Vodafone Paredes de Coura 2016 Dia III Uma mão cheia de magia

A chuva chegou de noite para acalmar os ânimos que da noite anterior permaneciam em alta. Foi um Vodafone Paredes de Coura mais fresco aquele que nos recebeu às 17h00 quando o recinto abriu as portas, mas que rapidamente aqueceu com os primeiros grandes concertos do dia.

First Breath After Coma > Kevin Morby

São de Leiria e são bons, aliás, são muito bons. São já uma mão cheia os concertos que deles vimos, mas aqui vos deixamos a confissão de que nunca os tínhamos visto tão soltos, tão entregues a um público prontinho para recebê-los. Ao Palco Vodafone FM os First Breath After Coma trouxeram um alinhamento de luxo e uma legião de fãs que não pararam de apoiá-los, ovacionando cada canção, entoando cada refrão, sorrindo e acenado os corpos numa cadência perfeita entre as notas que desciam do palco, tal pequenas gotas de chuva que nos iam refrescando o espírito e a mente. Sim, gostámos e muito de um concerto que num ambiente de crescente intensidade nos fez recordar que este é o festival onde todos os sonhos acontecem. E quando acontecem ao som de músicas como as dos First Breath After Coma tudo é ainda mais eterno, ainda mais perfeito. A cada composição o público era transportado para o interior da alma de uma banda que tem vindo a demonstrar uma crescente maturidade e qualidade. «Obrigada por estarem aqui a partilhar connosco um dos momentos mais bonitos que vivemos até agora». Obrigada nós, por partilharem tão boa música connosco.

Altura de descer até ao Palco Vodafone, onde nos aguardava o concerto de Kevin Morby. E que concerto. «Adoramos o vosso país», revela Kevin, «obrigada por nos receberem». O que se seguiu depois foi o desfilar de um conjunto de belíssimas canções que bem podiam fazer a banda sonora perfeita de uma tarde de mergulhos à beira da fresca água do Taboão. “I Have Been To The Mountain” ou “Dorothy” podem até ter sido os pontos altos do concerto, assim como as restantes canções que integraram o alinhamento cinco estrelas. «Vocês são os maiores», afiança Kevin e quem somos nós para discordar?

Sean Riley and The Slowriders > Crocodiles

Chegámos ao Palco Vodafone FM estavam os Sean Riley and The Slowriders a subir ao mesmo. Este foi para nós o mais emotivo dos concertos desta edição do festival, não só porque somos fãs da banda, mas, sobretudo, porque à semelhança deles estamos em processo de aprender a lidar com a perda de alguém muito próximo e importante. A abrir o concerto o som do piano. Sobre o lamento das notas um excerto em português do livro “On The Road”, de Jack Kerouac, lido de forma emotiva e intensa em homenagem a Bruno Simões, o músico da banda desaparecido desde o passado mês de junho e que mais do que parte dela, era e é um irmão desta tribo de músicos fora de série. Liderados por Afonso Rodrigues, os Slowriders percorreram parte da sua carreira plena de boas e memoráveis canções, como “This Woman”, «acho que para esta música vamos precisar da vossa ajuda», algo que nem seria preciso pedir pois ao refrão “So I pray, Not to see her again, Everytime she comes around” foram muitas as vozes que a eles se juntaram, a nossa incluída. De referir que nesta e em “Got to Go” contaram com a presença em palco de Paulo Furtado, «grande, grande amigo da banda». Com um quarto e lindíssimo registo homónimo lançado recentemente, foi sobre ele que assentou parte do concerto, tendo nós que assinalar “Dili”, canção nascida da experiência vivida neste país pelo baixista Bruno Simões. Como tivemos ocasião de lhes confidenciar pessoalmente, aqui dizemos publicamente que o nosso coração está convosco, Sean Riley and The Slowriders.

Não mordem nem assustam, pois apesar do nome os Crocodiles revelaram-se um bando de bons rapazes que chegaram ao Palco Vodafone com a intenção de dar tudo. E tudo foi tanto que do lado de cá, do público, todos aderimos ao seu cativante rock and roll onde lhes descobrimos pontadas de surf e garage rock, lo-fi noise pop, mas onde também não faltam uns pozinhos de psicadelismo. Tendo vivido várias reencarnações desde 2008, data em que se mostram pela primeira vez ao mundo, os Crocodiles apresentam-se agora enquanto quinteto com Brandon Welchez, na voz e guitarra, Charles Rowell, na guitarra, Robert Moutrey, na bateria, David Claxton, no baixo, e Joseph Lee, nas teclas. Num festival tão completo musicalmente não se podia pedir mais do que um fim de tarde ao som destas guitarradas que embalaram os minutos até à chegada da noite. Melodias atraentes que nos iam aconchegando os ouvidos e animando os membros que não paravam de se mexer ao som da voz de Brandon. Pelo meio ainda pensámos que os nossos adorados Jesus and Mary Chain tinham vindo fazer uma visita ao Vodafone Paredes de Coura, mas não, eram “apenas” os putos Crocodiles a fazer boa música com excelentes influências. Boa onda, sem dúvida!

