se a todas elas. Os Almost Dead foram mais uma prova disso: vindos de Martinez, Califórnia, chegaram a Vagos com mais de duas décadas de estrada e deixaram para trás uma coisa que um festival nunca consegue garantir antecipadamente.

A temperatura já estava a subir quando os Cro-Mags chegaram a Vagos. E, neste caso, não falamos apenas do calor de agosto. Vindos de Nova Iorque, os Cro-Mags são uma das bandas fundamentais para perceber a história do crossover entre thrash metal e hardcore punk. A banda surgiu em 1980 — embora diferentes fontes apontem 1980 ou 1981 como o momento da formação — e tornou-se uma das referências da cena hardcore nova-iorquina. A sua história está intimamente ligada a Harley Flanagan, fundador, baixista e vocalista, e a uma sucessão de músicos que passaram pela banda ao longo de mais de quatro décadas. A própria formação dos Cro-Mags foi marcada por mudanças, separações, regressos e disputas internas que fazem parte de uma história tão intensa quanto a música que criaram. Mas se há um disco que colocou definitivamente o nome Cro-Mags no mapa, é The Age of Quarrel, lançado em 1986. O álbum tornou-se uma das pedras fundamentais do crossover e ajudou a estabelecer uma linguagem em que a velocidade e agressividade do hardcore encontravam o peso e os riffs do metal. Depois vieram Best Wishes (1989), mais carregado de influências de heavy metal, Alpha Omega (1992), Near Death Experience (1993), Revenge (2000) e, já numa fase muito posterior, In the Beginning (2020). É uma discografia que acompanha várias fases da própria banda e também diferentes momentos da música pesada norte-americana.
Mas os Cro-Mags não chegaram a Vagos para fazer uma visita nostálgica ao passado. Chegaram para o tocar. E a diferença sente-se. A formação que passou por Vagos tem Harley Flanagan na voz e baixo, Rocky George na guitarra — conhecido também pelo seu trabalho nos Suicidal Tendencies —, Dave Sharpe na guitarra e Petey Hines na bateria. A atual formação registada pelo Metal Archives reflete precisamente esta configuração, com Hines de regresso à bateria em 2025. À frente, Flanagan continua a ser a ligação mais direta entre o presente e aquela Nova Iorque dos primeiros anos da banda. E bastou pouco tempo para perceber que a idade não tinha retirado aos Cro-Mags aquilo que realmente interessa: atitude. O som continua frontal, agressivo e sem grandes concessões. É música construída para ser sentida no corpo e não apenas ouvida. Os riffs avançam como golpes secos e a bateria mantém aquele sentido de urgência que está na própria essência do hardcore. O público de Vagos percebeu imediatamente o código. O mosh abriu-se. Depois abriu-se outro. E mais outro. O espaço em frente ao palco transformou-se numa espécie de organismo vivo, com pessoas a entrar, sair, cair, levantar-se e voltar para dentro. Por cima delas, o crowd surfing tornou-se uma imagem constante. E havia algo particularmente bonito no meio daquele aparente caos. Quando alguém caía, apareciam imediatamente mãos para o levantar. Quando alguém era empurrado para a barreira, havia espaço para respirar. Quando a música apertava, o público apertava com ela.
É essa contradição que faz dos concertos de hardcore uma experiência tão particular: a música pode ser brutal, mas existe uma espécie de comunidade silenciosa no meio da confusão. Os Cro-Mags nasceram numa cidade e numa época em que essa atitude era praticamente uma necessidade. Nova Iorque, início dos anos 80, uma cena hardcore que se construía à margem, entre salas pequenas, ruas e uma juventude que encontrou na música uma forma de expressar raiva, frustração e sobrevivência. Quarenta e tantos anos depois, essa energia chegou a Vagos. E não chegou domesticada. Talvez essa seja a melhor maneira de explicar o concerto dos Cro-Mags: não foi uma viagem ao passado. Foi o passado a entrar no presente e a mostrar que ainda sabe dar um murro na mesa. Na Quinta do Ega, perante um público permanentemente participativo, os Cro-Mags provaram que certas bandas não precisam de acompanhar o tempo.

