Reverence Festival Valada, em nome da música

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Espalhado por três palcos, o alinhamento para os dois dias, com concertos a começar ao meio dia e a terminar lá pelas seis da madrugada, era exigente para os festivaleiros. Mas este não é um festival para fracos, pois, desses não reza a história, pelo que todos aguentaram, ou lá foram fazendo por isso.

Mugstar > The Quarteto of Woah! > Asimov

A promessa para esses dois dias na localidade vizinha do Cartaxo era “um espetáculo psicadélico” mas a realidade é que foi muito mais do que isso. Na verdade o Reverence Festival Valada juntou outros géneros que casaram na perfeição com a onda à partida mais psicadélica do evento, facto que trouxe uma riqueza musical ainda maior ao festival. De estreias e de consagrações se foram fazendo os dias com verdadeiras corridas entre palcos (apesar dos horários não serem à partida sobrepostos, tal aconteceu). Repletos de sintetizadores os Mugstar chegaram de Inglaterra para atazanar os nossos ouvidos. Querem uma viagem cósmica? Então liguem a nave espacial e coloquem os Mugstar como banda sonora, fechem os olhos e deixem-se ir. Garantimos que no regresso a terra firme serão uns seres humanos melhores.

São dos projetos nacionais que transportam maior energia e garra. The Quartet of Woah! São umas verdadeiras feras de palco, tal como já tínhamos tido ocasião de perceber no Super Bock Super Rock 2013. Gonçalo Kotowicz, Rui Guerra, Miguel Costa e André Gonçalves entregam-se com tamanha paixão à música que fazem, que nos arrastam com eles num turbilhão de emoções. Foi precisamente isso que aconteceu com o Tejo como cenário e vizinho. Merecedores de todas as atenções.

Duo composto por Carlos Ferreira na guitarra e voz e por João Arsénio na bateria, os Asimov levaram bastante público ao palco Rio. Num ambiente perfeito fizeram valer as suas cartas e ganharam a atenção de todos, nós incluídos.

Murdering Tripping Blues > Bardo Pond > Bruto & The Cannibals

A ideia de fazer um festival deste género nasceu 2011, quando, “numa tentativa de combate ao tédio”, o britânico Nick Allport e mentor do Reverence organizou o primeiro concerto no Cartaxo, localidade onde reside com a família. De lá para cá as Cartaxo Sessions têm vindo a ganhar uma cimentada legião de fãs trazendo a Portugal variadíssimas bandas, algumas agora repetentes no alinhamento do festival.

Não é o caso dos portugueses Murdering Tripping Blues com os quais já tivemos o imenso prazer de nos cruzar algumas vezes (https://lookmag.pt/blog/murdering-tripping-blues-no-ritz-club/ e https://lookmag.pt/blog/rock-in-rio-entre-o-metal-e-os-anos-90-ii/). Ao festival trouxeram um alinhamento composto por temas mais antigos conjugados com novas canções do seu terceiro registo de originais “Pas Un Autre” a ser lançado no próximo mês de outubro.

Foram dos músicos que mais vimos a passear pelo recinto antes de subirem ao palco. Descontraídos e sorridentes, os elementos dos Bardo Pond inspiraram-se no bom ambiente que se vivia no recinto para dar um concerto de elevada qualidade. Perdidos entre a voz de Isobel Sollenberger e as guitarras de Michael e John Gibbons, reencontrámo-nos no fim da sua prestação para voltar a respirar, aterrando em cheio no Palco Sabotage, onde acabavam de chegar Bruto & The Cannibals.

Liderados por Jorge Bruto, o lendário frontman dos Capitão Fantasma, Bruto & The Cannibals deram de longe o concerto mais intenso de todo o festival. O responsável, além da música, não foi outro senão ele mesmo, Jorge Bruto, que cantou, dançou, e posou para os fotógrafos. A alta velocidade, o grupo interpretou temas como «I Know You’re Mine», «Wild World» e «Sluts From Hell», trazendo a Valada um punk com toques de psychobilly, e foi tão bom!

Christian Bland & The Revelators > Spindrift > A Place To Bury Strangers > Psychic TV

Voltemos a Nick Allport para lhe tirar o chapéu pela audácia de fazer num Portugal como o que temos hoje um festival deste género. Tendo colaborado com editoras discográficas em Londres e de ai ter promovido inúmeros concertos, quando, em 2009 se instalou em Portugal não tinha a intenção de permanecer ligado à música, o que mudou passados poucos anos. E, ainda bem, podemos hoje afirmar!

Com a tarde a terminar e o calor a dar tréguas, o ambiente era perfeito e a luminosidade certa para muita coisa, mas jogar basebol não era, à partida uma delas! Pois, mas foi o que aconteceu quando para deleite do mais jovem elemento da equipa Look Mag nos deparámos com os membros dos Christian Bland & The Revelators a dar “uns toques” na bola de basebol de luvas na mão. Pouco tempo depois a banda do guitarrista dos The Black Angels subia ao palco Rio para voltar a captar a nossa atenção, mas desta vez devido à música. Ao ouvi-los vimo-nos transportados para um universo paralelo, onde confessamos estivemos pouco tempo, pois, festivaleiro não é de ferro, também janta, e os concertos do palco principal estavam quase a começar.

