Madrugada no Lisboa ao Vivo numa noite de emoções

Todas as vozes são diferentes. Mas, há vozes que de tão distintas são únicas. É assim a voz de Sivert Høyem. Seja no timbre ou na entoação com que canta as palavras, a verdade é que poucas vozes conseguem fazer o que a de Sivert faz: transportar-nos para outros tempos que de tão longínquos moram apenas na profundeza da nossa memória. Resta a música, companheira de sempre que vai servindo de cenário ao passar dos dias e ao correr dos anos.

Uma década separa esta da anterior visita da banda norueguesa ao nosso país, como bem lembrou o vocalista no final do concerto, «queremos voltar e não queremos esperar mais 10 anos para fazê-lo». Pela forma calorosa com que foram recebidos, não vemos necessidade para que assim aconteça. Até porque muito do seu reportório de 20 anos de carreira ficou por tocar numa noite em que duas horas não chegaram para matar as saudades.


Saudade, é essa a palavra certa para descrever o sentimento que se instalou em grande parte dos corações que compunham o público num Lisboa ao Vivo bastante composto. Isso mesmo pudemos perceber pelos sorrisos velados que bailavam nos rostos, pelo balançar dos corpos que, sem pudor, se entregaram à música, pelas palavras trocadas no fim do concerto.

O pretexto da vinda da banda norueguesa a Lisboa era a celebração do seu álbum de estreia. “Industrial Silence” foi lançado em 1999, dando início a uma carreira que se viu abruptamente interrompida em Julho de 2007, quando o guitarrista, e um dos seus fundadores, Robert Burås, foi encontrado morto no seu apartamento, aos 31 anos. Um ano depois era lançado o sexto e, até à data, derradeiro registo discográfico da banda que recebeu o nome homónimo de “Madrugada”. De lá para cá um hiato de tempo em que o futuro dos Madrugada deixou de existir, para agora voltar a ganhar fôlego numa tournée na qual se integra este concerto.

Sem ter sido, certamente, essa a intenção do colectivo de músicos, quase podemos dividir o concerto dos noruegueses em duas partes. A primeira dedicada a “Industrial Silence” e a segunda, que no alinhamento tem o nome de encore, mas que foi muito além disso, pois foi preenchida por algumas das mais icónicas canções escritas pela banda oriunda de Stokmarknes, cidade localizada no norte da Noruega. Temas como “Hands Up – I Love You”, do álbum “The Nightly Disease (2001), “Majesty” de Grit (2002), ou “Valley of Deception” e “What’s on Your Mind?” do derradeiro Madrugada merecem honras de primeira parte e não de encore, pelo que foi exactamente assim que interpretámos o concerto.

Percorrido de fio a pavio, “Industrial Silence” provou ser um trabalho vivo e actual composto por um conjunto de excelentes canções que nasceram para ser hits de uma carreira. A força que ainda hoje transparece neste trabalho tem na base, sem dúvida, o facto de os músicos já trabalharem juntos seis anos antes do seu lançamento. Quando ouvimos “Industrial Silence” duas coisas nos saltam aos ouvidos: a voz cromática de Sivert Høyem e o toque, simultaneamente versátil e criativo, da guitarra de Robert Burås. Por reveses do destino, a segunda será para sempre impossível de comprovar ao vivo, mantendo-se na plenitude a primeira. De facto, canção a canção, percebe-se bem o motivo pelo qual “Industrial Silnece” é tão querido para a banda e seus fãs. Mais do que hits ou temas soltos, as canções sobreviveram a duas décadas enquanto um colectivo, pois foi assim que foram criadas e é assim que ainda hoje devem ser ouvidas.

Majestoso, “Vocal” deu início à noite com o seu denso som de guitarra a casar na perfeição com o tal timbre tão característico de Sivert Høyem. Depois foi um desfilar de pérolas como o apocalíptico “Salt”, a melancólica “Eletric”, a épica “Shine” ou a intensa “Higher”. Pelo meio duas das nossas preferidas, “This Old House” e “Quite Emotional”. Pois a bem da verdade foi assim que sentimos quando Sivert e os seus companheiros nos disseram adeus ao som de “If I Can Dream” de Elvis Presley. Final mais do que perfeito para uma noite também ela imaculada que podem recordar aqui.

A abrir para os Madrugada estiveram os a Jigsaw que podem ficar a conhecer melhor na nossa entrevista aqui.

Oriundos de Coimbra, com eles trouxeram o seu som muito característico e aos nossos ouvidos, hoje e sempre, muito cinematográfico. Intensos e requintados, os temas ganham em palco uma amplitude e uma força que lhes percebemos possuir aquando de uma audição em disco.

Na voz, a trazer uma beleza ainda maior, Tracy Vandal, a doce vocalista dos nossos amados Tiguana Bibles que com os a Jigsaw adquire uma doçura nada cândida, antes forte e poderosa. Não podiam os Madrugada ter escolhido melhor banda para esta passagem pelo nosso país.

Texto: Sandra Pinto
Fotos: Luís Pissarro

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