À conversa com a Jigsaw

São um trio e chegam de Coimbra. Chamam-se a Jigsaw e trazem até nós melodias que enchem a alma. Cada uma das suas canções tem a capacidade de surpreender, deixando-nos com vontade de ouvir a próxima. Fomos descobrir um pouco mais sobre a banda de que toda a gente fala.

Mais uma vez Coimbra surge na primeira linha da música nacional… qual o percurso de cada um de vós?
Suponho que o percurso individual de cada um seja de menor importância, comparado com o momento em que nos conhecemos. E isso sim, devemos a Coimbra, cidade onde nos conhecemos os três. E a Universidade de Coimbra a isso não é alheia porque é o que nos move a esta cidade que escolhemos como nossa casa.

Quando e como surgiu este projecto?
Este projecto surge em 1999 numa garagem em Coimbra, fruto da vontade de criar música. Entretanto a formação da banda foi-se alterando. Da formação original dos a Jigsaw ficámos eu (João Silva) e o Jorri. Em 2005 conhecemos a Susana Ribeiro e assim permanecemos até hoje.

Porquê o nome a Jigsaw?
A escolha deste nome é uma continuação de uma tradição iniciada pelo grupo belga dEUS, que adoptaram para o seu nome o título de uma canção dos Sugarcubes (antiga banda da Björk). Nós limitámo-nos a perpetuar essa opção, adoptando para nós o título da canção “Jigsaw You” do primeiro álbum dos dEUS “Worst Case Scenario”. Apesar de neste momento não termos muitas afinidades com o seu trabalho actual, na altura era uma banda com que nos identificávamos bastante e pareceu-nos a escolha acertada. O significado da palavra acabou por vir a fazer mais sentido do que esperávamos como definição do nosso som.

Optam por cantar em inglês. Não se ouvem a fazê-lo em português?
Este projecto nasceu assim, cantado em inglês. E mantendo-nos fiéis ao que somos e à nossa própria construção, não faz qualquer sentido dentro deste projecto cantar em português. Já faz parte da nossa identidade.

No vosso trabalho nota-se a presença forte de dois géneros musicais, os blues e a folk, pouco comuns em bandas nacionais…
Estes são para nós géneros musicais que acabam por ser as raízes do que fazemos. Foi algo que para nós se tornou óbvio quando nos recolhemos para escrever o primeiro álbum e tentámos compreender a razão por detrás da música que gostávamos e que tentávamos criar. E aí percebemos que estávamos a rumar em direção aos blues e ao folk, os quais se tornaram parte de nós, ou fomos nós que nos tornámos parte deles…

“Letters From The Boatman” foi o vosso primeiro álbum. Registo algo intimista lançado em 2007 alcançou uma boa aceitação por parte do público, isso foi uma surpresa para vocês? 
Não diria que foi uma grande surpresa pois não estaria a ser totalmente verdadeiro. Quando o gravámos em 2005, tínhamos consciência de que tínhamos boas canções nas mãos. E como sempre seguimos a filosofia de em primeiro lugar agradar-nos a nós, há sempre a esperança de que da mesma forma alguém irá ser tocado da mesma forma pelas canções. Quanto muito, usando a palavra surpresa, poderia dizer que foi uma agradável surpresa esse público ser muito maior do que esperava.

O álbum “Like The Wolf” chega em 2009. Algo conceptual, onde se inspiraram para o criar?
Todos os nossos álbuns são conceptuais. É a única forma que conseguimos conceber para criar um álbum que assim se possa chamar com propriedade. Para nós não faz sentido que um álbum nosso seja apenas um conjunto de canções cuja ligação seja apenas temporal e cujo título funcione como um laço que as restringe ao mesmo espaço físico. Tem que haver uma razão por detrás de tudo. Não só de cada acorde e de cada letra, mas também na junção das músicas que criam o conjunto que depois se chama álbum. Neste partimos da ideia que os nossos olhos inocentes têm da imagem do lobo na nossa infância. Do medo que essa imagem nos imprime no coração e de como quando os olhos vão perdendo essa inocência retornam à imagem do lobo: e são desiludidos pelas formas caninas deste ser. Aí, nessa fissura que se abre no coração pela descoberta desta mentira, é onde estão as raízes do nosso ser. E é assim que vamos crescendo, assentes numa mentira do coração.

Ao ouvir as 12 faixas que o compõem somos transportados para as paisagens rurais americanas…já tocaram nos Estados Unidos?
Naturalmente que os Estados Unidos serão um dos nossos destinos futuros em termos de tournées, mas como só faz sentido partirmos para outro continente com um plano mais concertado, vamos mantendo esse destino nos planos a médio/longo prazo. Por ora estamos mais interessados em criar bases sólidas no continente europeu.

