À conversa com Ricardo Bramão, director do Talkfest

A LOOK mag esteve à conversa com Ricardo Bramão, director do Talkfest – International Music Festivals Forum, fundador e presidente executivo da APORFEST – Associação Portuguesa Festivais de Música.

Como surgiu o seu interesse por este tema?
O interesse por este tema surgiu quase por acaso. A minha base académica e de quem fundou o Talkfest era a Psicologia (vertente Recursos Humanos) pelo que ver a azáfama e dinâmica dos profissionais desta área dos festivais contrariava tudo o que tínhamos estudado até então e que era feito numa postura concertada de planeamento a longo prazo a um colaborador. Tudo isto passou rapidamente de hobbie a verificação de uma necessidade e implementação e melhoria de uma área atrativa mas com muitas especificidades.

Dai a diretor do Talkfest – International Music Festivals Forum, fundador e presidente executivo da APORFEST – Associação Portuguesa Festivais de Música como é que tudo se processou?
O processo como diretor foi desde o início mas apenas porque na altura tinha de existir um responsável da equipa que iniciou o evento. Daí até à fundação da APORFEST foi a verificação de uma necessidade. O Talkfest dura 2 ou 3 dias e nos restantes dias ao longo de um ano, éramos confrontados com dúvidas, pedidos, solicitações e por isso formamos uma organização representativa da área onde pudéssemos colocar tudo em prática e fazer assim crescer e dar-lhe credibilidade. A verdade é que se a Aporfest não existisse (e os seus associados e atividades anuais), o Talkfest hoje não existiria porque este é um evento que não tem rentabilidade própria.

Na vossa equipa juntam marketing, psicologia, recursos humanos de que forma tudo se integra?
É algo natural, apesar de sermos uma associação, somos ainda uma equipa pequena e como qualquer organização (seja de que índole for) que hoje surja é feita por elementos que agregam diferentes valências técnicas e comportamentais.

Á conversa com Ricardo Bramão, director do Talkfest

É este o vosso trabalho a tempo inteiro?
Ninguém começou a tempo inteiro no Talkfest/Aporfest. Só desde o ano anterior foi possível criar essas condições, fruto do trabalho exigido pelos associados e receita própria criada pela associação. Hoje a equipa tem três elementos, dois deles a full-time e próximo do Talkfest acresce alguns colaboradores e entrega alguma parte da gestão a empresas especializadas, como a Assessoria de Imprensa. Gostamos quando não acreditam que somos tão poucos, sinal de bom trabalho. Queremos crescer, mas só o fazemos se pudermos.

Com o Talkfest tinham como objetivo otimizar a discussão e o debate sobre este tema. Conseguiram esse propósito?
Claro que sim, a área era muito fechada quando iniciamos e conseguimos, com o tempo, que os seus intervenientes pudessem partilhar mais o que fazem e isso significa ganhos a longo prazo – mais reconhecimento, fundos e possibilidades. Com o tempo a área está a tornar-se também mais corporativa, competitiva. Assegurar a evolução do evento, onde a cada ano tentamos não repetir nomes e tentamos ter mais e melhor qualidade nos seus speakers, indica que estamos a conseguir isso. Também reconhecemos, ainda assim, que este processo foi mais moroso e complexo que o inicialmente previsto, uma vez que somos isentos, sem lobbys e ligações a grupos e isso faz com que o reconhecimento do trabalho demore um pouco mais.

Voltemos um pouco ao passado. Foi fácil chegar perto das pessoas da indústria da música e dos festivais e conseguir captar o seu interesse e apoio?
Sim foi e talvez se iniciássemos hoje o processo não seria tão fácil, pois o acesso a determinados contactos é mais complexo. A verdade é que não conhecíamos quase ninguém e todos nos acharam um pouco loucos, mas a nossa persistência, vontade prevaleceu.
O nosso objetivo foi tendo diferentes interpretações pela indústria, mas hoje penso ser quase unânime que o nosso papel tem ajudado no desenvolvimento, profissionalização e reconhecimento desta área, que todos falam mas que muitas vezes não se quer escutar!

Hoje podemos dizer que existe já uma relação de confiança entre eles e o Talkfest?
Sim, mas ainda existe um largo caminho a ser percorrido, precisamente porque somos isentos, não temos ligações preferenciais, são os nossos 270 associados (profissionais e empresas) e parceiros o nosso motor de trabalho e sabemos que se o fizermos bem e de encontro às suas expectativas poderemos fazer mais e melhor.

Lançaram o livro “Festivais de música em Portugal”, do qual atempadamente demos noticia aqui. Em que assenta e qual a sua finalidade?
Não existia um registo histórico desta área. Foi um projeto moroso, que se iniciou ainda antes do Talkfest e só terminou depois de 4 anos de pesquisas e contactos. Quisemos dar a conhecer uma registo da história de mais de quatro anos de festivais de músicas em Portugal. Até 2018, sairá um novo registo atualizado e mais completo.

