A propósito da visita dos Pixies a Lisboa, by Jon Marx

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Graças às maravilhas da caixinha preta da Apple TV assisti ao concerto dos Pixies no iTunes Festival, no passado dia 25 de Setembro. Foram 90 minutos em que a banda revisitou os quatro álbuns de originais, tocou alguns novos temas do EP-1, editado este ano, e deixaram de fora temas óbvios como «Debaser», «Tame». Como é óbvio, «Gigantic», o momento em que a turba aproveitava para reparar que a Kim Deal estava em cima do palco, este ausente do alinhamento. Deal foi embora, mas há uma nova Kim. Kim Shattuck, baixista dos californianos The Muffs, comporta-se em palco como um puto numa loja de doces e ocupa o lugar vago com toda a galhardia.

Apesar de não achar grande piada a estes regressos messiânicos, tão na moda nas últimas duas décadas, esta actuação da banda despertou-me o interesse pelo próximo concerto em Lisboa. No entanto, os bilhetes, cujo preço oscila entre os 35 e os 40 euros, encontram-se esgotados há algum tempo. Como acontece com alguma frequência, fui salvo de um desastre financeiro pela minha lendária hesitação. Não ter adquirido o ingresso mal foram colocados à venda acabou por me poupar uma despesa que rondaria os 125 euros, com sorte (35 para o bilhete, 40 para o comboio, 50 para comes e bebes, segundo a escala Jack White, Agosto de 2012) e contando com alojamento gratuito em sofá amigo. Por esse valor, compro o passe para o Primavera Sound e ainda me sobra dinheiro para os gastos habituais em discos, livros ou zines.

A perda não é total. Afinal, já vi a banda em 91, durante a digressão de «Trompe Le Monde», numa altura em que eram uma dos grupos mais excitantes do planeta. Uma eventual ida a Madrid tornaria o custo do passeio no parque ainda mais elevado, os bilhetes vão dos 75 aos 132 euros. Quando o preço do bilhete para um concerto dos Pixies em Madrid é, em 2013, substancialmente mais caro que o bilhete para os One Direction no Dragão, tenho alguma dificuldade em perceber o espanto do povo indie sobre a motivação que faz correr Black Francis e companhia.

Quando, em 2004, o regresso dos Pixies foi anunciado, confesso que não fiquei particularmente surpreendido. Frank Black, Black Francis, ou Charles, como Kim Deal, carinhosamente, gosta de chamar ao líder do grupo, gravou imensos discos após o primeiro fim do grupo. Brincou com diversos géneros, gravou discos sózinho ou com outras bandas como os Suicide Commandos ou os Catholics, colaborou com Reeves Gabrels e os Teenage Fanclub mas, em caso algum, tentou aproximar-se do som da sua antiga banda. Quando, ao fim de uma dúzia de anos, reune as tropas para uma Never Ending Tour, o objectivo era claro: apresentar o legado dos Pixies a novas gerações, aproveitar o tradicional saudosismo das velhas gerações e facturar forte e feio em todo o processo.

Curiosamente, todo este cash-in foi bem aceite pela nomenclatura da crítica especializada, o que não costuma suceder em processos semelhantes, onde os jornalistas funcionam como um contrapeso à atitude tradicionalmente servil, idólatra e pouco objectiva do povo consumidor. O fenómeno, que já tinha acontecido com o regresso dos Velvet Underground, pode ser explicado pelo estatuto de banda de culto e a imaculada produção dos Pixies, um legado sem gorduras ou excessos. Dois acontecimentos viriam a mudar todo este cenário.

Em primeiro lugar, o anúncio do abandono de Kim Deal, a baixista original que, de forma surpreendente, sempre gerou um enorme fascínio por parte dos fãs da banda. Para além dos coros, Kim escreveu uma canção que Charles permitia que fosse incluída no alinhamento dos concertos, «Gigantic», e pouco mais. Segundo entrevistas mais e menos recentes, para além da figura dominadora de Charles, o som dos Pixies estava muito mais dependente da cumplicidade do líder com Joey Santiago do que da presença da ex-baixista. Mas a crítica estabelecida, seguindo a velha máxima ‘se o Ringo Starr saísse dos Beatles em 1964 estes tinham-se transformado na Partridge Family’, esperaram o célere anúncio de novo fim de ciclo. Não aconteceu. Pelo contrário, os restantes membros rapidamente fizeram saber que tinham pronto uma nova edição, que Kim Deal não tinha participado nas gravações, e que iriam iniciar mais uma digressão com uma nova Kim.

A vingançazinha fez-se sentir de imediato. A Pitchfork atribuiu a pontuação 1/10 ao EP-1, edição de 4 temas, e arrasou completamente aquilo a que se começa a chamar Pixies MkII. Podem ler a crítica aqui http://tinyurl.com/kunuggh.
Apesar do disco não ser grande encomenda, nem tudo é mau. No entanto, a falta de objectividade do texto é gritante e, após rápida leitura, percebe-se perfeitamente que, para o autor, o que está em causa é a queda de um ídolo e não a mera análise ojectiva a um disco menor. Uma desilusão. Um arrufo de namorados.

Infelizmente para a Pitchfork, este tipo de críticas com pontuações arrasadoras tornaram-se uma banalidade, uma imagem de marca que a instituição tem dificuldade em descolar e que leva algum povo indie e críticos de outras paragens a apontarem o dedo a uma crescente falta de credibilidade que, em tempos, elevou a Pitchfork a uma posição de destaque e referência. Com os diabos, nem eu era capaz de atribuir 1/10 a um disco dos Coldplay ou dos Muse.

https://www.facebook.com/ListaRebelde?fref=ts

Texto: Jon Marx

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