“Um dos meus valores enquanto artista é autenticidade e o ser-se real”, The Tiny Musician

“Que Se Passa Em Ti” marca um momento particularmente íntimo e vulnerável no percurso artístico de The Tiny Musician, revelando uma faceta mais emocional e desprotegida da artista. Num contexto em que a sua identidade musical tem evoluído entre a luz e a sombra, este novo tema surge como um ponto de viragem na forma como comunica com o público. 
Escrita numa fase de profunda reflexão pessoal e profissional, a canção nasce de um processo de autoconhecimento e de questionamento sobre o papel da artista na sociedade contemporânea. A composição, criada de forma espontânea durante uma noite em Berlim, reflete também um período de transformação marcado por desafios, descobertas e crescimento artístico.

Por Sandra Pinto

Nesta entrevista, The Tiny Musician abre o processo criativo por detrás do tema, fala da experiência internacional que moldou a sua visão artística e explica como a vulnerabilidade se tornou uma ferramenta central na sua expressão musical.

“Que Se Passa Em Ti” revela um lado teu mais íntimo e vulnerável. O que te levou a partilhar agora esta faceta mais pessoal?
Nos últimos dois anos, tenho vindo a refletir bastante sobre a minha vida e carreira musical: qual é a minha “missão” enquanto artista e indivídua na sociedade atual? Uma das respostas é o facto de querer inspirar mais pessoas a seguirem os seus sonhos, mesmo que, para isso, tenham de enfrentar momentos menos fáceis durante o percurso. Ao partilhar esta faceta mais pessoal pretendo, não só demonstrar que estas fases mais “negras” existem, mas também que é possível sair da “escuridão” que poder fazer parte do caminho para podermos alcançar os nossos objetivos e ambições.

Sentiste algum receio em expor essa fragilidade ao público?
No início, um pouco… Mas tenho sentido que o feedback tem sido super positivo e algumas pessoas até já me confessaram que se identificam com a mensagem da minha música. Sentir este carinho todo, ajuda-me a não ter tanto receio de partilhar as minhas fragilidades pois, de certa forma, todos temos as nossas e não deveria existir “medo” ou vergonha quando as mostramos ao Mundo.

Como descreverias a mensagem central da canção?
Por vezes, podemos sentir-nos algo vazios por dentro, não perceber bem o que se passa em nós, no nosso interior. É fácil sentirmo-nos confusos numa sociedade em que, aparentemente, temos “tudo” à nossa volta (casa, comida, amigos, eventos, viagens, demasiados estímulos…). Porém, é nesses momentos em que mais crescemos e percebemos o quão fortes somos, é nesses momentos em que se criam
novos caminhos e a vida começa a ganhar outro brilho e magia!

Referes que a música foi composta numa única noite em Berlim. Como foi esse momento criativo?
Foi um momento sobretudo de necessidade de exprimir o que sentia. Quase como um ritual: acendi uma vela, deixando um ambiente misterioso e a meia-luz, começando a escrever num bocado de papel rasgado que encontrei em cima da mesa de jantar (provavelmente, um recibo de supermercado). Depois de algumas lágrimas derramadas no papel, senti vontade de ir buscar o violino à caixa para improvisar
umas notas. De repente, de uma forma natural, dei por mim a cantarolar melodias, usando as palavras que tinha acabado de “gatafunhar” no pedaço de papel. Nesse momento, senti que uma pequena luz se estava a acender, lá bem no fundo de mim… Nem consigo descrever bem a sensação que senti, mas que ilustra bem o papel terapêutico da música.

De que forma o contexto emocional que vivias influenciou a escrita da  letra?
“Pensamentos, ideias soltas, Palavras por dizer. Preocupações, medos por resolver.”
Penso que o refrão da música demonstra tudo o que estava a sentir naquela fase da minha vida.

Costumas compor de forma tão espontânea ou este foi um caso excecional?
Depende muito (e depende se tenho alguma deadline para cumprir). Por vezes, sinto esta vontade espontânea, quase urgente, de escrever e tocar, e sento-me a compor. Porém, outros temas surgem durante as “sessões de criação” (como eu lhes chamo na minha agenda) que marco no meu horário. É verdade que a inspiração pode aparecer “do nada”, mas na maioria dos casos é importante criar um tempo específico na nossa semana super ocupada e caótica para criar, em que nos permitimos pensar em como exprimir uma determinada ideia ou conceito que queremos incluir na nossa música. Nem sempre sai alguma “coisa de jeito”, mas o facto de termos uma rotina de criação, torna mais fácil e natural sentirmo-nos inspirados/as para compor.

