Vio-lence e os Angelus Apatrida no RCA: thrash sem travões numa noite de riffs afiados

Numa altura em que o thrash metal continua a provar a sua longevidade e relevância, há concertos que não são apenas datas no calendário: são declarações de força. A noite de 25 de julho no RCA Club foi exatamente isso: um choque frontal entre bandas e público, onde intensidade, entrega e caos se fundiram numa experiência tão física quanto memorável com os Vio-lence e os Angelus Apatrida.

Texto: Sandra Pinto
Fotos: Luís Pissarro

No dia 25 de julho, o RCA Club transformou-se num autêntico campo de batalha sónico. Os Vio-lence não vieram dar um concerto. Vieram descarregar décadas de fúria acumulada, com uma atuação suja, intensa e absolutamente implacável. Nascidos no coração da Bay Area (EUA) em meados dos anos 80, quando o thrash ainda era perigoso e imprevisível, os Vio-lence sempre foram a face mais crua dessa cena. Nunca precisaram de grandes holofotes para deixar marca: bastaram-lhes riffs cortantes, velocidade sem controlo e discos que ainda hoje soam como um murro no estômago. Eternal Nightmare continua a ser um clássico incontornável, enquanto Oppressing the Masses e Nothing to Gain mostram uma banda que nunca quis suavizar arestas, só afiá-las ainda mais.
Em palco, Sean Killian foi puro caos controlado. Não houve filtros, não houve contenção, apenas gritos rasgados, presença ameaçadora e uma entrega total, como se cada música fosse uma luta corpo a corpo. Killian não canta, ataca. E o público sentiu isso do primeiro ao último segundo. Porque na plateia, a resposta foi imediata. A energia que saía do palco explodia sobre o público sem qualquer travão. Crowd surfing constante, praticamente sem pausas, corpos a atravessar a sala como projéteis humanos. O calor tornava o ar pesado, quase irrespirável, mas ninguém queria saber: era parte da experiência, parte do ritual. Mosh pits violentos, suor, empurrões, gritos. Uma comunhão caótica onde banda e público deixaram de ser entidades separadas. Não houve nostalgia, nem momentos para recuperar o fôlego. Só intensidade pura. Só thrash no seu estado mais cru. E naquela noite, no RCA, ficou claro: os Vio-lence não são apenas uma relíquia da Bay Area, são ainda uma força viva, perigosa e absolutamente imparável.

O RCA Club não estava preparado para o que aconteceu naquela noite. Quando os Angelus Apatrida subiram ao palco, não houve introduções nem aquecimento — foi entrar e atacar sem piedade, como uma máquina já em velocidade máxima. Vindos de Albacete, com mais de duas décadas de estrada, carregam uma confiança que não se finge. A formação — Guillermo Izquierdo, David G. Álvarez, José J. Izquierdo e Víctor Valera — funciona como um bloco sólido, afinado ao detalhe, mas sempre com aquela sensação de que tudo pode descambar para o caos a qualquer momento.

E descambou, no melhor sentido.
Logo de início, “Indoctrinate” e “Cold” caíram como dois golpes secos, rápidos e diretos, sem espaço para respirar. “Of Men and Tyrants” trouxe um peso mais denso, quase sufocante, antes de “We Stand Alone” transformar a sala num grito coletivo, punhos no ar, vozes em uníssono. Mas o que realmente marcou a atuação foi mais do que a precisão, foi a atitude. Ao longo de todo o concerto, a boa disposição dos músicos era constante, sempre em interação com o público, sempre a puxar por mais. Houve até um momento em que Guillermo parou de tocar por instantes para pedir a um elemento do público que se acalmasse, num raro instante de controlo no meio do caos, mostrando que, por trás da agressividade, há consciência e respeito.
E logo a seguir… voltou tudo a explodir.
“Vomitive” e “End Man” abriram completamente as portas ao caos. A velocidade disparou, o som tornou-se mais cru, mais violento e na plateia o pit tornou-se num turbilhão impossível de travar. Foi também aqui que um dos momentos mais insanos da noite aconteceu: um dos guitarristas desceu para o meio da plateia e começou a tocar rodeado por um mosh pit em plena ebulição. Gente a chocar, a rodar, a cair e no centro, riffs a serem disparados como se nada fosse. Puro caos. Puro metal. Na reta final, “Give ‘Em War” e “Sharpen the Guillotine” mantiveram o nível no máximo, com uma agressividade afiada e refrões feitos para incendiar multidões. “You Are Next” e “Violent Dawn” fecharam o set como um aviso final, sem redenção, sem descanso. A sala estava ao rubro. O crowd surfing era constante, praticamente ininterrupto. Corpos a passar por cima da multidão, o calor a tornar o ar pesado, quase irrespirável. Mas ninguém abrandava. Ninguém queria sair dali. Havia caos, havia suor, havia impacto,  mas acima de tudo, havia ligação.
Angelus Apatrida não vieram apenas tocar. Vieram provar que continuam a dominar com técnica, com atitude e com uma energia que não se aprende. E naquela noite, no RCA, não houve sobreviventes. Só testemunhas.

Vio-lence

Angelus Apatrida

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