Vodafone Paredes de Coura 2016 Dia II O sítio certo para se estar

E ao segundo dia do Vodafone Paredes de Coura fez-se história. Com um alinhamento a roçar a perfeição, o dia 18 de agosto de 2016 vai ficar na memória de quem o viveu nas margens do Taboão como algo único que nunca mais vai esquecer.

 

Ryley Walker > Joana Serrat

Nasceu a 21 de julho de 1989 para vir a Coura espalhar charme. Bem, podia ter sido assim mesmo, pois o concerto do norte-americano Ryley Walker foi tudo o que dele esperávamos, e sim, também foi muito charmoso. Cantor, compositor e guitarrista nascido em Rockford, Illinois, Ryley Walker teve as honras de abrir o Palco Vodafone neste segundo dia de um Vodafone Paredes de Coura que se viria a revelar memorável. «Como é bom estar aqui», refere Ryley, referindo que «o meu quintal está cheio de lixo por isso é tão bom ver um quintal tão bonito como o vosso». Buscando raízes no rock norte-americano, nas suas composições descobrem-se importantes influencias do folk. Num fim de tarde soalheiro, Ryley conseguiu trazer pinceladas psicadélicas que de nos cativaram de forma orelhuda, mas não só a nós, pois o público que se ia juntando frente ao palco isso mesmo confirmava. Com grande parte do alinhamento assente em “Primrose Green”, registo discográfico de 2015, o norte-americano conseguiu dar um excelente pontapé de saída aos concertos que estavam programados. Acompanhado por um português na bateria e um norueguês no baixo, Ryley afirma que «apetece-me tocar tudo outra vez», e porque não, apeteceu-nos responder. No final, antes de “Primrose Green”, revela que «depois de terminar o concerto vamos andar por aí, ao pé do rio são todos tão bonitos que me sinto feio…mas quero muito ser um de vós». Pois sim, sê bem-vindo, Ryley.

No Palco Vodafone FM era altura de espreitar a atuação de Joana Serrat. Bastante comunicativa, a americana que se apresentou ao mundo com “Dear Great Canyon”, o registo discográfico de 2014 que ganhou o prémio de Melhor Álbum Nacional do Ano pela Pop-Eye, foi desfilando as suas composições doces e tranquilas num alinhamento cativante. Dele sobressairam as canções de “Cross The Verge”, o mais recente trabalho gravado no estúdio canadiano Hotel2tango. Um concerto intimista que de alguma forma nos preparou para a noite que se avizinhava.

 

Whitney > Bed Legs

Oriundos de Chicago os Whitney foram os senhores que se seguiram no palco maior do festival. «O nosso nome é Whitney e adoramos o vosso país», afirma o vocalista e baterista Julien Ehrlich, apresentando de seguida “So Death”. O sexteto norte-americano veio abrilhantar o lusco fusco naquele que é para nós o mais belo palco dos festivais de música nacionais. Antes do concerto encontrámos os músicos sentados na relva a assistir ao concerto do compatriota Ryley Walker, prova de que este é, efetivamente, um festival muito especial. «Há cinco anos pensei vir para cá estudar e agora cá estou», confidencia Julien Ehrlich anunciando que a canção que se segue é “No Matter Where We Go”, que lançada em 2015, é ainda hoje um marco na carreira da banda. Apelando ao público, o baterista/vocalista vai apresentando as canções que integram o alinhamento, como “Golden Days” ou “On My Own”, «uma música sobre amor», afirma.

Quando chegámos ao Palco Vodafone FM já o palco estava a “arder” e os culpados eram os portugueses Bed Legs. O seu rock enérgico e eficaz não deixou ninguém indiferente nem quieto. Perto de nós não houve quem não aderisse ao som da voz encorpada do vocalista Fernando Fernandes, que, tal como um bom vinho, foi ganhando corpo e forma ao longo do concerto. Pelo meio muito headbanging. «Paredes de Coura estamos prontos para o rock?», grita o vocalista, «nós somos os Bed Legs e vimos de Braga. Hoje é a noite do rock, por isso quero propor um brinde a todos vós». E o brinde veio através de “Black Bottle”, nome do álbum de estreia da banda bracarense que deu o mote a todo o alinhamento. Um power fora de série que se vai tornando em algo de hipnoticamente aliciante e que consegue transportar o público rumo a uma espiral do mais puro rock and roll. «Estou a ver tudo a dobrar», grita Fernando Fernandes, «deve ser por causa da hiperventilação», justifica-se e nós acreditamos!

 

