TOP Ten de João Mestre

Cruzámo-nos com o jornalista João Mestre há uns anos, no âmbito de uma viagem de trabalho. Nessa altura percebemos que tem, pelo menos, três grandes paixões: as viagens, a família e a música. Foi precisamente sobre esta última que trocámos mais, muito mais do que dois dedos de conversa. Descobrimos bandas e gostos comuns, mas descobrimos também como a música completa de uma forma muito marcante a vida e João.

Impulsionador de dois projectos online, o Grémio Geográphico, onde nos leva em viagens (reais e imaginadas) trilhando sempre caminhos insólitos, e o Grémio Phonográphico, devotado à arqueologia musical, «sem vestígios de saudosismo ou naftalina», mas que é também a base de ocasional «festarola com discos a girar, onde tudo é bom de dançar, conviver, festejar», é este o seu TOP Ten.

ABBEY ROAD, The Beatles
Ao fim de cinquenta anos, ‘Abbey Road’ continua a ser novidade. Por ser um álbum que teima em não envelhecer, mas também porque este ano ganhou uma edição comemorativa, cheia de outtakes, esboços e versões alternativas dos temas. Tal como ver imagens do processo de construção de um qualquer prodígio arquitectónico, só ajuda a aumentar a noção da sua verdadeira imponência.

HELP US STRANGER, The Raconteurs
Jack White já não precisa de reinventar a roda a cada disco que grava. Basta-lhe escolher um dos seus vários perfis musicais e pô-lo a funcionar em piloto automático. O resultado raramente desilude. Nos Raconteurs tem a vantagem de estar em boa companhia; não só encaixa num quarteto de executantes que sabem do ofício, como tem em Brendan Benson um sócio criativo de peso. É refrescante ainda encontrar discos de rock como este: honestos e fieis às raízes, porém isentos de naftalina ou tiques de modernidade forçada.

3:47 E.S.T., Klaatu
Já leva quatro décadas em cima, mas para muita gente continuará a ser uma novidade. A mim, caiu-me no colo já na recta final do ano, e acabou por ser um dos álbuns mais escutados de 2019. Tudo por causa de uma boa história: em 1976, quando ‘3:47 E.S.T.’ saiu, espalhou-se o boato de que eram os extintos Beatles a operar sob um nome secreto, e não faltaram as “evidências” escondidas nas letras, nos títulos, no artwork do disco. A ser verdade, não seria um mau sucessor para ‘Abbey Road’. Mas vale por si só – os Klaatu são, afinal, muito mais do que apenas a-banda-que-não-era-os-Beatles.

LET’S ROCK, The Black Keys
Por vezes, faz bem dar um tempo. Os Black Keys andavam sumidos havia cinco anos, desde a conclusão da digressão de ‘Turn blue’. Para nosso bem, deixaram para trás a fórmula de canções de lamento e retomaram a receita original: rock sempre a direito, a talhe de foice, com andamentos para nos fazer mexer e uma sequência extremamente apta a rolar no rádio do carro, com estrada aberta pela frente. O título não é mero slogan de pacotilha: este é um disco para rockar.

LUX PRIMA, Karen O & Danger Mouse
Mais um para a pilha de colaborações de luxo de Danger Mouse. À semelhança do anterior ‘Rome’ (na companhia de Jack White e Norah Jones, em 2011), ‘Lux prima’ desenrola-se como a banda sonora para um filme imaginário, este algures dentro da dinâmica de um ‘Mulholland Drive’ mas sem as partes destrambelhadas. O website Pitchfork localiza-o com precisão, algures entre a névoa do trip-hop de Bristol, o nervo do som Motown de Detroit e a doçura dramática de Serge Gainsbourg na Paris de 1969. Soa a mistela, mas não é: desliza como um bom cocktail.

ANTHEM OF THE PEACEFUL ARMY, Great Van Fleet
Ainda saiu em 2018, é certo, mas foi já no final do ano e demorou um pouco a entrar na rotação. Talvez por, à primeira escutadela, soar a cópia chapada de Led Zeppelin. A verdade é que esse sabor não chega a desaparecer por completo, mesmo após repetidas audições – ainda assim, o primeiro longa-duração da banda do Michigan é um prazer de escutar de ponta a ponta. E deixa, afinal, a ideia de que, mais do que mera cópia, é antes um disco de “ses”: se os Led Zeppelin ainda existissem e se estivessem agora na casa dos vintes, seria talvez isto que eles andariam a fazer.

KIWANUKA, Michael Kiwanuka
Há que assumir a ignorância: desconhecia Michael Kiwanuka até aqui. (E como é bom descobrir um artista com um catálogo, mesmo que curto, de discos para esgravatar.) ‘Kiwanuka’ acabou de sair e logo caiu no goto. Talvez porque a maneira como Michael faz as suas músicas soe a coisa “à antiga”, ao estilo dos artífices clássicos da composição de canções. Saltam à vista referências em todas as direcções (que importam). Soul com alma à Stevie Wonder, harmonizações de voz a lembrar Marvin Gaye, explorações ao jeito de Jimi Hendrix, troços atmosféricos que não ficariam mal num disco de Pink Floyd. Um candidato a entrar também no top de 2020.

EAT THE ELEPHANT, A Perfect Circle
Por falar em repetentes: o grande disco de 2018 continuou enorme em 2019. Portanto, merece repescagem: ‘Eat the elephant’ é um álbum que tende a crescer com o tempo. Tal como o «elefante» que o título refere (que é como quem diz, o Partido Republicano de Donald Trump), o próprio disco é uma empreitada de mastigação demorada, de tão frágil e desconexo que soa nas primeiras passagens. Cada escutadela acrescenta-lhe uma camada de verniz e de complexidade. Não está ainda ao nível dos primeiros dois álbuns de A Perfect Circle, mas para lá caminha.

MOGADISCO – DANCING MOGADISHU (SOMALIA, 1972-1991), Vários artistas
Quem gosta de música pela música e pelo gosto de ser surpreendido deve juntar este nome à sua lista de obsessões: Analog Africa. Não se trata de um artista, antes de uma editora, especializada em “arqueologia musical” da segunda metade do século XX, sobretudo anos 1960/70. Escavando nos caixotes de editoras desaparecidas e rádios locais de países onde ninguém se lembraria de ir procurar música, o seu fundador Samy Ben Redjeb desencanta pérolas e histórias que o mundo não chegou a descobrir. E publica-as em compilações de apurado critério estético e editorial que são, elas próprias, verdadeiros guias musicais de época. Esta, acabada de sair, mostra o groove da capital somali nos anos 1970 e 1980, ao som de funk, reggae, surf rock e soul, com o colorido extra das letras em somali.

FEAR INOCULUM, Tool
De novo, um disco com a voz de Maynard James Keenan. Se os A Perfect Circle se aperfeiçoaram no tempo como escritores de canções, os Tool caminham na direcção oposta. De álbum para álbum, os temas tornam-se cada vez mais exercícios abstractos de músculo criativo e de sobreposição de camadas geométricas. ‘Fear inoculum’ quebrou 13 anos de silêncio, não com um alinhamento de ganchos de fácil memorização, antes com um desfile de trabalhos demorados, arrastados, para ouvir em sequência.
Uma viagem de hora e meia que, como um vórtice, nos puxa para o seu interior e só nos liberta quando chega ao destino.

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