Vamos falar de upcycling (reutilização criativa de peças) na arte com a artista plástica Mel Alves

A artista plástica luso-americana Mel Alves apresenta uma instalação onde ergue a bandeira do “colo como ativismo”, defendendo que ser idoso é cool e que hoje em dia ser rebelde também passa por ouvir e cuidar de quem embalou a nossa infância. Vozes da avó é uma casa-útero constituída por oito metros de afetos e de memórias, onde ecoam as histórias de oito matriarcas — incluindo a avó da artista —, quer através de objetos doados por elas quer através de retratos ‘pintados’ com tecidos e linhas que caracterizam cada uma delas. Conversámos com Mel Alves para perceber melhor tudo o que rodeia esta obra.

Como surgiu o interesse pela arte?
Desde que me conheço que a arte sempre me suscitou interesse, e aos 4/5 anos — em parte por causa dos desenhos da minha irmã mais velha e dos desenhos técnicos e de perspetiva do meu pai— anunciei à família que iria ser pintora. O primeiro reconhecimento veio da professora primária, que me pedia para criar o exercício de colorir para o teste final do semestre. Mas também foi ela que em pouco tempo acabou com o meu primeiro negócio, visto que os colegas pagavam-me para desenhar por eles… Uma pena… [Risos.] Recordo-me ainda que adorava ficar doente, pois a minha mãe comprava-me blocos A4 e lápis de cor. Pelos 8/9 anos, a minha tia Lena tornou-se na minha primeira colecionadora. Além de me pedir para fazer pinturas do cão, também me ‘requisitava’ para colar os vasos partidos (já nessa altura eu não gostava de deitar nada fora). A partir dos 10 anos, por cada aniversário e Natal, passei a pedir livros de arte como presente… Até que aos 18 anos enveredei pelas Belas-Artes e acabei por fazer de uma paixão a minha profissão. No fundo, no fundo, e analisando todo o meu percurso, sinto que a forma natural de me expressar, a minha primeira língua são as imagens. Só depois é que me chegam as palavras… [Risos.]

De que forma nasceu a instalação Vozes da avó?
Vivi durante oito anos nos EUA e, em 2017, quando estava a fazer um trabalho sobre mulheres que de alguma forma me eram próximas (amigas, amigas de amigas ou conhecidas), à medida que as entrevistava, percebi que na realidade não as conhecia assim tão bem como pensava. E este confronto fez-me querer descobrir outras pessoas, nomeadamente a minha última avó viva. Em 2019, quando regressei definitivamente a Portugal, um dos objetivos era conversar com ela e gravar essas memórias. No entanto, no início da pandemia, a avó Maria José acabou por falecer, e as minhas questões ficaram sem resposta. Para conseguir fazer o luto, decidi pegar nos poucos objetos que herdei — alguns colares, quatro colchas, algumas rendas, uma máquina de costura, dois globos de candeeiro e uma caixinha de música com bailarina — e criar uma peça de arte que lhe desse a tal voz que acabei por nunca ouvir…

Qual o processo utilizado no desenvolvimento da instalação?
Quando comecei esta homenagem à minha avó — em pleno epicentro da covid-19 —, apercebi-me de que os idosos se tinham tornado num grupo ainda mais vulnerável, quer pelo número de mortes quer pelo isolamento obrigatório a que estavam sujeitos. E isto é dramático quando Portugal é o quarto país mais envelhecido do mundo… Decidi, então, alargar este tributo a mais avós, pois elas são símbolo de resistência, são pilar, são chão, são teto e são casa. A ideia inicial era correr o país a entrevistar matriarcas de diferentes idades e contextos. Porém, quando o The Hood — espaço cultural da Amadora — me propôs acolher a instalação, decidi fazer algo relacionado ‘apenas’ com as avós desta cidade. Se esta entidade tem como objetivo trazer experiências artísticas diferentes aos habitantes deste meio, então o meu trabalho também só fazia sentido ter matriarcas desse mesmo ambiente. Numa sociedade tão egocêntrica é urgente regressarmos ao local e darmos voz à comunidade e a quem nos é próximo.