Que impacto teve a tua estadia em Berlim no teu percurso artístico?
Foi uma cidade interessante para ver e ouvir diversos formatos de música e arte, que me permitiu tocar muito a minha música (tinha várias atuações semanalmente) e, consequentemente, ganhar muita experiência em estar em palco e em lidar com imprevistos, que sempre acontecem durante os concertos. Foi também uma cidade que me fez perceber que nem tudo o que parece é, onde senti que o meu lugar é, de facto, em Portugal – onde existe uma grande hospitalidade e cuidado em ajudar os outros -, onde percebi o que quero ou não fazer enquanto artista (e tocar todas as semanas, em sítios, por vezes, “da treta” não faz parte dos meus planos futuros): uma cidade onde me encontrei, após me sentir perdida. Foi também em Berlim, após um open mic “aleatório” em que toquei duas das minhas músicas, que conheci uma das pessoas que mais me ajudou e me ensinou durante o meu percurso de artista: o meu amigo e manager Angelo Romano. Ele foi a primeira pessoa que acreditou em mim (até mesmo quando deixei de acreditar em mim própria) e que, ainda hoje, me ajuda a perceber e a calibrar a direção da minha carreira.

Olhando para trás, sentes que esse período mais difícil foi importante para o teu crescimento?
Sem dúvida: acredito que é nos momentos mais difíceis das nossas vidas em que mais crescemos e nos conhecemos (ainda) melhor.

A adaptação à cidade e a barreira linguística influenciaram a tua relação com a música?
A adaptação à nova cidade e cultura e o facto de me sentir perdida e sozinha, por vezes, faziam com que não sentisse vontade de tocar e/ou criar música. A barreira linguista “prejudicou-me” mais no facto de não poder ser professora de música em escolas em que a linguagem principal fosse alemão (apesar de me dizerem que o meu currículo era bastante interessante). Acabei por lecionar apenas uma tarde por
semana, numa escola internacional – o que não era suficiente para pagar as contas e me “forçava”, de certa forma, a ter que procurar outras formas de rendimento (nem sempre na área da música).

O tema ficou guardado durante algum tempo. O que mudou em ti para sentires que era o momento certo para o recuperar?
Tal como referi numa das questões acima, durante os últimos dois anos tenho refletido muito e trabalhado bastante no meu crescimento pessoal. Senti que estava finalmente preparada para olhar novamente para este período do passado.

Como foi revisitar essa versão mais vulnerável de ti própria anos depois?
Foi interessante perceber o que cresci desde essa altura e o quão mais forte me tornei. Ainda há feridas por fechar, que sinto sempre que revisito essa versão passada, mas, ao mesmo tempo, existe finalmente um sentimento de paz interior e de perseverança, atualmente bem presentes em mim.

A canção ganhou um novo significado com o passar do tempo?
Talvez se possa afirmar que esta canção pode representar e confirmar a esperança que nunca deixei de sentir. Podemos também olhar para ela quase como uma brisa gélida mas agradável que nos relembra de nunca desistir do que realmente nos faz sentido e nos faz apaixonar pela vida.

Que papel teve a tua experiência na Berklee Valencia na decisão de gravar este tema?
Foi o facto de ter que gravar uma música para um dos “assignments” da Berklee Valencia que me fez pegar neste tema novamente, já com outra bagagem emocional, e finalmente gravá-lo. Foi quase como juntar o “útil ao agradável”, uma coincidência feliz. Talvez se não fosse este trabalho académico, não tivesse gravado esta canção tão cedo – mas ainda bem que aconteceu e que senti a “chamada” de escolher esta música, de entre todos os outros rascunhos e ideias que guardo no meu caderninho.