Tempo ainda para espreitar o palco Sabotage e ainda bem, pois os norte-americanos Spindrift inundavam as redondezas com o seu rock psicadélico…mas mais do que isso, nas suas melodias encontrámo-nos com Ennio Morricone e relembrámos as suas bandas sonoras para alguns dos western spaghetti do realizador Sergio Leone. Uma viagem este concerto, uma verdadeira viagem…

Devidamente jantados (belas bifanas por ali se degustaram) era hora de rumar até ao palco Reverence onde acabavam de entrar os A Place To Bury Strangers. Foram uma das bandas que trouxeram fama às Cartaxo Sessions e que neste regresso a solo nacional deram um dos concertos mais brutais de festival. Vidrados no que se passava no palco, foi este o nosso estado durante a prestação dos nova-iorquinos. As músicas com nos agraciaram, pesadamente atmosféricas, acolhiam em si próprias influências mais ou menos evidentes do psicodélico, shoegaze e space rock, que numa amálgama ligada entre si pelo noise deixou extasiado o público do Reverence. Enquanto os A Place To Bury Strangers permaneceram no palco, e na ausência da chuva programada para nos fazer companhia, foi uma tempestade de guitarradas e noise aquilo que se abateu em Valada e que culminou na destruição intencional de uma guitarra por parte de Oliver Ackermann. Impossível descrever, mas quem lá esteve não vai mais esquecer!

Além da música vamos guardar nas memórias que trazemos desta primeira edição a organização incólume, um espaço bastante convidativo e a decoração sui generis, tanto à entrada do recinto como, em especial, no palco Rio, um daqueles sítios onde sabe bem estar…apenas estar. Chegada a hora foram os Psychic TV a dar música. Comandados pela figura inconfundível e sui generis de Genesis P-Orridge a banda entrou numa espiral de sons acompanhada por outra de cores. Em suma, uma celebração do rock psicadélico.

Hawkwind, Mão Morta e The Black Angels

Senhores do space rock, os Hawkwind estrearam-se em Portugal depois de terem já uma carreira de quatro décadas. Do alinhamento constaram temas mais antigos, como
«You’d Better Believe It» e «Assault and Battery» além de canções mais recentes, muitas do registo discográfico lançado em 2012. Se os anos 60 fossem hoje, esta seria abanda sonora perfeita.

Foi para nós o melhor concerto do festival. Chegaram, tocaram e venceram. Uns Mão Morta cheios de força musical levaram à relva do Valadence o melhor que o rock nacional tem hoje para oferecer. Prato cheio de boa música e uma prestação imaculada fizeram com que recordássemos porque são eles a nossa banda nacional de eleição. Como única banda portuguesa a subir ao palco principal do festival, os Mão Morta fizeram com essa exclusividade valesse ouro. O alinhamento compôs-se de músicas que fazem parte da história da banda e por consequência dos seus fãs, sabiamente conjugadas com temas retirados do mais recente registo discográfico da banda de Braga “Pelo Meu Relógio São Horas de Matar”. Disco intenso que traz na alma o reflexo da difícil situação que se vive em Portugal, mostra uma banda coesa e dona do seu destino. Em palco foram tudo o que se poderia esperar deles e mais, muito mais, dando um concerto deveras intenso, com Adolfo Luxuria Canibal a trazer-nos à memória outros concertos, outros palcos de há muitos anos atrás.
«Hipótese de Suicídio», «Pássaros a Esvoaçar», «Até Cair» e «E se Depois» abriram o apetite musical dos muitos que se encontravam no recinto. Com o som baixo demais (o que levou o vocalista a pediu que o aumentassem) os Mão Morta continuaram a sua hipnose coletiva ao entoarem «Barcelona», seguida de «Berlim» e «Charles Manson». «Anarquista Duval», «Fazer de Morto» e «Horas de Matar» dão por terminado um grande concerto!

Se demos a noite por ganha com o fim do concerto dos Mão Morta, com o dos Black Angels pensámos mesmo na palavra jackpot, pois a prestação dos norte-americanos foi igualmente memorável. Não podia ter havido melhor encerramento para esta primeira edição. Vindos de Austin, cidade texana conhecida pela música e pelos eventos com ela relacionados, estes anjos negros trouxeram muita cor a qual inundou o palco através das suas composições revivalistas com fortes influências dos anos 60. Não. Não cheiram a mofo, pois com muita inteligência a banda do vocalista Alex Maas consegue conjugar o melhor daquela década dourada da música com uns toques mais contemporâneos do século atual. Os discos “Indigo Meadow” e “Phosphene Dream” serviram de almofada ao alinhamento que transportou todos para uma roda hipnótica.

Ao todo foram mais de quatro dezenas de bandas encaixadas em dois dias memoráveis. Não vimos todas, porque a idade já não permite certas loucuras, mas as que vimos foram mais do que suficientes para nos darem uma certeza: foi o melhor festival dos últimos anos e podem contar com a nossa presença na próxima edição. “Live long and prosper” é o que desejamos ao Reverence Festival Valada.

https://lookmag.pt/blog/reverence-festival-valada/

Texto: Sandra Pinto
Fotos: Luís Pissarro

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