A quantas avós dá voz este projeto?
De forma objetiva, este projeto dá voz a oito avós: à minha avó Maria José — que eu chamo ‘avó impostora’, dado ter sido a única que não foi entrevistada e que não é da Amadora — e a mais sete avós. Mas, na realidade, ele é um projeto-sinédoque, pois toma a parte pelo todo. Na prática, isto significa que ele pretende dar voz a todas as avós de Portugal, pois quem visita esta instalação seguramente que, de alguma forma, se reencontra com os seus avós e com as suas recordações. E um dos objetivos é mesmo esse: reavivar memórias e sentimentos.

Em que pilar assenta a instalação?
Como herdei a máquina de costura da minha avó e ela fazia roupinhas de restos de tecidos para as minhas bonecas, para mim foi imediato que a base desta instalação tinha de celebrar o verbo costurar. Além disso, a maioria das matriarcas da geração da avó Maria José possuía este objeto em casa, quer para confecionar vestuário para a família, quer para criar peças para o lar (cortinas, lençóis, colchas…), quer para remendar. Antigamente, os tecidos tinham também eles várias histórias e vidas, pois as roupas eram (re)aproveitadas vezes sem conta e até ao limite, num verdadeiro exercício de upcycling. Por exemplo, do sobretudo do pai, fazia-se uma saia, uns calções e uns coletes para os filhos; e disto, depois, resultavam uns forros para bancos. Portanto, Vozes da avó é um trabalho que aborda um ambiente doméstico de uma certa época e que costura histórias pessoais das avós tal como elas ajudaram a costurar as nossas.

E em que fases se desenrolou a Vozes da avó?
As avós foram sugeridas por amigos, pela Universidade Sénior da Amadora e por associações desta cidade. Numa primeira fase, e de forma individual, cada uma foi fotografada a preto e branco, decorrendo posteriormente uma longa entrevista filmada. Depois, a partir das fotografias tiradas, desenhei num pano branco a lápis os rostos de cerca de 2 m por 2 m. Por fim, e com base na personalidade e nos depoimentos de cada uma, escolhi os tecidos (provenientes de sobras de fábricas nacionais) que as caracterizavam melhor para criar um retrato com a sua história. Para se perceber, vou dar alguns exemplos: os lábios de uma avó são rendas do seu casamento; nos óculos de outra avó inseri dois gatinhos estampados, pois são a luz dos seus olhos, e outra avó tem os lábios de serapilheira, simbolizando os sacos que desde cedo carregou no campo (…).

Qual é a filosofia e a missão de Vozes da avó?
No processo de seleção das avós, da minha parte não havia qualquer restrição, na medida em que o objetivo era ter diversidade, pluralidade e representatividade nas mais variadas dimensões: social, económica, etária, religiosa, escolar (…). Na verdade, eu queria provar que todas as histórias são importantes, que não há histórias melhores nem piores. A ideia é mostrar que todos os avós têm as suas experiências e a sua narrativa, e que, se os escutarmos, seguramente que vamos ficar surpreendidos com vários episódios. E é deste “ouvir atento e atencioso” que surge o conceito de ‘colo como ativismo’.

Pode explicar melhor em que consiste este ‘colo como ativismo’?
O ‘colo como ativismo’ é um conceito que eu criei e que defende que ser punk e cool também passa por dar colo a quem nos deu colo, a quem nos embalou a infância. Os idosos são encarados pela sociedade em geral como sinónimo de doença, de limitações e de incapacidade. Contudo, eles possuem um valioso património de storytelling e têm muito para contar e para ensinar. Nós achamos que nos avós ‘nasceram’ quando nós nascemos e que até ali eles não passavam de fotografias a preto e branco. Mas eles têm todo um passado a cores para partilhar e com o qual podemos aprender imenso. Na prática, esta instalação é um convite-alerta. Tudo porque os nossos avós não duram para sempre e é muito importante passar mais tempo com eles, termos curiosidade, interrogá-los e partir à descoberta da vida que esteve na origem da nossa, visto que foram eles que, de certa forma, pavimentaram a estrada que percorremos hoje.

