À volta das letras com Ana Sofia Brito sobre "Clarisse no Vale das Cotovias"

À volta das letras com Ana Sofia Brito sobre “Clarisse no Vale das Cotovias”

De Portugal ao Reino Unido, a vida de Ana Sofia Brito moldou-se pelos gosto pelo teatro e o amor pelo ensino. Apaixonada por Londres, onde reside, Ana Sofia encontra na escrita uma forma de se expressar. Autora de dois livros, foi um deles, “Clarisse no Vale das Cotovias”, que deu o mote a esta conversa com a escritora.

Nasceste em Portugal, mas resides em Londres, no Reino Unido. O que te levou até terras de Sua Majestade?
A primeira vez que fui a Londres foi através do programa Erasmus quando estava a estudar para ser professora de Português e Inglês na Escola Superior de Educação em Setúbal. Estava no meu segundo ano do curso, tinha 19 anos e apaixonei-me por Londres. Foi a minha primeira vez longe de casa, no início da década de 90, por isso, como podes imaginar, foi amor à primeira vista. Desisti do meu curso da ESE e concorri a Roehampton University para estudar Drama e Estudos Teatrais. Tive o meu primeiro filho no meu último ano de curso e depois decidi regressar a Portugal com ele.
Em Portugal, participei em algumas brincadeiras teatrais mas com pouco sucesso e acabei por me virar para o ensino, dando aulas nas secundárias de Oficinas do Teatro e Animação Sócio Cultural, e depois com a introdução das AECS nas Escolas de Ensino Básico. Entretanto, a minha mãe muda-se para Londres para ser tratada e eu decidi ir ter com ela e por aqui fiquei.

Olhando para o teu CV há algo que desde logo me chamou a atenção: teatro. Tens uma licenciatura nesta área, o que te levou até ela e o que atrai no teatro?
A minha paixão pelo teatro veio desde cedo. A minha mãe foi estudante de canto lírico e levava-me com ela para as aulas na Academia Luísa Todi e algumas vezes em Lisboa. Embora a minha família sempre me tenha canalisado para a música, com aulas de piano e violino no Conservatório Regional de Setúbal, eu nunca quis seguir, faltava-me a disciplina e a paixão que a música requer. O teatro dava-me a oportunidade de sair da rotina e viver na pele de outras pessoas. Sempre fui bastante observadora, sempre gostei de inventar histórias, enredos, escrever. Isso ajudou-me imenso nas minhas escolhas profissionais.

Como foste do teatro para a educação, sendo que és professora do ensino básico?
Infelizmente, o teatro não paga contas e eu tive que me virar para aquilo que sabia fazer melhor e que me dava alguma estabilidade financeira. O primeiro dinheiro que ganhei foi a dar explicações de inglês aos amigos do meu irmão. Gosto de ensinar, é quase como se estivesses num mini palco em frente a uma plateia. Quando comecei a dar aulas de música e inglês nas AECS no Seixal e depois Setúbal, descobri que se decidisse ficar no ensino, seria aquela faixa etária que eu gostaria de ensinar.
Quando vim para Londres, comecei logo a dar aulas como Professora de Apoio, trabalhando fundamentalmente com crianças com Necessidades Educativas Especiais. Depois decidi fazer o PGCE (Pós-Graduação em Educação) que me deu habilitações para ser Professora Titular nas Escolas Britânicas. Ainda dei aulas de Teatro em Cursos Profissionais, o correspondente ao nosso 12.º ano, mas depois acabei por me ficar pelo Ensino Básico.

Que ferramentas te deu o teatro para a tua ocupação profissional?
Uso o teatro em quase todas as áreas do curriculum. A crise também chegou ao Reino Unido e tal como em Portugal as Artes são as primeiras a levar com cortes orçamentais. Embora ainda se dê importância às Artes na Educação, as escolas não estão equipadas com professores qualificados e materiais necessários para o desenvolvimento das áreas artísticas. Por isso, tento introduzir o máximo que posso o teatro no meu estilo de ensino.

Em Portugal a profissão de professor tem passado por bastantes dificuldades. Como é no Reino Unido? É “fácil” ensinar?
Costumo dizer, ser professor não é uma profissão, é quase como um estilo de vida. A entrega tem que ser total. Sempre gostei de ensinar embora tenha tentado fugir do ensino. Venho de uma família de professores, a minha avó foi professora do Ensino Básico durante 40 anos e a minha mãe foi Professora de Música. Por rebeldia, insisti em não seguir o ensino, mas acabei por me render ao fato de que adoro ensinar, especialmente os mais pequenos. É difícil, stressante, por vezes injusto devido aquilo que nos é exigido, mas também é extremamente gratificante. Em tempos de pandemia, tem sido um desafio bastante difícil. Tenho medo de como esta futura geração ir-se-á desenvencilhar mais tarde, mas temos que continuar a lutar para lhes darmos as ferramentas necessárias para poderem ultrapassar os obstáculos que a vida lhes vier a impor.