Sleaford Mods > Algiers

Hora de voltar a descer o monte rumo ao Palco Vodafone para assistir a um dos concertos por nós mais aguardados. Chegámos bem a tempo de arranjar lugar perto do palco para que nada perturbasse a nossa visão e mal assentámos arraiais ouvimos vindo do palco o som tão característico dos Sleaford Mods. No enorme palco principal de Coura os dois elementos da banda mais parecem uma orquestra completa. Sendo apenas dois, a verdade é que Jason Williamson e Andrew Robert Lindsay Fearn têm o poder de conseguir captar a atenção do público, a maioria desconhecedor da sua arte, mas que ao longo do concerto foi aderindo aos apelos de Jason. Mas esta não é uma banda qualquer. Oriundos da cidade inglesa de Nottingham, os Sleaford Mods nasceram em 2012. São, certamente, a banda inglesa mais “zangada”, sendo as suas suadas actuações pautadas por um fluxo brutal de descontentamento da classe trabalhadora. O poder da “spoken word” ganha novos contornos pela mão da dupla trazendo à nossa memória uma série de influências, a maior delas, sem dúvida, Jello Biafra, o cantor, compositor e ativista político norte-americano, ex-vocalista dos Dead Kennedys. Tal como Biafra, Jason carrega nas palavras os anseios e a raiva de uma classe operária reivindicativa e assertiva dos seus direitos. Mas também nos lembramos de Johnny Rotten, vocalista dos PIL, que apresenta a mesma voracidade e raiva na forma como se expressa e defende as palavras que vai atirando à cara de quem o ouve. Assim é igualmente Jason. «Estão bem?», pergunta o vocalista, «normalmente não atuamos para tanta gente», revela, afirmando que «o verão não tem sido muito frutuoso, mas a vida é mesmo assim, certo? No fundo o que importa são as canções». De seguida, atira com a letra de “Faces to Faces” para cima de nós, comuns mortais já perfeitamente rendidos e enlevados no seu som.
Num momento de critica e típico humor britânico, Jason chama a palco “Little England”, «que sempre se posicionou como sendo a melhor do mundo, melhor do que vocês e por isso eu e o Andrew queremos pedir desculpas». Quase no final do concerto, Jason agradece, algo envergonhado, a ovação vinda do público. Opção mais do que certa para aquela que se viria a revelar como uma memorável noite de concertos.

No Palco Vodafone FM tivemos ainda tempo para espreitar a atuação dos Algiers de modo a verificar que gostámos muito mais de vê-los ali naquele palco mais cozy do que no outro onde há uns meses os vimos pela primeira vez.

 

Thee oh Sees > Shura

«Olá Portugal! Somos os Thee oh Sees e vimos de Las Vegas um lugar incrível». Assim começa a verdadeira viagem que sempre é um concerto dos Thee oh Sees. Noite escura e o breu do céu apresenta-se como o cenário perfeito para o espectáculo dos norte-americanos. Frente ao Palco Vodafone eram muitos os que ansiavam por dar tudo de volta à banda que lá de cima nos estava já a dar tanto. Sim, os Thee oh Sees são uma brutalidade de banda que consegue congregar em si a mais pura e dura essência do rock. As duas baterias apresentam-se com uma intensidade fora de série fazendo vibrar cada um dos nossos nervos, acelerando os batimentos do nosso “fraco” coração e aquecendo as nossas faces que, de tanta emoção, ganham um rubor algo montanhês. Formados em 1997, os Thee oh Sees são formados pela alma e mestria de John Dwyer, voz e guitarra, Tim Hellman, no baixo, e os bateristas Ryan Moutinho e Dan Rincon. Ouvir e, acima de tudo, assistir a um concerto dos Thee oh Sees é ter a oportunidade única de sentir a história do rock, pois a banda consegue juntar nas suas composições o garage e o rock psicadélico da década de 60, o punk, o noise rock, o art punk e os post-punk da rica década de 80. Com 41 anos John Dwyer apresenta-se como uma verdadeira fera de palco, não se percebendo se a guitarra faz parte dele ou ele da guitarra. A verdade é que ambos apresentam um “pas de deux” memorável que não vai ser tão depressa esquecido pelos muitos privilegiados que a ele assistiram! Perante uma multidão em êxtase praticante convicta de um brutal crowd surfing que fez levantar muito, mas mesmo muito pó em Coura, Dwyer diz «vocês são uns “animais”! Isto é o máximo!», certamente o mesmo que o público pensa dele e dos seus companheiros.

Da actuação de Shura vimos pouco. No Palco Vodafone FM, Alexandra Lilah Denton chegou ao festival com a tarefa de substituir Sharon Jones & The Dap-Kings apresentando ao público do festival minhoto um pop de influências de 80 com o sintetizador a fazer as honras da casa.

 

LCD Soundsystem

Ver o anfiteatro do festival cheio de público é um momento único na vida de qualquer festivaleiro. Com mais de uma mão cheia de Paredes de Coura, temos tido o privilégio de assistir a muitas enchentes na frente do Palco Vodafone mas poucas tão emocionantes como aquela que assistimos e vivemos antes do início do concerto dos LCD Soundsystem. Liderada pelo cantor, compositor e produtor norte-americano James Murphy, co-fundador da editora DFA Records, a banda que a 02 de abril de 2011 dava o, na altura anunciado como último concerto, em Madison Square Garden, regressou em grande aos palcos em 2016 cabendo essa honra também ao Vodafone Paredes de Coura. Numa prestação imaculadamente perfeita que «viajou direitinha para os momentos históricos do festival», como referiu na conferência de imprensa de balanço do festival, João Carvalho, um dos seus organizadores, os LCD Soundsystem percorreram os temas que fizeram grande a sua carreira. No final. as saudades já eram muitas e ninguém queria abandonar o recinto pois todos queríamos que aquele momento durasse para sempre. E vai durar, no coração e na memória de cada um dos que tiveram a sorte de o viver!

Reportagem fotográfica com o apoio da Canon Portugal.

Texto: Sandra Pinto
Fotos: Luís Pissarro

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