Qual é a mensagem-chave do espaço?
Este espaço assume a forma de uma casa, de uma casa-forte, de uma fortaleza, de uma Muralha da China. E a casa da avó não é isso mesmo? Uma casa-guarita que nos protege de tudo e de todos? Além disso, a casa da avó também é uma casa-surpresa onde tudo é uma descoberta e um castelo de sonhos onde tudo é possível. Para captar este espírito de evasão, criei uma instalação multissensorial, onde há muitas surpresas visuais, táteis e sonoras à espera de serem desvendadas. Como este trabalho não representa a casa da avó no singular, mas no plural e no coletivo, os visitantes vão (re)encontrar de alguma forma — através destas memórias alheias — as suas próprias memórias. Como a casa da avó é uma casa-útero, aquilo que pretendo é que as pessoas viajem no tempo e voltem por instantes àquele lugar mágico. Ao regressarmos a este espaço, no fundo, estamos a regressar à nossa infância e à eterna felicidade dos momentos vividos.

Uma vez pronta, de que forma se desenvolve a instalação perante quem a visita?
Como referi, esta instalação é literalmente uma casa de memórias. Para criar esta ideia de lar, usei uma estrutura tipo pórtico. E é precisamente aqui que reside o coração do projeto. As avós encontram-se à janela a receber os visitantes, pois também era à janela que a minha avó nos esperava e se despedia. Nesta parte, o foco é o retrato, a base do meu trabalho, pois é através das expressões das linhas do rosto que mais gosto de contar histórias. Já dentro desta casa-colo, se espreitarmos, a intimidade sente-se na presença de roupa interior que baloiça como se tivesse sido acabada de estender. Por sua vez, este pórtico assenta em duas ‘torres’ laterais, as quais funcionam como altares de memórias reais; sendo que é aqui se encontram as fotos a preto e branco que eu tirei às avós e que estiveram na base dos retratos de tecidos.

O que significam os dois altares?
O altar do lado esquerdo, em tons neutros, é um tributo à minha avó Maria José e, como tal, representa o conforto e o regresso às origens. Com as poucas peças que herdei dela, construí uma espécie de candeeiro de colchas brancas — o qual simboliza a luz que ela irradiava — e uma figura de rendas e de colares que sugere o eterno retorno: do ciclo do útero reprodutor até ao colo cuidador. No altar do lado direito vive-se o colorido da infância. Por um lado, através de uma espécie de tenda de circo, dentro da qual surgem umas galochas de quando uma das avós era pequenina. Já na parede, tecidos de mil tons expressam os vários quotidianos das avós, podendo o visitante dar corda a caixinhas de música e ler sugestivas mensagens bordadas, como estas: ‘quem casa quer casa’’, “sonhei contigo, amor” e ‘pela boca morre o peixe’.

Podemos olhar para esta instalação como um primeiro passo de algo muito maior? Se sim, o quê?
Sim, sem dúvida. Enquanto artista ativista social, o objetivo desta instalação também é criar um movimento — nacional e, quiçá, internacional — transformador. Gostava muito que as pessoas começassem a entrevistar os avós. Hoje em dia, por exemplo, com um simples telemóvel já gravámos uma conversa. Se depois quiserem, podem partilhar comigo as histórias e, eventualmente, elas podem ser integradas no meu próximo trabalho. Isto porque o projeto Vozes da Avó não se vai ficar por esta instalação. Pretendo pegar na ideia inicial e percorrer o país/países a ouvir histórias das matriarcas para depois as costurar. É o ‘colo como ativismo’ a sair à rua e a criar raízes. Quero continuar a criar retratos pintados com tecidos, agulhas e linhas… Aquilo que eu chamo de retratos contados, retratos falados. Melhor ainda: retratos com voz, cor e textura.