Como reagiram colegas internacionais que não falavam português?
Lembro-me do meu producer (originalmente da Argentina) me ter dito algo como “Não entendo o que cantas, mas consigo imaginar-me a viajar num autocarro, à noite, com os meu phones colocados, a ver a minha vida passar diante dos meus olhos acordados”. Para mim, foi muito interessante, porque esta imagem reflete a ideia central do tema: de reflecção pessoal e de introspeção, mas também de calma interior.
Os restantes membros também gostaram bastante e, a meu ver, interpretaram a obra correspondendo bastante bem ao seu conceito principal.
Depois de uma das sessões finais, fizemos algum conteúdo para as redes sociais e o baixista (originalmente da Moldávia) chegou a dizer-me que alguns dos seus seguidores lhe perguntaram de quem era a música que estava a tocar e quando seria lançada… Posto isto, penso que se pode afirmar que a música é, de facto, uma linguagem universal!

O que trouxeste dessa fase académica para este single? 
Maioritariamente, trouxe-me uma rede de networking de pessoas e músicos com quem adorei trabalhar e mais conhecimento relativamente a aspetos mais técnicos sobre produção e gravação em estúdio.

Foi a primeira vez que apresentaste uma composição tua em formato de banda. Como viveste essa experiência?
Parecia estar num dos meus sonhos: em que sou uma estrela como nos filmes e videoclips que via em criança, acompanhada por uma banda com músicos e pessoas incríveis. Fez-me perceber também que este é o formato que gostaria de começar a apresentar em concertos e a dar-me ainda mais força para continuar a trabalhar para este objetivo se realize.

Como surgiram as colaborações com músicos de diferentes nacionalidades?
Surgiu de uma forma muito natural, visto que éramos todos colegas de turma e esta ser muito internacional (Portugal, Moldávia, Holanda, China, Brasil, Singapura, América, Turquia, Colômbia…).

O que procuraste explorar musicalmente neste tema em termos de arranjos?
Em termos de arranjos e ambiente geral para este single foquei-me em criar uma boa coerência e equilíbrio entre os diversos timbres, deixando sempre “espaço” para incluir os pequenos apontamentos do violino e um solo de violoncelo. Adoro instrumentos de cordas e sinto que, muitas vezes, aparecem apenas a tocar notas longas nas músicas sem grande protagonismo, quase como se fossem apenas um
“tapete” para os restantes instrumentos (o que faz sentido para algumas situações; simplesmente, não era a “vibe” que queria para a minha música). Foquei-me também em criar texturas e efeitos com os instrumentos de cordas e a manter um som mais “clean” e real, que não fosse manipulado ou distorcido pelos softwares e tecnologias que temos disponíveis nos dias de hoje. Para mim, os instrumentos acústicos têm um
timbre tão agradável e expressivo que me torna difícil querer alterar os seus sons usando Plug-ins ou efeitos mais artificiais.
Um dos meus professores de produção da Berklee, quando ouviu a canção pela primeira vez, mencionou que esta tinha alguns elementos da estética nórdica. Não pensei nisso de todo durante o processo de criação dos arranjos, mas, de facto, tenho a concordar que este single tem algumas semelhanças…

Dizes que nem sempre és a “The Tiny Musician” sorridente que o público conhece. Sentias necessidade de mostrar esse outro lado?
De certa forma, sim. Aos pouquinhos, sinto que tenho vindo a criar a minha comunidade de fãs e unindo as pessoas que se identificam com a minha música e forma de viver. Sendo que um dos meus valores enquanto artista é autenticidade e o ser-se real, sem filtros e sem pretender ser o que não sou, estava na altura mostrar o outro meu lado que nem sempre é associado à minha personalidade extrovertida e positiva.

Como equilibras essa dualidade entre luz e sombra na tua identidade artística?
Costumo colocar mais ênfase na parte mais luminosa da minha identidade artística; contudo, sem omitir a sombria. Como já fui mencionando, ambas existem nas nossas vidas e devem ser apresentadas e/ou expressadas através da arte e da música. Acredito que o segredo para não gerar um carácter mais negativo do que inspirador nas minhas performances está na moderação, tentando até demonstrar que os nossos lados mais negros podem ser a motivação necessária para nos manter a lutar pelos nossos sonhos e luz nas nossas vidas.

Este single representa uma mudança no teu projeto ou uma evolução natural?
Considero que é uma evolução natural. O meu primeiro álbum “Indoor Thoughts“ é composto por maioritariamente música instrumental, por ter sido composto durante os meus estudos de música clássica na Escócia. Porém, o meu sonho enquanto música e artista é precisamente tocar com uma banda e cantar sobre mais sobre tópicos que me fazem sentido expressar ou sobre mensagens que quero passar aos meus fãs.

