À volta das letras com Covadonga Valdaliso sobre “Museus de Lisboa”

Covadonga Valdaliso é doutora em História Medieval e investigadora integrada no Centro de História da Universidade de Lisboa. Lançou agora o livro “Museus de Lisboa”, pela Fundação Francisco Manuel dos Santos. Neste livro descreve-se a experiência de visitar, ao longo de várias semanas, os espaços museológicos da capital, como explica a autora em entrevista.

O que é que Lisboa significa para si?
Como para muitas pessoas que não cresceram na cidade, é uma escolha consciente, e quase quotidiana. Ao mesmo tempo, tem tanta personalidade e presença que tenho a sensação de ter com ela uma relação.

Qual é o encanto que existe em visitar um museu?
Quando é um museu que nunca antes se visitou, a sensação de curiosidade, de descoberta, de espaço novo sobre o qual se criam expectativas. Quando é um museu já antes visitado, a certeza de que a coleção, ou alguma das suas peças, está lá à nossa espera, e talvez elas não mudaram mas nós sim.

O que a levou a escrever este livro?
Foram várias coisas diferentes, que acabaram por confluir. Comecei a pensar no projeto no 2017-2018. Naquela altura, a área histórica da cidade estava a mudar a uma grande velocidade e o turismo massivo estava a expulsar dela aos residentes de uma maneira bastante violenta. Parecia que já não era para quem cá mora mas para quem vem visitá-la por uns dias. Surgiu o projeto de abrir um novo museu e várias pessoas falaram-me disso de maneira muito negativa, porque para eles era mais um espaço “invadido”. Assim, nas primeiras visitas tentava saber se os museus também se tinham tornado espaços destinados apenas a quem vem de fora, como as lojas e cafés da Baixa. Tentava também “estar na pele” do visitante por umas horas. Passado um tempo, comecei a perceber que na cidade havia muitos mais museus do que aquilo que tinha pensado no início, e acabaram por ser um pretexto para explorar Lisboa e, dentro dela, novos espaços.

Quantos museus percorre nestas páginas?
No fim do livro há uma lista com todos os que são mencionados no texto e acho que são mais de setenta, mas alguns deles são apenas citados. Entretanto, tenho a certeza de que algum me deve ter escapado, e sei que desde o 2019, quando o texto foi escrito, abriram alguns novos.

De que forma escolheu este itinerário?
De facto, foram dezenas de itinerários. Às vezes planificava percursos em áreas em que há mais do que um museu, outras fazia visitas de regresso do trabalho ou combinava com um amigo para ir ver um museu e depois almoçar, por exemplo. Tentei visitar todos num período concreto mas também fazer com que essas visitas fizessem parte do meu quotidiano. Um dos objetivos do projeto era também começar a integrar esses espaços na cidade em que vivo, que as visitas não fossem algo fora da normalidade e sim uma oportunidade de alargar o espaço urbano.

Como organizou as suas visitas? Foram elas diárias?
Visitei museus durante vários meses… Alguns estão longe ou mal comunicados para quem, como eu, não tem carro. Algumas visitas levam horas e, frequentemente, nos que têm jardins ou cafés, apetece ficar mais tempo. Compatibilizar os horários também não é fácil. E houve vários que visitei mais do que uma vez, para saber se as visitas eram diferentes, por exemplo, num fi-de-semana, ou no Dia dos Museus.

Há uma maneira correta de se visitar um museu?
Talvez, mas não saberia dizer qual é. A minha atitude tem sido sempre muito intuitiva, recetiva e passiva. Alguns museus contam uma história, têm um percurso, com ou sem visitas guiadas transmitem um discurso e não estão à espera de resposta. Muitas das vezes eu não era, claramente, o modelo de recetor para o qual o discurso foi criado, mas isso fazia com que a visita tivesse bastante piada, porque eu acabava por ser um elemento discordante, uma peça que não fazia parte da máquina. Outras vezes claramente não estavam à espera de visitas, e também era divertido. E frequentemente funcionários extremamente simpáticos começavam a conversar comigo, a sugerir que reparasse em diferentes coisas. Acho que cada visita é uma experiência, e que o melhor é não estar à espera de nada, ir à descoberta. Já nos museus mais visitados, e naqueles que já conhecemos, a atitude é diferente, penso que é mais como caminhar por uma rua a ver montras, ou a fazer compras. Diria que em todos os casos (museus e ruas comerciais) o essencial é ser discreto, respeitoso e educado.

Devemo-nos preparar antes de entrar ou devemos ir à descoberta?
Em quase todos os casos diria que ir à descoberta, mas as visitas ganham muito quando se vá à procura de uma peça concreta, como numa exploração. Há uma parte de aventura nisso que faz com que as visitas sejam mais simpáticas.

O factor surpresa é importante na empatia que o visitante pode ter com o museu que está a visitar?
Estar à espera de ficar surpreendido é sempre aliciante, mas devo dizer que às vezes as surpresas não são boas. Houve visitas em que as minhas expectativas eram muito baixas e, mesmo assim, fiquei desiludida.

Aprende-se realmente quando se visita um museu?
Em algumas visitas, sim. Outras têm o efeito contrário. Quando não se compreende o que se está a ver o museu muitas das vezes acaba por ser uma manifestação de que há temáticas que não conhecemos, ou com as quais não conectamos. Porém, nem todos os museus são para todas as pessoas, e penso que isso é natural.

Tem algum museu preferido? Se sim qual o motivo?
Vários. Gosto especialmente dos que mantiveram o aspeto dos museus antigos, mas também de outros que criaram propostas de e para o presente. Os espaços também condicionam: alguns dos palácios e jardins mais lindos da cidade são agora museus e, independentemente das coleções ou dos discursos museológicos, merecem visitas frequentes. E acontece uma coisa similar com alguns dos cafés, dos restaurantes, das lojas dos museus. Assim, para além daqueles de que gostei nas primeiras visitas, fui criando conexões com outros que comecei a visitar mais frequentemente.

Que conselhos gostaria de deixar aos leitores que ainda não perceberam a importância de visitar estes espaços?
Que não pensem num museu com um espaço didático ou educativo, que pensem numa experiência. Podem gostar ou não dela, mas merece a pena tentar.

Até porque muitos deles oferecem condições para se estar em paz… certo?
Com certeza. Fiz quase todas as visitas sozinha e frequentemente era a única visitante. Até nos museus mais visitados há horas e dias em que há poucas pessoas. Percorrer as salas assim é um privilégio. Mesmo sabendo que não é assim, por momentos parece que prepararam o lugar apenas para essa visita. Isso faz com que uma pessoa se sinta especial.

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