Além de ser artista social também se classifica como artista eco ativista. Em que consiste este conceito?
A arte pode cumprir mil e uma funções. No meu caso, sou uma artista engagé, militante, de intervenção, de causas, visto que todas as minhas obras têm sempre uma intenção: ‘provocar’ as pessoas, no sentido de as fazer pensar e de abrir uma conversa. O que estamos a fazer ao Planeta — que por acaso é a nossa casa — é um crime coletivo. Enquanto cidadã tenho obrigação de o denunciar, e enquanto artista que trabalha muito arte urbana e com dimensão tenho ‘palco’ à altura para expor esta denúncia. Como tal, claro que a ecologia está presente de forma transversal em todos os meus trabalhos, quer direta (como tema central) quer indiretamente (pelos materiais que (re)utilizo). Tudo porque acredito plenamente que a arte — precisamente por promover a reflexão — também tem o poder de modificar mentalidades e comportamentos. Gostava muito que, com estas mensagens de consciencialização, o público me reconhecesse como artista agitadora e ativadora de mudança.

De que forma entra o upcycling no eco ativismo?
O upcycling — reutilização criativa de peças — é uma das vertentes do meu eco ativismo. Quando compramos uma peça temos de ser responsáveis por ela e fazer com que sobreviva o máximo de tempo possível. Todas as minhas produções fomentam a economia circular, pois, com um pouco de imaginação, todos somos capazes de dar mil vidas aos materiais. Eles não têm de morrer com a função para a qual nasceram. Além de resgatar objetos pessoais, de familiares e de amigos, os meus ‘fornecedores oficiais’ são as sucatas e as feiras/lojas de artigos em segunda mão ou de velharias. [Risos.] Por exemplo, eu trabalho muito com restos de tecidos de fábricas. Para termos uma noção prática do que estamos a falar, a indústria têxtil é uma das mais poluentes à escala global. A cada segundo estima-se que são deitadas fora 2000 peças de roupa no mundo, e para se produzir uma t-shirt são usados cerca de 2,700 litros de água, o necessário para hidratar uma pessoa por 2,5 anos. Isto é um absurdo. Se prestarmos atenção, no lixo, nas arrecadações e nos sótãos encontramos muito material para obras artísticas. No fundo, o que faço é usar o desperdício como ‘arma’, criando aquilo que se pode apelidar de ‘green art’ ou ‘low-carbon art’.

O upcycling está presente nesta instalação? Se sim, de que forma?
Sim, está presente a 95% e de várias formas. Na instalação propriamente dita, o upcycling assenta sobretudo em doações, quer de objetos que representam recordações das avós quer de restos de tecidos de fábricas nacionais. Mas, também integra peças — tábuas, caixas, caixilhos de espelhos (…) — que comprei num ferro-velho para fazer as molduras das fotografias. Em conjunto, todo este desperdício perfaz os tais 95% da composição global. Todavia, o upcycling não se fica pelo antes e pelo durante. O pós-instalação também é uma etapa fundamental de upcycling. Por exemplo, com as sobras dos cortes de tecidos vou fazer enchimentos de almofadas e de bancos. Além disso, como o objetivo é expor individualmente os oito retratos em espaços culturais, o restante material será todo reaproveitado para outros trabalhos. Em suma: a minha arte é a oportunidade de ‘dar à luz’, de fazer (re)nascer aquilo que para a maioria já estava morto há muito.

Onde pode a instalação ser vista e até quando?
A instalação pode ser visitada até dia 31 de agosto no The Hood, o qual fica situado na praça central do Centro Comercial UBBO, na Amadora. De assinalar que, enquanto espaço cultural disruptivo e subversivo, o The Hood pretende humanizar o shopping — tradicionalmente associado só a negócio — e também democratizar a cultura, dado que as iniciativas são 100% gratuitas. Enquanto autora de vários trabalhos de street art, também valorizo muito estes espaços que retiram a arte do pedestal e a tornam acessível a todos. Como já referi, quando a arte é de todos, todos podem refletir e gerar mudança. Enquanto a arte pertencer a elites, infelizmente, a mudança pertence ao privilégio. E, para mim, de certa forma, isso é a antítese, e até a negação, da essência de um produto artístico.

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