Tormentor em Lisboa: uma viagem sem regresso ao coração do black metal

Há noites em que a música não se limita a fazer-se ouvir. Ela chega e ocupa o espaço, toma conta dos sentidos e deixa uma marca muito depois do último acorde desaparecer. O concerto dos Tormentor, na República da Música, em Lisboa, no dia 30 de agosto, foi claramente uma dessas noites.

Texto: Sandra Pinto
Fotos: Luís Pissarro

Desde cedo percebeu-se que aquela não seria uma noite de circunstância. Na sala estavam verdadeiros fãs de black metal, gente que conhecia a banda, os discos e as músicas. Não era um público que tivesse vindo simplesmente descobrir o que iria acontecer. Havia conhecimento, expectativa e uma ligação prévia àquilo que os Tormentor representam. E, quando os primeiros acordes de “Tormentor I” começaram, essa ligação tornou-se imediatamente evidente. Não houve uma entrada tímida, nem uma necessidade de conquistar terreno. Os Tormentor entraram diretamente no seu universo.
Para perceber o peso de uma noite como esta, é preciso recuar até 1985, em Budapeste. Os Tormentor nasceram num contexto muito diferente daquele que hoje associamos à Europa e à própria Hungria. A banda surgiu ainda durante o regime comunista, num país onde o acesso à música internacional era mais limitado e onde uma formação dedicada a sonoridades extremas estava longe de encontrar um caminho fácil. O grupo formou-se em torno de Attila Csihar e Attila Szigeti, tendo a formação clássica ficado associada também a György Farkas, no baixo, e Zsolt Machát, na bateria. Desde cedo, os Tormentor começaram a construir uma linguagem própria, cruzando a velocidade e agressividade do thrash e do speed metal com ambientes cada vez mais negros e uma estética que apontava para aquilo que viria a ser reconhecido como black metal. Em 1987, surgiu The 7th Day of Doom, a primeira demo. Um ano depois, a banda gravaria aquela que viria a ser a sua obra mais importante: Anno Domini. E é aqui que a história dos Tormentor ganha uma dimensão quase improvável.

O disco foi gravado em 1988, mas as dificuldades de edição e o contexto político da época impediram que tivesse imediatamente uma circulação normal como álbum. A música acabou por viajar através da comunidade de tape trading, passando de mão em mão e atravessando fronteiras até chegar à Escandinávia e, particularmente, à Noruega. Uma banda húngara, praticamente escondida atrás da Cortina de Ferro, começava assim a ser conhecida por uma geração de músicos que estava a ajudar a definir o black metal europeu. Entre aqueles que ouviram os Tormentor estava Euronymous, dos Mayhem. E o nome de Attila Csihar começaria também a ultrapassar as fronteiras da Hungria. Depois da morte de Per Yngve “Dead” Ohlin, vocalista dos Mayhem, Attila foi convidado para interpretar as vozes de De Mysteriis Dom Sathanas. O seu desempenho naquele álbum tornou-se uma das peças fundamentais da sua carreira e ajudou a transformar o nome Csihar numa referência incontornável do black metal. Mas a história não ficou por aí.

Os Tormentor separaram-se em 1991, depois de uma primeira fase relativamente curta, mas extraordinariamente influente. Regressaram entre 1999 e 2001 e lançaram Recipe Ferrum!, um trabalho mais experimental, onde a banda explorou novas atmosferas e linguagens. Depois voltaria o silêncio. Até 2017. Foi nesse ano que os Tormentor anunciaram o regresso, recuperando a ligação à formação clássica e voltando aos palcos. Desde então, a banda tem mantido uma atividade ao vivo que permite a novas gerações descobrir uma música criada originalmente num contexto completamente diferente. E é precisamente isso que torna tão interessante vê-los hoje. Porque os Tormentor não são apenas uma banda que sobreviveu. São uma banda que conseguiu atravessar décadas sem perder a capacidade de provocar desconforto.