O ano passado chegou “Drunken Sailors & Happy Pirates” o que o diferencia dos anteriores?
Julgo que o que mais o diferencia, numa análise mais superficial, é um afastamento das tais influências óbvias do continente americano. Talvez porque neste, o piano que era no “Like The Wolf” um breve convidado, se tenha convertido num dos mastros principais. Mas de resto é uma continuação natural do nosso trabalho na conquista de um conhecimento mais profundo da razão que suporta a música e a palavra nas nossas canções.

Aventura em alto mar. Este disco trouxe-vos calmaria?
As aventuras em alto mar têm destas coisas: quando nos aproximamos da margem, o coração reclama o regresso a águas agitadas. Julgo que não nos trouxe calmaria, mas que nos trouxe sede de viagem. Para este álbum escrevemos mais canções do que para os dois outros juntos. Um total de 35 canções que iremos editar ao longo deste ano em 12 edições distintas, desde a cassete ao vinil e ao livro. E devido à grande azáfama que rodeia qualquer processo de edição, este álbum trouxe-nos ventos bem agitados.

Nota-se neste trabalho um amadurecimento como banda, tens noção disso?
Sim, temos perfeita consciência desse amadurecimento enquanto banda de álbum para álbum. A experiência que se vai ganhando de percorrer trilhos já percorridos a isso assiste. Como se trata de um terceiro álbum, já é a terceira vez que repetimos o processo de escrita e de gravação. E de cada vez que o repetimos tentamos sempre melhorar. Aprendemos a reconhecer a estrada que temos de percorrer. Tanto que neste álbum que foi gravado pelo João P. Miranda, já assumimos também um papel muito forte na produção. Sentimos também uma grande evolução do anterior pois entre um e outro decorreram dois anos, em que fizemos a nossa primeira tournée europeia, pisámos os palcos de 12 países e acabámos por tocar mais no estrangeiro do que em Portugal. E essa experiência da estrada, creio que ajuda a um amadurecimento mais rápido.

As histórias que contam/cantam em cada canção lembram-nos que existe um mundo fora das nossas fronteiras. Que mundo querem os a Jigsaw conquistar? 
Para nós, as histórias que cantamos são as que conseguimos vislumbrar da fronteira do que conhecemos. O tema marítimo presente no trabalho surge como reflexo do que somos e do quanto conseguimos ver dentro de nós. Até determinado ponto conheces-te, mas depois há uma linha, talvez do subconsciente, em que te desconheces por completo. Suponho que o mundo que queremos conquistar seja esse: roubar ao nosso desconhecido aquilo do qual ele não se quer apartar.

Estiveram na edição deste ano do Festival para Gente Sentada, como correu?
Foi para nós um concerto muito estimulante porque é um festival que acompanhamos há diversos anos. E tendo em conta que nós somos uma banda que toca sentada e que gosta de plateias sentadas, nenhum outro festival poderia fazer mais sentido para a nossa música. Foi também uma excelente despedida de Portugal encontrar uma sala tão cheia e interessada na nossa música, porque foi o último concerto que demos em território nacional antes de iniciar a nossa tour por sete países europeus. Respondo-te a meio de uma viagem entre Alemanha e Bélgica, sabendo que até voltarmos a casa ainda nos falta cerca de um mês e à volta de 30 concertos, é uma boa memória essa que me acode, o concerto no Festival para Gente Sentada

Quais são as vossas maiores influências?
Esta é sempre uma pergunta de difícil resposta, porque é muito difícil saber ao certo o que nos influencia directa ou indirectamente. Serão as histórias de embalar que a minha mãe me contava ao adormecer menos influência do que os livros do Dostoyewsky com que eu aguçava o meu engenho? Então terei que ficar pela nomeação de influências que serão mais referências. Inclusive, o conceito deste novo álbum é acerca desta questão: da construção da identidade e de como se chega a ser o que se é. “Drunken Sailors & Happy Pirates” acaba por ser a metáfora das pessoas que nos transformaram e nos tornaram no que somos, pois foram eles que desenharam o horizonte a partir do qual nós partimos para alto mar à procura do nosso.
Mas à laia de nomeação poderia adiantar nomes como o Tom Waits, o Fernando Pessoa, o Leonard Cohen, o Tolstoy, o Mississippi John Hurt ou o Rimbaud.

Quando e onde vamos ter oportunidade de ver a Jigsaw ao vivo?
– Por ora, como te dizia até meio de Maio, quem nos quiser ver ao vivo terá que se deslocar a um país da Europa Central. Mas depois disso, vamos estar até Setembro, pelo menos, em território nacional. E ainda serão bastantes datas, portanto o melhor será darem um pulo ao nosso website para ficarem informados das datas. www.ajigsaw.net

Fotos de Rita Carmo

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