Vinte e três mundos em cena: a fragmentação da vida em “HerAqui” na Boutique da Cultura

A peça “HerAqui”, de Rosa Leão, que sobe ao palco da Boutique da Cultura durante o mês de maio, propõe uma experiência cénica que escapa às convenções tradicionais do teatro narrativo.

Por David Pissarro

Mais do que um espetáculo linear, trata-se de uma performance multidisciplinar onde teatro, música, poesia e movimento se entrelaçam numa sucessão de 23 micro-histórias que convidam o público a sentir antes de interpretar.

Da Índia para o Palco: O Nascimento de um Conceito

A génese deste espetáculo teve origem numa viagem de quatro meses de Rosa Leão pela Índia. Foi lá que a artista começou a escrever contos abstratos que experimentavam e subvertiam com a fórmula clássica do “Era uma vez”. Dessas pessoas e histórias conhecidas pelo caminho, nasceu uma dramaturgia fragmentada, onde o caráter “miniaturista” de cada quadro funciona como um flash de uma vida, servindo simultaneamente como crónica e crítica social.

A criação da personagem “Hera”, foi essencial para o desenvolvimento do conceito deste espetáculo, segundo a autora: “tudo está vivo e contido na Hera”, inclusive as pessoas que contam estas histórias, estes “era uma vez”, particularmente aquelas que “não têm medo de amar, ser e partilhar de uma forma tão genuína”. É isto que este espetáculo tenta transmitir, mais do que tudo: sentir e permitir-se a sentir. São histórias que não têm obrigatoriamente lugar; são universais, falam de partilha e de conexão. Num mundo tão, aparentemente, conectado no digital, a conexão real da partilha e da compreensão surge como uma alternativa ao “viver moderno”.

O espetáculo bebe também do conceito hindu de Lila, que encara a existência como uma “brincadeira divina”. Essa ideia de jogo atravessa toda a peça através de dinâmicas físicas e jogos de palavras, onde o humor e o absurdo coexistem, mesmo nos momentos mais densos e dramáticos.

Um Mosaico de Corpos e Objetos

Em “HerAqui”, a identidade é fluida e os 23 quadros funcionam como janelas para um panóplia de realidades e de emoções. O espetáculo transita habilmente entre o absurdo e a crítica social: enquanto em “Entre Dois Barcos” os corpos se tornam embarcações humanas num jogo surreal, quadros como “Jogo de Deus Cadeira Semtimedo”, “Deus Crackudo” ou “Fatimahan” utilizam a palavra e o humor trágico-cómico para questionar a relação humana, por vezes cínica ou até mesmo de rutura, com o divino.

A relação com o objeto e o espaço é outro dos eixos centrais. Em “Bicicleta e Rapariga na Estrada” e “Dar! Dar! Dar! E receber”, os objetos ganham autonomia e protagonismo, manipulando os humanos, trocando entre eles, culminando numa oração coletiva de contornos feministas. Esta exploração sensorial estende-se ao corpo em “Casa Que Beijei Na Boca e Gostei”, onde as paredes do teatro são acariciadas numa metáfora de amor-próprio, e em “Rabos Ponto de União”, onde um simples gesto de costas viradas para o público desafia olhares discriminatórios de uma forma sempre cómica.

O espetáculo não receia os contrastes, muito pelo contrário, vive deles, seja ao nível do humor e do quotidiano – desde a ironia sobre o autoritarismo em “Mehboob” ao retrato desconfortável do excesso de fala em “Paula Que Não Se Caula”, ou o mexerico melancólico e simbólico de “Mulheres Velhinhas à Espera na Espreita”; à violência e tensão – em quadros como “Violência” ou “Eu cometi crimes”, onde as tensões invisíveis do dia-a-dia e o constante questionamento da moral humana vêm à superfície sob uma capa de humor inquietante, revelando algo muito mais profundo que os atos de violência em si; e a sensorialidade e a espiritualidade – em momentos como “Consciência” e “Sentidos e gotas” que mergulham o público numa experiência quase meditativa, onde sons da floresta e música repetitiva conduzem os intérpretes (e a plateia), em transe, na busca exterior para uma introspeção profunda.

 “HerAqui” é marcada pelas várias aparições de “Dançhera” e pelo seu hino “Sou liberdade”, que mostram a premissa principal do espetáculo – o sentir e a liberdade para o fazer. Estes momentos funcionam como o coração da peça, uma celebração da “verdadeira liberdade” que evolui até ao final, onde a figura da “Hera” se revela: não como uma personagem estática, mas como uma história viva, feita de fome, de desejo e da recusa de uma realidade única, enraizada na conexão e na partilha.