Para a LOOK mag, esta noite teve ainda uma dimensão muito especial. Antes do concerto, tivemos novamente o privilégio de estar à conversa com Attila Csihar. Foi um reencontro que nos trouxe à memória as duas entrevistas que já realizámos com o vocalista. A primeira aconteceu no ano passado, a propósito dos Mayhem, banda da qual Attila é atualmente vocalista. A segunda aconteceu há cerca de um mês, desta vez dedicada aos Tormentor, às suas raízes, à formação da banda e ao percurso que levou aquele nome muito para além da cena underground húngara. Por isso, quando poucas horas depois o vimos subir ao palco, havia uma proximidade diferente. Agora estávamos ali para o ouvir. E a transformação é impressionante. Porque a pessoa com quem estivemos à conversa desaparece atrás de uma presença cénica absolutamente esmagadora. A voz de Attila surge com uma imponência e um poder que parecem derrubar tudo à sua passagem. Não é apenas agressividade. É presença. A voz ocupa a sala, atravessa a música e dá aos temas uma dimensão que dificilmente se consegue perceber da mesma forma numa gravação.
Mas Attila não constrói essa presença apenas através da voz. Há também uma forte componente teatral na sua prestação. Ao longo do concerto, os adereços utilizados pelo vocalista contribuíram de forma decisiva para essa atmosfera. O crânio, os ossos, a capa e a máscara de porco fazem parte de uma construção visual que transforma o palco num espaço quase ritualístico, grotesco e desconfortável. A capa altera a sua silhueta e acrescenta imponência à figura do vocalista. A caveira e os ossos reforçam o imaginário de morte e decadência. E a máscara de porco introduz uma dimensão particularmente perturbadora, quase surreal, que encaixa na perfeição na linguagem extrema dos Tormentor. Não são elementos colocados ali apenas para criar uma imagem mais forte. Funcionam em conjunto com a música. É a combinação entre som, voz, corpo e imagem que faz com que Attila pareça, por momentos, muito mais do que um vocalista diante de um microfone. Existe uma personagem. Existe teatro. Existe uma narrativa visual. E tudo isso ganha ainda mais força porque nunca deixa de estar ligado às músicas.

“Tormentor I” foi a porta de entrada para esta viagem. Um tema associado a Anno Domini, gravado originalmente em 1988, que mantém uma energia crua e agressiva. A guitarra assume desde cedo o protagonismo e a voz de Attila acrescenta aquela camada de violência vocal que se tornou uma das marcas da banda. É um início que não deixa grande margem para dúvidas. Os Tormentor não vieram a Lisboa para suavizar aquilo que os tornou importantes. Vieram tocar Tormentor. E isso percebe-se imediatamente. Seguiu-se “Transylvania”, outro dos temas mais reconhecíveis do repertório da banda e também presente em Anno Domini. A música mantém a velocidade e a tensão, mas existe nela uma atmosfera particularmente sombria. É um daqueles temas em que a identidade dos Tormentor se percebe não apenas na agressividade, mas na capacidade de criar uma sensação de inquietação através dos riffs. Ao vivo, essa característica ganha outra dimensão. A música deixa de ser uma gravação conhecida e passa a ocupar fisicamente a sala. Com “In Gate of Hell”, a intensidade mantém-se. O tema é um exemplo perfeito da combinação entre thrash, heavy metal e os primeiros contornos do black metal que ajudaram a definir a sonoridade dos Tormentor. Existe velocidade, mas também peso. E existe aquela sensação de perigo que atravessa grande parte do material da banda. A voz de Attila volta a assumir o papel de elemento central, enquanto guitarras e bateria criam uma base suficientemente agressiva para manter a sala permanentemente em tensão.
Depois da descarga inicial, “Beyond” trouxe uma mudança de ambiente. É um dos momentos em que os Tormentor mostram que a sua força não está apenas na velocidade. O tema desenvolve uma atmosfera mais lenta, pesada e quase épica, com uma componente melódica que contrasta com os momentos mais violentos do alinhamento. Ao vivo, essa mudança é particularmente importante. Porque permite respirar. Mas não permite descansar. A escuridão continua lá. Apenas muda de forma. “Damned Grave” trouxe novamente a velocidade e a agressividade. É um tema das primeiras gravações da banda, associado a The Seventh Day of Doom, e que evidencia uma faceta mais próxima do thrash e do speed metal. É também uma daquelas músicas em que o riff fica rapidamente na cabeça. E ouvir estes temas décadas depois de terem sido gravados ajuda a perceber uma coisa: a energia que está na sua base continua intacta. Depois de “Damned Grave”, a introdução abriu caminho para “Recipe Ferrum!”, mostrando outra faceta dos Tormentor. O alinhamento não ficou preso a Anno Domini ou às primeiras gravações. Pelo contrário, percorreu diferentes momentos da discografia e lembrou que a banda também explorou territórios mais experimentais. Recipe Ferrum! representa precisamente essa mudança. O álbum de 2000 afasta-se em alguns momentos da estrutura mais direta do material inicial, cruzando black metal com ambientes mais sombrios, elementos góticos, doom e passagens atmosféricas. A faixa-título traduz bem essa vontade de experimentar. E, ao vivo, funciona quase como uma mudança de cenário dentro do próprio concerto. A intensidade permanece, mas a linguagem altera-se.

