À Conversa com a Jigsaw

 

Em 2012, quando nos cruzámos com eles a primeira vez, afirmámos que os a Jigsaw eram a banda de que toda a gente falava. Quanto a isso nada mudou, pois estes músicos oriundos de Coimbra continuam a estar nas bocas do mundo, desta feita a propósito de “No True Magic”, o seu mais recente registo de originais.

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Para quem não vos conhece apresentem-se contando um pouco do vosso percurso…
Para quem ainda não nos conhece, a Jigsaw é uma banda que já existe desde 1999, de inspiração folk e blues. Composta pela dupla João Rui e Jorri, a banda iniciou as edições discográficas em 2007 com o “Letters From The Boatman”. Ainda que acarinhado pela crítica Portuguesa, foi com nosso seu segundo álbum “Like The Wolf” de 2008 que a nossa música teve um grande destaque internacional, que nos levou à nossa Like The Wolf European Tour que passou por 12 países do continente Europeu. Após essa tour, regressámos a estúdio para gravar o “Drunken Sailors & Happy Pirates” que viu a luz do dia em 2011 e o qual ajudou a cimentar a nossa posição e destaque em Espanha, onde fomos convidados pela Televisão nacional Espanhola TVE a apresentar as nossas canções no seu programa Conciertos da Radio 3. Chegados a 2014, decidimos gravar e editar o nosso quarto álbum de estúdio “No True Magic”, que tem estado a ser preparado no decorrer dos últimos três anos.

No início de 2012 estivemos à conversa com vocês. O tempo que entretanto passou foi bom para os a Jigsaw?
Parece ter sido há mais tempo, tal foi a dimensão da estrada percorrida até agora. Sim, o tempo tem sido muito bom para nós. Creio que se nos tentarmos sempre melhorar, da mesma forma que o tentamos em relação à nossa arte, o tempo trará sempre bons frutos e será um juiz mais generoso em relação ao trabalho que vai sendo feito.

Na altura tinham lançado o trabalho “Drunken Sailors & Happy Pirates” extremamente bem recebido pela crítica. Foi algo que estavam à espera?
Dado que o álbum anterior, “Like The Wolf”, já tinha sido bem acolhido pela crítica e que nós na altura sentíamos que o “Drunken Sailors & Happy Pirates” o excedia, não foi exactamente uma grande surpresa que tenha sido bem acolhido. Ainda que seja sempre bom saber que as nossas canções encontraram um eco no coração de quem as ouviu.

Aliás, a vossa história tem sido povoada de momentos muito bons. Recompensa por um trabalho dedicado?
Sim, cremos sem sombra de dúvida que a dedicação ao trabalho e a manutenção da fidelidade em relação ao mesmo terá sempre a sua recompensa. Em primeiro e último lugar, a recompensa de saber que demos o melhor de nós ao que fizemos.

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Surgem este ano com “No True Magic”, um disco repleto de músicas que, aqui confesso, não me têm saído dos ouvidos. Qual foi o ponto de partida para a realização deste trabalho?
Como dizia, é sempre bom saber que as canções encontraram o seu eco. Como em todos os álbuns que criámos até agora, o princípio é sempre o conceito. É a partir de ele que as canções nascem e é a ele que elas têm de ser fiéis. Quando criámos o “Drunken Sailors & Happy Pirates”, tínhamos em mente criar o nosso álbum mais negro. Quando o terminámos e nos propusemos a escrever o “No True Magic” quisemos que fosse ainda mais negro. Há diferentes tonalidades nessa cor.

E conseguiram alcançar o objetivo a que se propuseram, ou seja, é este o disco que sonharam?
Sim. Este é o disco sonhado. Não há nada nele que não envolva uma razão forte o suficiente para lá merecer estar: cada vírgula, cada nota, cada silêncio tem uma razão de o ser e de ter encontrado espaço no “No True Magic”.

Continuam pelo folk e pelos blues, mas notam-se uns toques mais elétricos, mais rock. Foi intencional esta, não lhe querendo chamar evolução, fiquemos por desenvolvimento?
Como diz o Willie Dixon, os blues são as raízes e tudo o resto são os frutos, portanto deles não temos ilusão de nos alijar. Há mais electricidade neste álbum, sem dúvida, e não hesitaria em aproximar o rock dele, ainda que aqui se ressalve o espaço para o que é o verdadeiro rock no seu estado mais puro. E, entenda-se por puro a proximidade da fonte. É natural que haja uma alteração/evolução do som, dado que nos últimos dois álbuns éramos um trio onde o violino (e não só) da Susana Ribeiro tinha o seu destaque merecido. A guitarra eléctrica acaba por ter mais destaque na sua ausência. Ainda que não nos podíamos privar do violino da Sue que não poderia ser outro no primeiro single do “No True Magic”, «Black Jewelled Moon».

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Assistir aos vossos concertos é toda uma experiência plena de intensidade. Que novidades trazem com este disco no que às apresentações ao vivo diz respeito?
Na apresentação ao vivo, este disco traz outra das grandes novidades que é a nossa banda de suporte que agora nos acompanha quando as salas em termos técnicos e de dimensão assim o permitem, que é a THE GREAT MOONSHINERS BAND. Isto porque gostamos de adaptar os concertos à dimensão das salas e como com esta banda passamos a ser oito músicos em palco (Victor Torpedo, Guilherme Pimenta, Pedro Serra, Maria Côrte, Tracy Vandal, Paula Nozzari), não pode ser em qualquer espaço, porque em salas mais pequenas quem sofreria mais seriam as canções – e a nossa devoção a estas não nos permitiria tal violência.