O lyric video foi gravado numa coffee shop no Porto. O que te atrai nesse tipo de espaços?
Como grande apreciadora de café de especialidade, adoro visitar cafés novos e provar os seus produtos. Uma das características destes espaços, a meu ver, é também o facto de poder fazer perguntas sobre o café que me servem (sou uma pessoa muito curiosa e gosto de saber mais sobre a história de um produto) e de sentir que pertenço, de certa forma, a uma comunidade. Os baristas nestes locais são, normalmente, bastante atenciosos e simpáticos e até sinto que respondem com gosto a todas as perguntas sobre a origem do café que me servem, ou à sua espécie ou até mesmo sobre a receita que me serviram.

De que forma o café de especialidade faz parte da tua rotina criativa?
Nada me traz mais alegria e satisfação quando inicio a minha rotina criativa com um V60, feito com café de qualidade, que é servido na minha chávena de cerâmica preferida (feita por mim). É um ritual matinal, funcionando como um sinal para o cérebro de que “está na hora de começar a criar” e deixar a criatividade fluir.

Tens um percurso internacional bastante diverso. Como é que essas experiências influenciam a tua música?
Já vivi muitos momentos bons, maus, já viajei muito e conheci muitas culturas e pessoas diferentes. Já me “meti em alhadas” como costumo dizer e já me “safei de muitas outras trapalhadas” também. Acredito que todas estas situações influenciaram a minha forma de escrever música e até me fizeram compor especificamente sobre as aprendizagens que tive. Tudo isto me faz tocar com mais emoção e alegria por, apesar da confusão que é viver neste mundo, tenho a sorte de ter tido sempre o violino e a música bem presente na minha vida e por estar sempre a sentir e viver, ao invés de apenas sobreviver e ter uma vida confortável e “normal”. A música e arte cria-se e intensifica-se com as experiências na vida, não com o isolamento social e/ou em passar os dias em casa com o telemóvel na mão. Temos de viver mais aventuras,
arriscar um pouco mais (sempre com precaução, claro), acreditar que ainda há gente boa no mundo e não ter medo de ir à descoberta, em conhecer novas realidades, sorrir a estranhos… Enfim, ir deixando o mundo um pouquinho melhor do que quando o encontrámos.

Há algum momento ou país que tenha sido especialmente marcante para ti enquanto artista?
Sim: São Francisco (na Califórnia, Estados Unidos). Essa cidade mudou a minha vida e, sempre que a visito, sinto-me uma estrela e que tudo é possível, tudo! Existe uma grande história por detrás desta cidade, que dá “pano para mangas” para uma outra entrevista completa… ahah…

Este single marca um novo capítulo. O que podemos esperar dos próximos lançamentos?
Mais músicas com letras cantadas e com a participação de outros músicos. Pretendo também abordar temáticas que me fazem sentido e que penso que são menos faladas, ou que tendemos a “esconder” ou omitir da sociedade. Ambiciono que a minha música se torne aquele abraço amigo, sem julgamentos, para quem a ouve, mas que ao mesmo tempo incentiva a trabalhar para se alcançar os nossos sonhos e
a viver realmente (em vez de apenas sobreviver).

Pretendes continuar a explorar este lado mais íntimo nas tuas futuras composições?
Sim! Ainda estou a refinar o conceito do meu próximo álbum que quero gravar para o ano, mas estou bastante inclinada para mostrar mais experiências dos meus últimos tempos e todo o crescimento pessoal (e musical?) que tem vindo a acontecer. Tenciono abordar também alguns temas e valores “dos tempos antigos” que se estão a perder (em teoria, faço parte da geração Z; porém, quem me conhece associa-me
mais à geração X – ainda envio cartas com selos feito de cera aos amigos, ando sempre com um agenda e papel atrás, em vez do calendário no telemóvel, e ainda pratico alguns valores “à antiga”).

Há alguma colaboração ou objetivo que gostasses ainda de concretizar?
Sim: o meu próximo grande objetivo é gravar um novo álbum com uma banda e fazer uma tour pela Europa, Estados Unidos e Reino Unido. Adorava também abrir o palco para um dos meus artistas preferidos, Andrew Bird, ou tocar um solo no meu violino com efeitos, estilo rockstar, com os Snarky Puppy, ou ainda colaborar com a Maro, visto que me identifico com a sua sonoridade musical e energia nos concertos.

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