A seguir veio “Tormentor II”. Se “Beyond” tinha permitido uma pausa relativa na velocidade, aqui os Tormentor voltaram a acelerar. O tema recupera aquela energia de thrash extremo que atravessa boa parte de Anno Domini, com riffs rápidos e uma bateria que empurra a música para a frente. É também uma demonstração da importância das guitarras na identidade da banda. Os Tormentor podem ser associados ao black metal, mas existe uma herança muito forte de heavy e thrash metal na sua música. E essa herança continua perfeitamente audível.
Depois chegou “Elisabeth Bathory”. E há músicas que simplesmente têm outro peso. Este é, provavelmente, um dos temas mais emblemáticos dos Tormentor e um dos momentos em que a ligação entre música, imaginário e teatralidade se torna mais evidente. A composição é mais lenta e marcada por uma atmosfera inquietante. As guitarras criam uma sensação quase hipnótica, enquanto a voz de Attila acrescenta uma dimensão mais sinistra. A figura histórica de Elisabeth Báthory acrescenta naturalmente uma camada macabra ao tema. E, perante o palco, com Attila vestido e caracterizado dentro daquele universo, a música parece ganhar uma dimensão quase cinematográfica.

A intensidade regressou com “Apocalypse”. Outro tema marcado pela velo cidade e pela agressividade, funcionando quase como uma nova descarga depois do ambiente criado por “Elisabeth Bathory”. É difícil não reparar na variedade do alinhamento. Há momentos rápidos. Há momentos lentos. Há atmosferas mais melódicas. Há violência pura. E existe sempre a voz de Attila como elemento de ligação.
Chegou então “Anno Domini”. E ouvir esta música em Lisboa, tantos anos depois de ter sido gravada, tem inevitavelmente um peso especial. Anno Domini foi gravado em 1988 e tornou-se uma das gravações fundamentais da história dos Tormentor. A sua circulação através da rede de troca de cassetes ajudou a fazer chegar a banda a ouvintes fora da Hungria, num período em que as condições políticas e culturais do país eram muito diferentes das atuais. Mas, naquele momento, pouco importava pensar em datas ou contexto. Era simplesmente Anno Domini a ser tocado diante de nós. E é essa uma das melhores coisas que um concerto pode fazer. Durante alguns minutos, deixamos de pensar na importância histórica de um disco. Estamos apenas a ouvi-lo.

Na recta final, “Mephisto” trouxe novamente a energia das primeiras gravações. O tema faz parte de The Seventh Day of Doom, a demo de 1987, e apresenta uma faceta particularmente próxima do speed e do thrash metal. É rápido, agressivo e direto. E, ao vivo, funciona como uma espécie de regresso à matéria-prima dos primeiros Tormentor.  Depois, “Live in Damnation” mudou novamente o ritmo. Também presente na primeira demo, é um tema mais lento e pesado, criando um ambiente muito mais arrastado e sufocante. É interessante que um concerto desta intensidade encontre espaço para momentos assim. Porque o peso nem sempre está na velocidade. Por vezes está precisamente na capacidade de tornar cada nota mais pesada.

Para fechar, “7th Day of Doom”. O título parece quase perfeito para concluir uma noite construída à volta das diferentes faces dos Tormentor. O tema pertence às primeiras gravações da banda e transporta consigo aquela energia crua que caracteriza a fase inicial do grupo. Depois de atravessar diferentes momentos da discografia, o alinhamento terminou próximo das origens. Não como uma simples viagem nostálgica, mas como uma demonstração de continuidade. As músicas continuam vivas. E, sobretudo, continuam a funcionar em palco.