Publicaste em 2020 um livro dedicado ao publico infantil. Escrever é algo que te cativa desde sempre ou é um amor recente?
Desde miúda que sempre andei com um caderno atrás. Sempre escrevi diários e histórias. Como adoro ler, a escrita veio naturalmente. A escrita tem um efeito terapêutico em mim. É assim que melhor me consigo expressar, demonstrar os meus sentimentos e opiniões. Sabia que mais tarde ou mais cedo acabaria por apostar na escrita e o público infantil e juvenil é aquele que mais me agrada, principalmente por ser o mais honesto e verdadeiro.

Como surgiu a ideia de escrever o “Clarisse no Vale das Cotovias”?
Sempre gostei de livros de fantasia e aventura. Sou leitora assídua de Stephen King, Shirley Jackson e Paul Auster. Quis que este livro fosse uma mistura do fantástico com o real, com um toque de non-sense à mistura. Penso que consegui atingir esse objectivo. Quis que tanto jovens como adultos se identificassem com algumas das personagens e dos sítios descritos no livro. Fui buscar histórias de infância que a minha avó me contava, pessoas com me que cruzei ao longo da minha vida, sítios que visitei e assim surgiu Clarisse no Vale das Cotovias.
Escrevi este livro numa das alturas mais dolorosas da minha vida, após a morte da minha avó, a quem dedico o livro. Mais uma vez a escrita ajudou-me a lidar com a dor da perda, a saudade e o luto. Cada vez que me sentia a afundar refugiava-me no Vale das Cotovias e criava mais histórias e personagens.

Sem desvendar muito da história, quem é a Clarisse?
Clarisse é uma jovem de 16 anos que se vê de repente fora da sua zona de conforto e tem que se desenvencilhar sozinha num mundo desconhecido, estranho e hostil, obrigada a regressar às suas raízes para restabelecer um pouco de ordem na sua vida.

Foi te simples criar, não só a personagem principal, como todas as que podemos encontrar nesta aventura?
Clarisse tem muito de mim. Ao longo da minha vida, tive que me reencontrar para poder continuar. É quase como o conceito filosófico do eterno retorno. Pode parecer clichê, mas e assim que me sinto. A vida é um ciclo e estamos sempre a voltar ao início.

A personagem percorre um caminho entre a autodescoberta e o regresso e aceitação das suas raízes. Na vida real não te parece que estes dois aspetos são essenciais para sermos pessoas completas?
Sem dúvida. A aceitação daquilo que somos é essencial para sermos felizes. Penso que passei parte da minha vida a fugir daquilo que sou. Foi esse o meu erro. A partir do momento em que aceitas as tuas conquistas e as tuas falhas, é muito mais fácil seguires em frente.

O livro tem várias ilustrações da autoria do teu companheiro, Bruno Sugere. Foi importante este trabalho a meias?
Não foi uma viagem fácil, mas foi essencial para nós. Sou fã do trabalho artístico e criativo do Bruno, mas temos um ritmo e uma forma de trabalhar bastante diferente. Ele visualiza tudo e como não põe tudo aquilo que pensa no papel, pensamos que não há nada de concreto, mas o plano já está todo delineado na sua cabeça. Eu preciso de por tudo no papel, é assim que me consigo organizar. Mas o produto final está à vista e penso que a nossa parceria resultou bastante bem.

Tens planos para escrever mais livros?
Entretanto escrevi um livro infantil, ilustrado por Isabel Valfigueira. “Eliana encontra o Mundo da Matemática” foi um livro escrito com o intuito de angariar fundos para a Associação Famílias do Mundo, cuja diretora foi minha professora na Escola Superior de Educação de Setúbal, Luísa Carvalho. A associação visa ajudar crianças de países lusófonos que têm variados problemas cardíacos e necessitam de ser tratados em Portugal. A associação organiza viagens e famílias de acolhimento para estas crianças. Eliana foi uma das primeiras crianças a usufruírem dos serviços desta associação. A Luísa acabou por acolher Eliana, oriunda da Guiné Bissau que chegou a Portugal com apenas 4 anos de idade. Ficou em Portugal aos cuidados da Luísa e encontra-se a estudar numa escola portuguesa. Numa das muitas conversas, a Luísa contou-me da fobia que Eliana sentia pela disciplina da Matemática e foi assim que este livro surgiu. 10% dos lucros das vendas do livro revertem a favor da Associação Famílias do Mundo.

Esta foi uma edição de autor pelo que te pergunto como se pode adquirir o livro?
Clarisse no Vale das Cotovias, tal como a sua versão em inglês The Adventures of Clarisse in the Birds Valley encontram-se tanto em formato físico como digital à venda na Amazon. O livro infantil Eliana encontra o mundo da Matemática, também está disponível através da Amazon mas somente em Português e em formato físico.

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