Quando os R.A.M.P. subiram ao palco, a noite já tinha tomado conta da Quinta do Ega. As luzes ganhavam outra força, o recinto estava cada vez mais cheio e o público que tinha acompanhado a primeira parte do dia parecia ter encontrado ainda mais energia para continuar. A banda portuguesa entrou no lugar dos Ill Niño, mas depressa ficou claro que aquela não seria uma simples substituição. Para o público português, era a oportunidade de voltar a encontrar uma das bandas fundamentais da história do nosso metal, formada no Seixal em 1989 e com uma carreira construída ao longo de mais de três décadas. A noite começou a ganhar outra intensidade com “Blind Enchantment”, um dos temas mais reconhecidos do repertório dos R.A.M.P. e originalmente incluído em Visions. A música tem precisamente aquela característica que tão bem funciona ao vivo: começa por criar uma atmosfera quase hipnótica e acaba por transformar-se num exercício de energia e movimento. Não demorou muito até o público responder. Os braços subiram. As cabeças começaram a acompanhar os riffs. E o espaço em frente ao palco voltou a abrir-se para o mosh.
A história dos R.A.M.P. também passa por esta capacidade de transformar os seus temas em momentos coletivos. E “Blind Enchantment” é um excelente exemplo disso. A própria letra trabalha imagens de transe, ritmo e libertação, o que ganha uma dimensão particularmente física quando milhares de pessoas estão a reagir ao mesmo tempo. Depois veio “Hallelujah”, outro dos grandes temas da banda e um dos mais tocados ao longo da sua carreira. O tema faz parte de Evolution Devolution Revolution e também foi incluído na compilação XXV, que reuniu material dos primeiros 25 anos da banda. É uma daquelas músicas que os fãs reconhecem imediatamente. E isso sentiu-se. A voz de Rui Duarte encontrou rapidamente milhares de vozes do outro lado da barreira. O público não estava ali apenas para ouvir. Estava para cantar, responder, saltar e, quando a música pedia, abrir mais uma roda no meio da multidão.
Mas o momento mais peculiar chegou com “Anjinho da Guarda”. A escolha desta música diz muito sobre a capacidade dos R.A.M.P. de pegar num elemento profundamente português e transformá-lo à sua maneira. O tema é uma versão de António Variações, incluída na discografia dos R.A.M.P. e que a banda tem utilizado regularmente nos seus concertos. E há qualquer coisa de deliciosamente inesperado em ouvir António Variações num festival de metal. Só que, nas mãos dos R.A.M.P., “Anjinho da Guarda” deixa de ser apenas uma homenagem. Torna-se um momento de festa. A música ganha velocidade e peso, e a resposta do público é imediata. Num concerto dos R.A.M.P., este é precisamente o tipo de momento em que as fronteiras entre géneros deixam de fazer sentido. Metal, música popular portuguesa, memória e festa juntam-se no mesmo lugar. E o mosh não desaparece. Pelo contrário.
Há registos de anteriores atuações dos R.A.M.P. em que “Anjinho da Guarda” esteve precisamente entre os momentos de maior reação, chegando a provocar alguns dos maiores mosh pits da noite. Em Vagos, a sensação foi semelhante: a música conhecida de outros contextos ganhou uma nova vida perante uma multidão vestida de preto. E depois chegou “How”. Outro clássico do repertório da banda, incluído em Evolution Devolution Revolution e presença habitual nos alinhamentos dos R.A.M.P. ao longo dos anos. “How” tem aquela força direta que caracteriza grande parte do material dos R.A.M.P. Não precisa de grandes explicações. O riff chega e o público sabe o que fazer. E fez. Saltou. Cantou. Empurrou. Abriu espaço. Voltou a fechar. Por cima das cabeças, o crowd surfing continuava. É aqui que se percebe a verdadeira dimensão de uma banda como os R.A.M.P. Não se trata apenas da longevidade. Não é apenas terem começado em 1989, terem atravessado diferentes fases do metal português ou terem conseguido feitos importantes numa altura em que o género tinha muito menos espaço nos grandes circuitos. É isto. É conseguir tocar uma música com décadas e fazer com que alguém que nasceu muito depois dela ser escrita a cante como se fizesse parte da sua própria história. Na Quinta do Ega, os R.A.M.P. não estavam simplesmente a preencher um espaço deixado pelos Ill Niño. Estavam a lembrar ao público porque continuam a ser uma das bandas fundamentais do metal português. E o público percebeu. Naquela noite, não houve distância entre os R.A.M.P. e Vagos. Houve apenas uma enorme massa de gente a cantar, a saltar, a fazer crowd surfing e a abrir mosh pits ao som de uma banda que, depois de mais de três décadas, continua a saber exatamente como provocar uma reação. Portugal entrou em campo. E Vagos respondeu em força.

