A celebrar 25 anos de vida, o festival Vodafone Paredes de Coura abriu as portas para quatro dias de boa música e muita felicidade

Vodafone Paredes de Coura 2017 Dia I

A celebrar 25 anos de vida, o festival Vodafone Paredes de Coura abriu as portas para quatro dias de boa música e muita felicidade.

Escola do Rock > The Wedding Present

Tiveram honras de abertura da edição comemorativa do festival. Falamos da Escola do Rock de Paredes de Cura que trouxe uma nuvem de talento ao palco principal do festival. Ao todo são 40 os músicos. Com eles seis baterias (uma delas tocada por uma rapariga), 14 guitarras, cinco baixos, oito vozes no coro e alguns sopros.

Do alinhamento que trouxeram para preencher os 45 minutos de concerto fizeram parte grandes temas de nomes maiores do universo do rock e que já passaram por aquele mesmo palco em edições anteriores do festival, como Pixies, dEUS, Queens of the Stone Age, Nine Inch Nails, Sonic Youth, Motorhead ou Arcade Fire.

Foram os escolhidos para dar vida à primeira Vodafone Music Sessions, os concertos-surpresa que todos os anos acontecem durante o festival. Se nessa altura os The Wedding Present tocaram no telhado dos balneários junto ao Palco Jazz na Relva, ao início da noite foram eles que deram andamento ao alinhamento musical do primeiro dia do palco principal do festival.

David Gedge, o único membro que permanece da formação original dos Wedding Present, banda formada em 1985 na cidade inglesa de Leeds, chegou bem acompanhado por Charles Layton na guitarra, Danielle Wadey no baixo e Marcus Kain na bateria, para apresentar os temas que fazem parte do registo discográfico lançado em 1987, “George Best”, o primeiro álbum da banda que levou como título o nome do antigo avançado do Manchester United.

A animação por parte do público que ia chegando mais perto do palco não era grande, prova evidente do desconhecimento relativamente ao disco e à história da banda (tal como ouvimos na zona de restauração um jovem afirmar «os que estão a tocar lançaram este disco há milhões de anos e depois não fizeram mais nada» e que nos levou a dar a devida resposta «errado, o disco foi lançado faz 30 anos e a banda lançou em 2016 o seu nono álbum», pois é preciso educar). Bom, verdade seja dita que as hostes animaram um pouco ao som de “All This And More”, mas coisa pouca.

Com graça, David Gedge afirma, a meio do concerto, «chegamos agora a meio do LP “George Best”», esclarecendo que «é um vinil, já agora», e pedindo desculpa «pois acabo de matar uma traça». Não sabemos quantos dos presentes perceberam a piada, mas que foi bem “metida” foi. O final do concerto cheio de classe (a malta com “milhões” de anos é assim, cheia de classe) chega com o êxito de 1989, “Kennedy”.

Mão Morta > Beak>

Na década de 80 éramos adolescentes. Nessa altura o liceu era o nosso mundo, mas não era o mundo dos outros, era mesmo o “nosso” mundo. Os amigos repartiam-se entre diferentes grupos, os vanguardas, os punks, os góticos, os heavy e os rockabilly. Depois havia os outros e esses não nos interessavam nada. Ali, dentro destas castas diferenciadas íamos crescendo, partilhando sonhos através da música que trocávamos e que, sabemos hoje, nos iria ligar para sempre. Na altura, a música portuguesa começava a chamar a nossa atenção (tínhamos 15 anos não esquecer) e de entre ela um grupo sobressaia, chamavam-se Mão Morta.

Muitos anos depois, precisamente aqui em Paredes de Coura, tivemos o privilégio de conhecer pessoalmente Adolfo Luxúria Canibal, o vocalista dos Mão Morta. Nessa altura tivemos a “lata” de lhe revelar toda a nossa admiração, a qual passou para a geração mais nova cá de casa, que hoje, com 14 anos, ficou maravilhado com a prestação de Adolfo e seus companheiros. A verdade é que não foi o único, pois além dele e de nós, todos os que tiveram o privilégio de assistir à prestação da banda de Braga ficaram “esmagados” com a intensidade do concerto.