A Atmosfera dos Bastidores: Som e Comunidade

Quem assiste aos ensaios percebe que o ambiente é de cumplicidade, descontração e amizade, todos os intérpretes são pessoas importantes na vida de Rosa, amigos e familiares e, por essa razão, foi-lhes dada liberdade para reagirem aos estímulos sem ideias pré-feitas, permitindo que cada um sinta a sua própria versão do texto, resultando em interpretações muito distintas do mesmo conto.

A componente sonora é outro pilar fundamental de “HerAqui”. Durante a sua viagem, Rosa captou sons ambiente desde a azáfama das cidades ao sussurro da natureza. Essas gravações foram trabalhadas para servirem de interlúdio entre os contos, criando uma dinâmica viva entre som e corpo, em tempo real. Os atores não se limitam a interpretar; eles reagem a estes estímulos sonoros e ao texto.

Um Apelo ao Sentir

O espetáculo culmina numa celebração coletiva. A figura da “Hera” — que ecoa a sonoridade de “Era uma vez” — simboliza esta reinvenção da narrativa: um emaranhado vivo de emoções e ligações. No final, o tema “Sou liberdade”, cantado em coro, une voz e corpo num manifesto contra a desconexão do mundo moderno.

“HerAqui” não oferece respostas prontas. Em vez disso, lança perguntas essenciais para o público: qual é o lugar do sentir num mundo que insiste em explicar tudo? Num tempo de conexões digitais superficiais, esta peça propõe a conexão real e a coragem de ser genuíno como a única alternativa possível, tal como a procura da liberdade própria que reside na permissão de sentir e partilhar.

“HerAqui” é um espetáculo inovador, profundo e cómico. A não perder. Vai estar em cena nos dias 1,2,3,8,9 e 10 de maio na Boutique da Cultura, em Lisboa.

Sobre a Autora
Rosa Leão é uma artista lisboeta com um percurso multifacetado. Destaca-se o seu trabalho musical com o pai, Rodrigo Leão, em “Piano para Piano” (2023), mas a sua marca estende-se ao teatro como atriz (em “Auto da Feira” de Gil Vicente e “Sobre os Rios”, de Afonso Ruivo Cardoso) e como dramaturga em “infiniTudo” e agora com “HerAqui”, tendo-se apresentado em salas de referência nacionais como o Tivoli BBVA e o Teatro A Barraca.

Ficha Técnica
Dramaturgia, Direção e Música | Rosa Leão
Interpretação: Adriana Freire, Afonso Cardoso, Ana Avillez Basto, Ana Carolina Costa, Ana Matos Pires, António Leão, Bruno Miguel, Carlota Blanc, Carlota Julião, Cláudia Lopes, Claudio Hochman, Daniela Barroso, Filipe Gaio Pereira, Gabriela Dias, Helena Matos, Hugo Anastácio, Isabel Albergaria, Isabel Medeiros, João Pedro Diniz, Josef Alves Deisenhofer, José Sousa, Luísa Vasconcelos, Manuel Venade, Marcelo Teixeira, Maria Miguel Lima, Mariana Robert, Marta Boavida, Miguel Rebelo da Silva, Natacha Romão, Nicole Vercesi, Paulo Abelho, Pedro Baptista, Pedro Martins, Pedro Miguez, Rita Benis, Rita Almeida Calado, Rodrigo Leão, Rosa Leão, Salvador Miguez, Sofia Leão, Sofia Ruivo, Viviena Tupikova
Imagem e Produção | Helena Matos
Desenho de Luz | Tiago Santos
Operação de Luz e Som | Enzo Ballaré, Miguel Nunes, Paula Galiana
Operação de Vídeo | Henrique Sá

Bilhetes 
https://www.bol.pt/Comprar/Bilhetes/175912-heraqui-boutique_da_cultura/

Fotos
Miguel Rebelo

You May Also Like

Antestreia “Burning Ambition”, o documentário sobre os Iron Maiden em imagens

Ambição justificada: “Burning Ambition”, o documentário sobre os Iron Maiden, chega hoje às salas de cinema

Porto Blues Fest regressa em 2026 ao Palácio de Cristal com nomes históricos e foco na sustentabilidade

Scorpions regressam a Portugal: uma das maiores bandas de rock de sempre está de volta a Lisboa

error: Conteúdo protegido. Partilhe e divulgue o link com o crédito @lookmag.pt