Á conversa com Ricardo Bramão, director do Talkfest

Conseguiram chegar a cerca de 300 festivais. Foi fácil chegar e reunir todas estas fontes?
É o nosso dia-a-dia, por isso para nós é fácil mas é algo que é difícil acompanhar e estar próximo. Hoje preocupa-mo-nos mais com os novos, pequenos e festivais menos comerciais (ou acompanhados pelos media) na Aporfest. Já no livro o difícil foi conseguir informações dos festivais mais antigos, mas também são estes os mais deliciosos em termos de histórias.

O que é que o público pode encontrar neste livro?
Curiosidades, um registo estandardizados para atuais, antigos e festivais cancelados.

Até que ponto é hoje importante ter uma instituição como a APORFEST no universo da indústria da música em Portugal?
É importante ter um contacto próximo, aberto e permanentemente disponível, ninguém fica sem resposta. É essa uma característica que nos distingue, depois tentamos que os nossos serviços se adaptem a promotores e todos os outros que confluem na área dos festivais. Somos uma associação a 360º nesta área.

Voltemos ao Talkfest – International Music Festivals Forum, para quem ainda não conhece em que moldes se desenrola o evento?
O Talkfest é o único evento ibérico exclusivamente dedicados aos festivais de música. Tem quatro áreas-chave: conferências, apresentações profissionais e científicas e seminários. A que se juntam os concertos, documentários e Iberian Festival Awards.

Quem pode participar e de que forma o pode fazer?
É um evento para profissionais mas não exclusivo e por isso aberto a todos, sendo que os nossos associados têm sempre acesso gratuito porque são eles que permitem que este evento ocorra.

Esta é a sexta edição, qual os pontos que gostaria de destacar relativamente a ela?
A diversidade programática. Existirão quatro salas com programação permanente ao longo do dia. Passarão mais de 90 speakers e não repetimos nomes tendo por comparação todas as outras edições anteriores.

A intervenção de Thomas Jensen, diretor Wacken Open Air. será certamente um dos pontos altos do evento…
Sim, desde a segunda edição que apostamos na presença de testemunhos internacionais. Já tivemos a presença de responsáveis de Glastonbury, Eurosonic, Exit e este ano contamos com o diretor de um dos maiores festivais de heavy metal do mundo que está esgotado a cada edição.

Uma das bases é potenciar o networking. Podemos afirmar que é ele uma das mais importantes bases para o sucesso profissional hoje?
Sim, claramente. Imaginem empresas, promotores a fazerem todo o ano contactos e no Talkfest conseguem otimizar tudo isso em dois dias porque sabem que lá encontrarão as pessoas que pretendem, existindo disponibilidade para troca de ideias.

Em 2016 foi reconhecido no “Círculo de Inovação” como um dos 100 melhores empreendedores jovens de Portugal. O que é que isso significa para si e que mais-valias dai advêm?
É sempre bom ser reconhecido, ainda para mais quando na área de festivais fui o único representante. Foi ótimo partilhar a minha experiência com pessoas de outras áreas e com muitos mais anos de carreira, aprendi bastante com esta ação.

Ricardo Bramão, o festivaleiro

Qual foi o seu primeiro festival e o mais recente?
Super Bock Super Rock em 2010 e um fantástico concerto do N.E.R.D. O mais recente foi o As Vezes o Amor.

Qual o concerto que mais o marcou?
U2 em Alvalade (2005), a aquisição de bilhete no dia mais frio do ano numa bomba de gasolina e o concerto no dia mais quente do ano e no dia de aniversário do meu irmão.

Qual a situação mais inusitada pela qual já passou num festival de música?
Um jantar feito para vários amigos pelo cozinheiro da crew dos Mumfords & Sons no Nos Alive em 2015. Backstage, ar livre, rio e o melhor peixe do mundo enquanto se ouvia o concerto de Chet Faker.

Certamente que, com a experiência que hoje tem nesta matéria, vive os festivais de uma forma diferente. Como é hoje a sua forma de viver um festival?
É cada vez menos genuína, confesso. É difícil dissociar o papel perante a indústria e a responsabilidade que detenho. Não que tivesse algum comportamento negativo, mas é cada vez mais estar e viver o festival enquanto público porque tudo é visto e percepcionado para trabalho e informação futura.

Ainda procura ser surpreendido quando vai a um festival?
Claro que sim e adoro quando isso acontece. Em Portugal e Espanha é difícil conseguir sê-lo, mas fora deste contexto já tive ótimas sensações, como no Sziget (Hungria).

Por: Sandra Pinto

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