O pretexto, mais do que válido, da vinda dos Mão Morta a esta edição do festival, foi a celebração da primeira edição de “Mutantes S.21”, álbum lançado em 1992. Mas a verdade é que a banda foi muito mais longe dando ao público um concerto que ninguém vai certamente esquecer. «São 25 anos do mais antigo festival português com edições regulares», afirma Adolfo, para depois cantar, cartarmos todos em uníssono, os parabéns ao festival. Foi bonito!

Além dos temas que integram o disco, como “Lisboa”, “Barcelona” ou “Budapeste” houve ainda espaço para recordar canções icónicas como “Bófia”, a primeira música dos Mão Morta, ou “Velocidade Escaldante”…ai que saudades do Rock Rendez Vous…

Lá atrás projeções de vídeo, enquanto nós, público convertido em seguidores fiéis, éramos levamos numa eletricidade estonteante através da história do melhor e mais duro rock nacional. Hoje e sempre é a maior banda rock nacional, que voltem mais vezes que estaremos sempre prontos para recebê-los!

O negro da noite cobria já o recinto quando o trio britânico Beak> subiu ao palco. Bateria, guitarra, sintetizador e baixo integram este que é um dos projectos paralelos de Geoff Barrow, elemento dos Portishead. Do alinhamento temas como “The Gaol”, “The Broken Window”, “Batery Point”. Por entre ele, comentários divertidos, como os nomes com que brindou Trump e covers de músicas que levaram o público ao puro deleite e divertimento com alusões aos Pink Floyd e aos Dire Straits. Quase no final da prestação, Geoff Barrow revela que «nunca tinhamos tocado para uma multidão tão grande», afirmando que «a minha mãe ficaria feliz de ver isto». Pois, mais uma vez foi bonito (spoiler alert: bonito será palavra recorrente nesta edição do festival e nestes artigos).

Future Islands > Kate Tempest

Apesar de estarem sediados em Baltimore, no Maryland, os Future Islands nasceram em Greenville, no estado norte-americano da Carolina do Norte, em 2006. Com eles trouxeram um toque de mainstream a este primeiro dia do festival, o que a nosso ver não é bom nem é mau, é apenas mais uma banda. Composta por Gerrit Welmers, William Cashion e Samuel T. Herring é neste último que assenta toda a sua performance de palco. Imparável, por vezes até demais, o intrépido vocalista chama a si uma enorme percentagem das atenções. Não nos encheram as medidas, mas cativaram os nossos ouvidos com as orelhudas “Seasons (Waiting on You)” e “Ran” (somos humanos, ok?). À nossa volta milhares de outros humanos dançavam, como que em antecipação à verdadeira festa que aconteceria nos dias seguintes.

Brutal. Esta será outra palavra recorrente nos nossos artigos, sendo que a primeira será aqui, neste preciso parágrafo para adjectivar o concerto de Kate Tempest. Com pouco mais de 30 anos (ninguém lhe daria mais de 16), a rapper, performer e escritora britânica apresentou em 2016 o registo “Let Them Eat Chaos”, onde foca assuntos como o capitalismo, o individualismo, o culto das celebridades, a alienação através da tecnologia, a corrupção ou as alterações climáticas.

O sotaque não nega, vinda da zona sul da capital britânica, Kate dispara a arma maior do ser humano, a palavra, por sobre o público de Coura que a ela se entrega de forma total, sem medos ou receios. Cada tiro, desculpem, cada verso, atinge o amâgo de cada um de nós, levando a que pensemos, meditemos mesmo, algo que muitos não estão certamente habituados a fazer e que seria algo de muito válido para que possamos dar valor ao que temos.

Canção de intervenção? De facto, as canções de Kate são as canções de intervenção dos tempos actuais, que abordam temas na ordem do dia e que tocam na vida e no dia-a-dia de todos. Em cima do palco Kate apresenta-se acompanhada por três músicos entre sintetizadores e bateria. Todo o concerto é uma viagem através da qual percorremos o disco nomeado para um Mercury Prize. Uma viagem alucinante em que nós, público, não temos espaço nem tempo para respirar, em que a poetisa não dá descanso ao sentimento, dela e nosso. Um instante pára e faz-nos parar. Olha para o público e sorri. Este sorri de volta com mais uma onda de aplausos. Kate conquistou Coura e Coura conquistou Kate. Mais uma vez foi bonito.

Texto: Sandra Pinto
Fotos: Luís Pissarro

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