A minha vida num disco: Joana Clara

Autora do blogue “Às cavalitas do vento”, Joana Clara é uma apaixonada por fotografia, fazendo dela tema da sua atividade enquanto jornalista. Aceitou o desafio mas deu-lhe a volta. Ora vejam.

Conhecemos a Joana numa viagem ao Alentejo integrada numa reportagem que ambas fizemos sobre os embaixadores da Canon. Daí resultou não apenas dois belos artigos, como uma amizade que perdura no tempo. Jornalista de formação, é na área da fotografia e da imagem que exerce o mettier. Adepta do vintage, é autora do blogue “Às cavalitas do vento” onde partilha pedaços da sua vida, dos seus gostos e preferências.

Desafiada por nós, Joana aceitou de imediato mas deu a volta à proposta e não se limitou a um disco…escolheu três!

A minha vida num disco: Joana Clara

Costumam tomar decisões ao som da canção que marcou um determinado momento da vossa vida? Ou sonhar acordados enquanto entoam a vossa letra favorita? A resposta à vossa questão é “não”. Não estão loucos. Eu faço-o constantemente. Talvez acabemos todos por escolher viver no mundo da Lua. Tal como Tracy Chapman eternizou em “Fast Car”, queremos um bilhete para algum lado. Distante, mas tão nosso. É a nossa forma incompleta de viver um todo, de encontrar um isolamento que nos faça sentir mais próximos de nós. Há algo que nos engrandece e que nos atravessa, sem pedir licença. Assim que o primeiro acorde se faz anunciar, o nosso coração dispara, o sangue pulsa e a alma eleva-se. Posso confidenciar-vos que é esse efeito que “Crash Into Me” tem sobre mim. Enfeitiça-me e faz-me desejar o mundo. Sim, Dave Matthews. Fico completamente descoberta quando a tua voz doce ecoa nos meus pensamentos. E é assim que me preferes ver vestida: com as emoções à flor da pele.

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Sim, são três os discos da minha vida. “Alchemy: Dire Straits Live” (1984), o primeiro álbum (duplo) ao vivo da banda de rock inglesa com o mesmo nome, “Tracy Chapman” (1988), a obra homónima da cantora e compositora de voz grave e andrógena, e “Crash” (1996), o segundo álbum de estúdio de Dave Matthews Band. As razões? Podia ficar um dia inteiro a dissertar sobre elas. “You and me, baby, how about it?” foi a pergunta que fiz a todos eles, quando o meu amor eterno por cada um cresceu vivaz e intenso. Recordo-me com carinho das viagens noturnas que fazia com o meu pai com destino à Aldeia do Meco, onde passávamos as nossas férias de verão, e da cassete que tocava sem parar. Ainda em criança, com os sonhos à cabeceira, a versão de “Alchemy” do êxito “Sultans of Swing” tornou-se uma das minhas músicas preferidas de sempre. O solo de guitarra do vocalista e guitarrista Mark Knopfler, ainda hoje considerado um dos maiores feitos na História do Rock, arrepia-me e deixa-me completamente siderada. Não há palhetas e a velocidade com que dedilha as cordas do instrumento que o tornou um colosso musical é eletrizante. Vou partilhar algo convosco: se um dia estiverem parados no trânsito, olharem para o lado e virem uma rapariga a tocar uma guitarra imaginária, sentindo cada nota como se fosse a última melodia à face da Terra, não fiquem espantados. Provavelmente, serei eu a viver no limite.

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Por outro lado, Tracy Chapman marcou o ano do meu nascimento, 1988, com o lançamento daquele que é, a meu ver, o seu trabalho mais introspetivo, intimista e interventivo. Desde cedo a sua veia contestária cativou a minha atenção (chiu, é a minha inspiração vermelha a falar mais alto). Este vinil é um dos meus maiores confidentes e é ele que me faz companhia nas noites frias de inverno. O meu gira-discos toca ’em repeat’ clássicos como “Baby Can I Hold You” (tantas vezes apelidado de Sorry), “Talkin’ Bout a Revolution” e “Across The Lines”. Nunca ficam gastos e fazem cada vez mais sentido na minha existência. Velhos são os trapos, já diz a sabedoria popular. É ela que faz com que eu erga a minha voz, o meu direito de voto, o meu orgulho em ser mulher. Por ti, sempre por ti, revolução! Viver e morrer desta maneira? Nunca!

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Por fim, em 1996, o homem dos meus sonhos chorou pela liberdade com o lançamento de “Crash”, aquele que eu considero um dos álbuns mais delicados e verdadeiros alguma vez criado. O violino de Boyd Tinsley faz magia, transporta-nos para o paraíso e aquece-nos o corpo. Desejamos formar lar neste casulo de luzes incandescentes que ele constrói só para nós. Já a bateria de Carter Beauford jorra alegria ou não fosse aquele seu sorriso em palco o mais honesto e contagiante que já contemplei. É também com a mais profunda tristeza que recuo atrás no tempo e escuto o incomparável saxofone de LeRoi Moore, um dos membros fundadores da banda, falecido em 2008. Deixei-te para último por uma simples razão, Dave Matthews. Bem sabes que ocupas um dos tronos do meu coração e que tens sido a luz que ilumina a minha definição de “amor verdadeiro”. Deixas-me ser a tua “Rapunzel” e a tua “Dreamgirl”? Irei sempre encontrar o caminho que conduz até à tua voz, onde mora a perfeição.

Dave Matthews Band “Crash Into Me”

Tracy Chapman “Fast Car”

Dire Straits “Sultans Of Swing”

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