O público da República da Música também merece destaque. Estavam ali verdadeiros fãs de black metal. E isso nota-se. Há uma diferença entre uma sala cheia e uma sala onde as pessoas sabem exatamente o que estão a ouvir. Os Tormentor tiveram diante de si um público familiarizado com a sua música, capaz de reconhecer os temas e consciente da importância da banda. Essa relação sente-se. Não é necessário começar do zero. Existe já uma ligação entre palco e plateia antes da primeira nota. Por isso, quando saímos da República da Música, ficou sobretudo a sensação de termos assistido a um concerto profundamente fiel à identidade dos Tormentor.

Para os Filii Nigrantium Infernalium o palco parece ser uma extensão natural de tudo aquilo que construíram ao longo dos anos. No concerto que proporcionaram antes dos Tormentor, não faltaram riffs agressivos, velocidade, sarcasmo e aquela dose de teatralidade que faz com que um concerto dos Filii seja muito mais do que uma sucessão de músicas.

A história da banda começou no final dos anos 1980, ainda sob o nome Bactherion, antes de adotar a designação Filii Nigrantium Infernalium e de se tornar uma das referências mais singulares do metal extremo português. Pelo caminho vieram A Era do Abutre, Fellatrix Discordia Pantokrator, Pornokrates: Deo Gratias, Hóstia e, já em 2024, Pérfida Contracção do Aço. Discos diferentes entre si, mas unidos por uma mesma vontade de provocar e de nunca facilitar a vida a quem está do outro lado. “Matéria Negra” foi uma das primeiras pancadas da noite. Vinda de Pornokrates: Deo Gratias, a música trouxe consigo aquele cruzamento de black, thrash e heavy metal que os Filii dominam tão bem. Os riffs chegam com força, mas há também espaço para aquela estranheza que torna a música da banda imediatamente reconhecível. “Não Há Futuro” levou o concerto para Fellatrix. O título, por si só, já diz muito, mas é sobretudo a forma como a música avança que prende a atenção. Há urgência, peso e uma ferocidade que parece não ter envelhecido um único dia. Depois chegou “Pérfida Contracção do Aço”, uma das peças mais recentes do alinhamento e também uma das mais interessantes para perceber onde a banda se encontra hoje. A faixa não fica presa a uma única fórmula: muda de andamento, passa pelo thrash, pelo black e pelo heavy e deixa espaço para momentos mais pesados. “Negros Hábitos”, do mesmo álbum, voltou a carregar no acelerador, com riffs rápidos e uma energia particularmente contagiante ao vivo.

“Pó”, de Hóstia, trouxe outra temperatura. É uma música que parece pedir mais atenção ao ambiente do que à velocidade. O título é simples, mas suficientemente forte para evocar tudo aquilo que desaparece, que se desfaz e que acaba por regressar à matéria. É também aí que o lado mais sombrio dos Filii ganha outra dimensão. Quando surgiu “A Forca”, a componente teatral tornou-se ainda mais evidente. A música, recuperada em Fellatrix, alterna entre passagens rápidas e momentos mais pesados, criando uma tensão que combina perfeitamente com o imaginário da banda. Não é difícil perceber porque é que este tipo de tema resulta tão bem em palco: há qualquer coisa de visual na própria música. “Cadafalso”, também de Pornokrates: Deo Gratias, veio logo depois e pareceu completar esse quadro. Forca e cadafalso pertencem ao mesmo imaginário, mas aqui funcionaram também como dois momentos diferentes do concerto, mantendo a tensão até ao fim. E é impossível ignorar aquilo que acontece entre as músicas. Nos Filii, a imagem nunca está simplesmente a acompanhar o som. A atitude, a estética, os títulos e a forma como a banda ocupa o palco fazem parte do espetáculo. Há um lado grotesco e provocador, por vezes quase absurdo, que não procura ser discreto e ainda bem. Os Filii Nigrantium Infernalium: não precisam de explicar quem são quando podem simplesmente subir ao palco e deixar que a música fale alto, rápido e sem pedir licença.

Tormentor

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Filii Nigrantium Infernalium

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