Psychic Ills > King Gizzard & The Lizard Wizard

É uma das cidades que mais música dá o mundo, ou não fosse ela própria o centro do mundo, e não apenas musicalmente falando. Pois bem , é de lá, de Nova Iorque que chegam os Psychic Ills, encarregues de animar o Palco Vodafone FM lá pelas oito e meia da noite. Apesar de ser hora de jantar para grande parte dos festivaleiros, fomos muitos os que resistimos aos apelos da gula em prol do apelo da arte, pois é disso mesmo que se trata quando falamos dos Psychic Ills. Uma arte que talvez não seja para todos, mas que quando atinge o seu objetivo se apresenta certeira e algo viciante. Formados em 2003, os Psychic Ills são compostos por Tres Warren nos vocais e guitarra e Elizabeth Hart na voz e baixo. Passeando as suas composições entre o rock experimental e o psicadélico conseguiram deixar muita gente de orelhas em riste com o seu som, «temos de procurar conhecer melhor», ouviu-se, afirmação com a qual não podiamos concordar mais, pois é para isso mesmo que os festivais servem, dar a conhecer boa música, e a dos Psychic Ills é realmente muito boa!

Quando terminou o concerto dos King Gizzard & The Lizard Wizard só nos perguntávamos como tinhamos sobrevivido à primeira vez que os vimos ao vivo, sendo que tal memorável momento tinha acontecido num beco de Lisboa numa garagem da EPAL! A verdade é que sobrevivemos e ainda bem pois foi de real valor voltar a viver esta experiência única que é um concerto destes fabulosos australianos. Formados na cidade de Melbourne em 2010, têm no rock psicadélico o seu porto seguro. E quando falamos em seguro não o fazemos em modo depreciativo, bem pelo contrário, pois conseguem trazer para a modernidade um género nascido ainda eles não imaginavam sequer o que era ser humano. Energia não faltou ao concerto, nem em cima do palco nem no público que, não se fazendo rogado, deu tudo o que podia entre mosh, crown surfing e muita poeira, mas o que é isso comparado com a emoção que se sente quando se gosta da música que nos enche a alma de vida e cor? Pois, nada! Uma festa na qual também nós participámos, tal ritual musical da familia LSD.

Jacco Gardner > The Vaccines

Como a idade já não perdoa e as pernas já não acompanham o que a cabeça deseja era altura de relaxar um bocadinho e para isso dirigimo-nos ao Palco Vodafone FM onde Jacco Gardner já espalhava magia. Nascido na Holanda e com uma verdadeira paixão por tudo o que é vintage e old fashion, no bom sentido de ambas palavras, o músico fazia já soar um alinhamento de luxo onde sobressaiam temas do seu mais recente trabalho, “Hypnophobia”. Pelo meio iam surgindo temas consagrados pelos fãs do registo discográfico “Cabinet of Curiosities” editado em 2013 e que serviu de trampolim à carreira que tem vindo a desenvolver.

Reposta a devida energia era altura de voltar a gastá-la desta feita no palco principal do festival da frente do qual só viriamos a sair para ir para a cama, umas horas depois. The Vaccines, banda no nosso coração que já tinhamos visto em 2013 neste mesmo anfiteatro de sonho, chegou para inundar de charme a edição 2016. Três anos depois e depois de já os termos visto mais umas quantas vezes, esta soube a um reencontro de velhos conhecidos. No princípio eles meio timidos e nós meio apagados. Depois canção após canção, eles mais atrevidos e nós mais animados. No fim uma festa pegada, à semelhança das outras vezes. Não há nada como os reencontros.

Cage The Elephant

Há precisamente dois anos escrevíamos que o concerto dos Cage The Elephant tinha sido o melhor da edição 2014 do Vodafone Paredes de Coura. A verdade é que ainda hoje pontua na nossa memória familiar como dos melhores concertos que por lá vimos, pelo que as expectativas para este reencontro eram tremendas. «Quero ver o concerto na frente de palco», informa trajado a rigor com a t-shirt comprada naquele ano (hoje já curta, mas o que é que isso interessa?) e do alto dos seus 13 anos o mais jovem elemento da equipa LOOK mag, que há dois anos nem se atreveu a pedir tal ousadia. Que fazer? Pernas para que te quero e lá vamos nós arranjar um bom spot.
O entusiasmo era imenso (entenda-se o nosso), o da banda sentimos menor do que naquele ano de boa memória. Mas isso só sentiu quem lá esteve em 2014, pois os estreantes em Cage The Elephant sentiram o chão tremer debaixo dos seus pés, pois a banda norte-americana voltou a dar um excelente concerto surpreendendo os mais incautos. A verdade é que não vimos poses à Lux Interior ou Iggy, mas vimos um colectivo mais coeso e mais alinhado. A nós, que temos uma alma punk, bateram as saudades da loucura do primeiro encontro…mas não é (quase) sempre assim?

Reportagem fotográfica com o apoio da Canon Portugal.

Texto: Sandra Pinto
Fotos: Luís Pissarro

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