A minha vida num disco: Bonifácio

É de Ovar mas vive no Porto. Passou pela produção para os outros, mas agora foca-se na produção de material seu. Apaixonado pelo Japão, país que visitou em 2018, foi nele que se inspirou para criar Hanami, o EP que lançou pela Regulator Records e sobre o qual podem ficar a saber mais nesta entrevista.

Desafiado para escolher aquele disco especial, o músico João Bonifácio não hesitou um segundo em aceitar. Aqui deixamos a sua escolha.

A minha vida num disco: Bonifácio

Nunca mensurei a minha vida em discos, afinal de contas, o que nos define enquanto indivíduos é bem mais complexo e intrincado do que 40 minutos de música, por muito boa que esta seja, pela melhor escrita que esta possa conter.
Não obstante, quando fui convidado para escrever sobre a minha vida num disco, a minha mente foi instantaneamente atropelada pelo maravilhoso Felt Mountain de Goldfrapp. Estranhamente, não pensei sequer duas vezes. A dúvida só surgiu quando intelectualizei a questão em relação ao que me define
enquanto músico, ainda assim, o Felt Mountain nunca fez tanto sentido como hoje.

Foi este o disco que me abriu os horizontes da criatividade, ainda que, na altura, esta estivesse muito menos definida do que está hoje em dia. Não é de estranhar, uma vez que em Setembro de 2000 – data de edição do disco – eu tinha 13 anos. É certo que não tinha a maturidade necessária para interpretar o disco como era devido. Era um puto idiota como o suposto, mas, ainda assim, absorvi-o e, ainda hoje, passados 21 anos (porra), continuo a escutá-lo com regularidade.

O perfeito assobio, qual andaime, introduz-nos à viagem como se de um jingle de uma estação de caminhos de ferro se tratasse. Beats simples ditam paulatinamente o ritmo do embalo, os acordes suspensos de sétima – que não soam nem particularmente tristes, nem particularmente alegres –
ecoam através dos sintetizadores saturados e servem de cama à surreal voz da Alison. Esta tanto nos faz sentir confortáveis com o seu sussurro e doçura, como transmite os sentimentos mais recalcados e vorazes, ainda mais quando a voz é processada pelos incríveis filtros carregados de harmónicos e oscilação de um Korg MS-20 de 1978 (está na wishlist).

Este disco é frio, como o bungalow onde a Alison Goldfrapp e o Will Gregory o escreveram entre Setembro de 1999 e Fevereiro de 2000. Uma mistura de memórias de infância, sexo, solidão e de filmes que nos manipulam a mente. Há uma clara alusão à imagética criada por realizadores como David
Lynch ou Roman Polanski. Nas palavras de Alison: “It’s sort of beautifully macabre”.

As letras transmitem uma visão muito própria, mas são suficientemente abstractas para existir liberdade de interpretação. Enquanto ser sensitivo e criativo, não sou particularmente adepto de ser guiado por uma narrativa balizada. Gosto de ter espaço para criar as minhas próprias imagens, cenários, estórias, etc. O Felt Mountain permite-me viajar e divagar o quanto eu quiser, apenas limitado pela minha própria imaginação.

You May Also Like

A minha vida num disco: Ricardo Agostinho do site [ar.cai.co]

A minha vida num disco: João Vairinhos

A minha vida num disco: Nuno Miranda da Gruesome Records

À conversa com o músico João Spencer dos Mazarin

error: Conteúdo protegido. Partilhe e divulgue o link com o crédito @lookmag.pt