Continuam a ter em Tom Waits e Leonard Cohen duas fortes referências?
Tanto um como o outro são nossas referências incontornáveis devido à importância que tem o equilíbrio da música e palavra nas suas canções. Ainda que no caso do Cohen nos agrade mais apenas os seus primeiros quatro álbuns devido a esse tal equilíbrio.

Há algo na música que dá nome ao álbum que me traz à memória um pouco de Bowie e uns toques de Cave…estarei certa?
São ambos artistas que admiramos pelas exactas razões que falava na resposta anterior. Agora essa certeza das influências será algo sempre pessoal de quem está a ouvir e que irá cruzar as suas próprias influências com o que está a escutar. O ser humano tem medo do desconhecido e de certa forma, na sua face, tenta sempre perscrutar algo familiar. É uma associação natural se aquilo que mais se ouve for Bowie e Cave.

Voltando a “No True Magic” a capa é o que logo à primeira vista sobressai. O que pretendem transmitir com ela?
O trabalho fotográfico que é da autoria da nossa fotógrafa Sofia Silva juntamente com a Paula Lourenço e o Miguel Duarte é a sua interpretação do “No True Magic”. É uma questão que mereceria uma resposta partilhada.

Há por ali um ar muito vintage, mas simultaneamente muito elegante…
Sim, a Sofia tinha-nos falado da ideia de retirar a teatralidade associada ao nosso trabalho fotográfico anterior e optou por métodos alternativos para chegarem a este resultado final. Há um texto assinado pelos três fotógrafos que realizaram este trabalho no nosso site em www.ajigsaw.net que melhor explica as suas intenções e razões.

A beleza reside na simplicidade, concordam?
Depende. Há ocasiões onde será ela rainha e outras, vassala.

Como aconteceu a participação de Carla Torgerson?
A participação da Carla é fruto de uma paixão que mantinha pela sua voz desde a primeira vez que a ouvi há quase vinte anos no dueto «Travelling Light» do segundo álbum dos Tindersticks. Quando comecei a escrever a canção «Black Jewelled Moon» onde ela participa, decidi que na narrativa que estava a preparar ia escrever o papel feminino para ser interpretado por ela. Caso não conseguisse entrar em contacto com ela ou caso o não aceitasse, não haveria substituto. Tal como o violino da Susana nesta canção. Mas como conseguimos entrar em contacto com a Carla e como lhe agradou a canção, emprestou-nos a sua soberba voz que foi gravada em Seattle pelo Glenn Slater (também membro dos Walkabouts) no Wakatake Studio. E, ainda que neste álbum professemos a não existência de verdadeira magia, quando ouvi pela primeira vez a canção com a voz da Carla, esse foi, sem dúvida, um momento verdadeiramente mágico.

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Continuam a contar histórias nas vossas letras?
Cada letra é um caso diferente, ainda que todas tenham de servir o conceito do álbum a que dizem respeito. Há orações que não podem ser consideradas histórias e narrativas que não estando desprovidas de uma história, não significa que não o sejam por direito.

Onde se inspiraram para criar cada uma das músicas que integram o disco?
Atendendo ao tema do disco, e à sombra que nele paira dado a sua natureza, a inspiração das canções ainda que surgindo de inspirações várias, nascem do mesmo local, que é do coração. Mesmo quando a razão transborda através emoção.

Há bandas e músicos cujas canções são muito cinematográficas, mas em a Jigsaw é o universo literário que nos vem à cabeça. Concordam com esta perceção? Quais são os vossos autores preferidos?
Talvez seja pela importância vincada que damos à palavra que essa seja uma primeira associação. É extremamente injusto eleger autores favoritos quando nos podem tocar da mesma forma outros que não tão depressa os poríamos num pedestal. Contudo, não se pode deixar passar uma pergunta desta sem falar no John Steinbeck, Fernando Pessoa, Dostoyewsky, Goethe, Nietzsche, Rimbaud e tantos outros que aqui encontrariam lugar igualmente merecido.

A riqueza musical é por demais evidente quando se ouve o disco. Quantos instrumentos foram tocados e quem participou convosco?
Da nossa parte foram cerca de vinte. Mas esse número dilata através dos convidados. A Susana Ribeiro, para além do violino ainda gravou glockenspiel, o Guilherme Pimenta gravou todas as baterias, alguma percussão e um cowbell ocasional. A Maria Côrte gravou viola de arco, violino e harpa. O Hugo Fernandes gravou violoncelo. O Pedro Serra gravou contrabaixo, tal como o Miguel Gelpi e o Gito Lima, que para além do contrabaixo foi o responsável por todo o design gráfico do “No True Magic”. Contámos ainda com o Laurent Rossi na trompa.

Próximas apresentações de a Jigsaw, onde e quando?
Até ao final do ano temos ainda mais alguns concertos de promoção de “No True Magic”. Mas a tour de apresentação do álbum só começará para o ano. O mais fácil será ir vendo no nosso site www.ajigsaw.net onde temos sempre a informação atualizada relativamente a concertos.

Leia também a conversa com a Jigsaw a propósito do disco anterior, “Drunken Sailors & Happy Pirates” aqui.

Por: Sandra Pinto

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