A noite já tinha tomado conta da Quinta do Ega quando chegou o momento que muitos tinham esperado desde que entraram no recinto. Lamb of God. Depois de um dia que já tinha passado por diferentes gerações e linguagens do metal, a banda de Richmond, Virgínia, apareceu em palco com uma missão simples: pegar numa multidão que já tinha dado tudo e fazê-la dar ainda mais. E conseguiu.
Os Lamb of God nasceram em 1994, ainda sob o nome Burn the Priest, antes de adotarem definitivamente a designação Lamb of God em 1999. Ao longo de mais de três décadas, construíram uma carreira essencial para perceber a evolução do metal moderno, cruzando groove metal e metalcore e criando uma identidade que se tornou imediatamente reconhecível. A formação atual junta Randy Blythe na voz, Mark Morton e Willie Adler nas guitarras, John Campbell no baixo e Art Cruz na bateria.
Em Vagos, não houve tempo para apresentações demoradas. “Ruin” abriu o concerto. E abrir um concerto com “Ruin” é praticamente declarar guerra. Originalmente lançada em As the Palaces Burn, de 2003, a música pertence a uma fase fundamental da história dos Lamb of God. O riff surge com aquela combinação de velocidade e peso que se tornaria uma das assinaturas da banda. A resposta foi imediata. O público abriu espaço. O primeiro grande mosh pit da noite estava oficialmente aberto.
Logo depois, “Laid to Rest” levou a Quinta do Ega para outro nível.
É um dos temas mais emblemáticos de Ashes of the Wake, o álbum de 2004 que ajudou a transformar os Lamb of God numa das grandes referências do metal norte-americano. É também uma daquelas músicas em que o público não espera pelo vocalista para começar a cantar. Os primeiros segundos bastam. O reconhecimento é instantâneo. E, em Vagos, foi impossível ficar quieto.
A seguir chegou “Blood Junkie”, recuperando o material de As the Palaces Burn. A música trouxe novamente para o centro da noite aquela faceta mais agressiva e crua da banda, mantendo a pressão depois da descarga provocada por “Laid to Rest”. E os Lamb of God não estavam interessados em deixar o público respirar.
“Into Oblivion” foi uma das grandes representantes da fase mais recente da banda. O tema pertence ao álbum homónimo de 2026 e ganhou, em Vagos, uma dimensão particularmente interessante: uma música nova colocada no meio de clássicos que já fazem parte do ADN dos concertos da banda. É aí que se percebe se uma banda continua a avançar ou se vive apenas do passado. Os Lamb of God escolheram fazer as duas coisas. Olhar para trás. Mas também avançar.
Depois veio “Resurrection Man”, do álbum Lamb of God, de 2020, mantendo a intensidade no máximo. Não havia intervalos verdadeiramente mortos. Cada tema parecia empurrar o seguinte. E então surgiu um dos momentos mais inesperados da noite. “Now You’ve Got Something to Die For”. Um dos grandes clássicos de Ashes of the Wake, mas com uma particularidade em Vagos: Randy Blythe dedicou a música aos cozinheiros portugueses que serviram o catering aos artistas, um gesto bonito que enaltece o cuidado com que a organização recebe as bandas e o staff. A dedicatória arrancou naturalmente uma reação especial do público. E depois veio o riff. O resto foi caos. Mas um caos organizado.
O público saltava, gritava e empurrava-se no mosh, enquanto uma sucessão de crowd surfers atravessava a multidão em direção à barreira. A música, conhecida pela sua abordagem crítica e pela forma como os Lamb of God exploram temas políticos e sociais, ganhou naquele momento um pequeno desvio português. E funcionou. Muito.
“Hourglass” trouxe de novo Ashes of the Wake para o centro do alinhamento. É uma música que vive da tensão entre o peso e o groove, e ao vivo essa característica torna-se ainda mais evidente. O riff parece empurrar fisicamente o público para a frente. Depois veio “Descending”, de Sacrament, outro álbum essencial na discografia dos Lamb of God. A esta altura, já não havia propriamente zonas tranquilas junto ao palco. Havia quem estivesse a cantar. Quem estivesse a saltar. Quem estivesse dentro do mosh. E quem estivesse a tentar proteger a cabeça enquanto um crowd surfer passava por cima. Tudo ao mesmo tempo.
Mas há músicas que conseguem mudar a atmosfera de um concerto. “Walk With Me in Hell” é uma delas. Lançado originalmente em Sacrament, em 2006, o tema tem uma dimensão diferente dentro do repertório dos Lamb of God. Continua a ser pesado, mas existe uma componente mais melódica e emocional que permite à banda construir um momento de maior comunhão com o público. Em Vagos, essa mudança foi evidente. As vozes subiram. Os braços ficaram no ar. Por alguns minutos, o mosh deu lugar a milhares de pessoas a cantar juntas. Foi provavelmente um dos momentos em que mais se sentiu a dimensão do concerto. Não eram apenas fãs dos Lamb of God. Era uma multidão inteira a participar.
A banda voltou depois a mergulhar no material mais recente com “Parasocial Christ”, de Into Oblivion. A escolha reforçou uma das características mais interessantes desta digressão: os Lamb of God não apresentaram um alinhamento construído apenas sobre nostalgia. Ao lado de “Laid to Rest”, “Ruin” ou “Omerta”, estavam músicas novas que já começavam a encontrar o seu lugar na experiência ao vivo da banda. E o público aceitou-as. Sem hesitação. Quando começou “Omerta”, a reação foi imediata. Incluído originalmente em Ashes of the Wake, o tema é um daqueles clássicos que dispensam apresentação. E tem uma particularidade que o torna especialmente eficaz ao vivo: a sua construção permite à banda criar tensão antes de libertar novamente toda a força do riff. Em Vagos, essa tensão foi sentida na multidão. E quando chegou a descarga, o mosh voltou. Mais uma vez.
“11th Hour”, também de As the Palaces Burn, trouxe de volta uma das fases mais antigas dos Lamb of God. É precisamente este equilíbrio entre passado e presente que tornou o alinhamento de Vagos tão eficaz. De um lado, músicas que ajudaram a construir a reputação da banda. Do outro, material novo. E no meio, um público que conhece ambos. Depois, “Memento Mori” levou-nos para Lamb of God, de 2020.
O título — “lembra-te de que vais morrer” — já carrega uma ideia de mortalidade que combina perfeitamente com o universo da banda. Mas ao vivo a música transforma essa reflexão numa experiência física. E, naquele momento, ninguém parecia interessado em pensar no fim. Ainda havia um último golpe.
E então chegou “Redneck”. Se havia alguma dúvida sobre qual seria a música certa para fechar aquele concerto, a resposta estava provavelmente escrita no alinhamento dos Lamb of God há muito tempo. “Redneck”, de Sacrament, é um dos temas mais populares da banda e, em 2026, continua a ser o encerramento habitual dos seus concertos. Em Vagos, foi a explosão final. O mosh ganhou novamente velocidade. O crowd surfing não parava. E milhares de vozes acompanharam o último ataque.
Durante cerca de uma hora e meia, os Lamb of God tinham percorrido várias fases da sua carreira: de “Ruin” a “Laid to Rest”, de “Blood Junkie” a “Into Oblivion”, passando por “Now You’ve Got Something to Die For”, “Walk With Me in Hell”, “Omerta” e terminando em “Redneck”. A setlist de Vagos contou, ao todo, com 14 temas. Mas uma lista de músicas não consegue explicar aquilo que aconteceu na Quinta do Ega. Porque o concerto não estava apenas no palco. Estava no chão. Nos mosh pits. Nas pessoas que passavam por cima da multidão. Nos fãs que gritavam cada palavra. Nos desconhecidos que se ajudavam quando alguém caía. Nos braços levantados. Na poeira. No suor.
Na voz de Randy Blythe a desafiar o público e na resposta imediata de milhares de pessoas. Os Lamb of God trouxeram o repertório. Vagos trouxe o caos. E durante aquele concerto, os dois encontraram-se no ponto perfeito. Quando “Redneck” terminou, a sensação era quase física. Como se a Quinta do Ega tivesse acabado de atravessar uma tempestade. Só que, no festival, ninguém parecia querer fugir dela.

Depois da descarga dos Lamb of God, seria fácil pensar que o primeiro dia do Vagos Metal Fest já tinha dado tudo o que tinha para dar. A Quinta do Ega estava cansada, o público estava rouco e havia quem já procurasse forças para continuar os restantes dias de festival. Mas os Kenòs ainda tinham uma palavra a dizer. E fizeram-no sem tentar imitar a tempestade que tinha acabado de passar pelo palco.
Vindos de Busto Arsizio, na Lombardia, Itália, os Kenòs começaram a sua história em 1996, ainda com o nome Underwise. Em 2002 assumiram definitivamente a designação Kenòs e começaram a construir uma identidade própria dentro do progressive death metal, território onde técnica, peso e estruturas pouco convencionais convivem sem pedir licença. E esta não é uma banda que tenha chegado agora.
Ao longo de mais de duas décadas, os italianos foram deixando uma discografia que mostra precisamente essa vontade de fugir ao óbvio. Rigor Mortis abriu o caminho, seguindo-se trabalhos como Intersection (2004), The Craving (2007) e X-Torsion (2010), discos onde o death metal ganha outras dimensões e onde as músicas podem assumir estruturas longas e imprevisíveis. É uma história feita também de mudanças.
Formações que se alteraram, períodos de atividade interrompida e um regresso que trouxe sangue novo ao grupo. Alessio Giudice voltou à voz em 2022 e a banda foi reconstruindo a sua formação, mantendo, no entanto, a vontade de continuar a explorar o lado mais técnico e progressivo do metal extremo. Em Vagos, isso sentiu-se logo. Os Kenòs não chegaram para tentar ser os Lamb of God. Nem precisavam.
Se os norte-americanos tinham transformado a Quinta do Ega num enorme mosh pit, os italianos escolheram outro caminho: mais tensão, mais detalhe, mais complexidade e um peso que se vai instalando lentamente até percebermos que já estamos completamente dentro dele. E o mais curioso? O público continuava lá. Os Kenòs receberam esse público e deram-lhe algo diferente. A bateria tornou-se um dos motores da noite, as guitarras começaram a desenhar estruturas mais complexas e os momentos de maior velocidade contrastavam com passagens onde a banda parecia puxar o travão apenas para voltar a acelerar logo depois. Não é música para ouvir distraidamente. Os Kenòs obrigam-nos a prestar atenção. E talvez seja precisamente por isso que funcionaram tão bem naquele momento do festival. Depois de uma banda como os Lamb of God, seria fácil apostar numa segunda dose de pancada direta. Os Kenòs fizeram o contrário. Mudaram a temperatura. O peso continuava lá, mas agora era um peso mais cerebral, mais sinuoso, menos previsível. E havia qualquer coisa de bonito em olhar para o público e perceber que, apesar do cansaço, ninguém queria ir embora.

An Endless Path

Almost Dead

Cro-Mags

RAMP

Lamb of God

Kenòs

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