“Temos um som tradicional adaptado a uma estética moderna; imaginem o Vitorino a tocar no Lux”, Baby Suicida
Os Baby Suicida, projeto lisboeta que desde 2025 tem vindo a explorar uma fusão entre música tradicional portuguesa e sonoridades indie contemporâneas, acabam de lançar o seu mais recente single, “Fiat 500”. Com uma abordagem intimista e experimental, a banda mistura adufes, cavaquinhos e acordeões com guitarras elétricas e elementos eletrónicos, criando um universo sonoro que une memória, cidade e tradição.
Por Sandra Pinto
Nesta entrevista, a banda fala sobre a criação de “Fiat 500”, a relação com o folclore português, as influências que moldam o seu som e os planos futuros para o projeto, revelando como Lisboa, a vida citadina e pequenas histórias pessoais se transformam em canções que cruzam passado, presente e futuro.
Acabaram de lançar o vosso novo single “Fiat 500”. Como nasceu esta música e o que é que ela representa dentro do universo dos Baby Suicida?
Esta música nasceu de tardes de verão melancólicas, em que o calor era insuportável e é mais uma música num registo introspetivo. Fica algures entre a Café com Cheirinho e o Jamie XX.
O título “Fiat 500” sugere logo uma certa imagem e atmosfera. Qual é a história ou o imaginário por trás da canção?
Procurámos encontrar um título que sintetizasse o imaginário em torno da música. O Fiat 500 acaba por ser um desses objetos que nos marcam e criam raízes na nossa memória. Pequenas coisas que, por si só, nos fazem lembrar alguém. Como um cheiro específico que nos recorda uma paixão antiga.
Sentem que este single marca uma evolução no vosso som ou continua a linha que definiram desde o início do projeto?
Tentamos que todas as nossas músicas tenham algo a ver umas com as outras, mais em termos de vibes do que temas. Nesta, acrescentamos uns sons mais dançáveis à nossa palete, e gostaríamos de fazer mais coisas nessa onda.
Há algum episódio real ou memória específica que tenha inspirado esta música?
A história é real, embora certos aspetos sejam imaginados. No fundo, a música nasce de uma paixoneta que o FF teve por uma vizinha sua quando era miúdo. A impossibilidade deste amor platónico (desde já, porque miúdos de 11 anos não namoram senhoras de 38) criou ansiedades, dúvidas e receios que acabam por estar espelhados na música.
Os Baby Suicida nasceram em Lisboa em 2025. Como é que os três se encontraram e perceberam que queriam criar este projeto juntos?
Eu (João) e o Francisco (Castro) já nos conhecíamos de uma banda anterior, Neon Sun, que terminou em 2023. Em 2024 decidimos reencontrar-nos e começar outro projeto, desta vez em português. O FF já era nosso amigo e decidimos convidá-lo para tocar solos de guitarra elétrica, antes de descobrir que não haveria espaço para muitos… Ainda com dificuldade em definir o projeto conceptualmente, acabámos por assistir ao Éme e à Moxila num dos últimos concertos do extinto Lounge e fez-se luz.
Desde o início tiveram a ideia de revisitar a música tradicional e o folclore. De onde vem essa vontade de olhar para a tradição de forma contemporânea?
Durante meses, andámos a experimentar com sons de indie rock mais anglo-saxónicos em português, mas não conseguíamos que soasse autêntico o suficiente. Soava tudo a uma cópia falsa de música estrangeira. Encontrámos o nosso som numa ida à Aldeia de Santa Margarida, onde o João tem família e um adufe. Foi o suficiente.
Como descrevem o vosso som “indie-tradicional” a alguém que ainda nunca vos ouviu?
É um som tradicional, com recurso a instrumentos tradicionais (cavaquinhos, gaitas de fole, adufe) adaptada a uma estética moderna. Como se o Vitorino fosse tocar ao Lux.
Referem influências como Vitorino, Isabel Silvestre, Sétima Legião e Rio Grande. De que forma esses artistas moldaram a vossa forma de compor e arranjar música?
O Vitorino (e o Fausto), mais que os outros, provavelmente são o melhor análogo para o que nós tentamos fazer. As suas discografias estão cheias de música popular portuguesa, mas sem fechar os olhos ao que se faz lá fora, desde ritmos africanos a álbuns de música cubana em espanhol. É uma linha de composição que se perdeu um pouco nos cantautores portugueses, mas que mostra que ir buscar estas sonoridades não implica nem uma fetichização das mesmas (irónica ou genuína), nem uma regressão ao passado, nem apenas o uso de uma fachada tradicional em músicas mais convencionais.
Também mencionam artistas contemporâneas como Maria Reis ou as espanholas Hinds. O que é que vos inspira na nova geração de músicos?
A linha comum que une esta malta (que nós mesmo assim já crescemos a ouvir) é tanto uma ética DIY como uma ligação forte ao sítio de onde são. As Hinds não soam a uma banda de garagem americana, porque mesmo cantando em inglês, o imaginário delas é madrilenho. O modo como, através de música super independente e da internet, dá para explorar essas contradições atrai-nos muito.
Sentem que existe hoje um novo interesse em misturar tradição com indie e música alternativa?
Sentimos que no mundo da música portuguesa, esse interesse vem mais de uma vontade de afastamento de uma cultura completamente anglo-saxónica do que necessariamente um amor pela tradição. Parece que às vezes isso vem de um lado mais político (quer à esquerda quer à direita, com resultados e implicações muito diferentes), mas também vem de uma exaustão genuína de anos em que tudo o que passava na rádio podia ter sido feito fora, mesmo que fosse português. A falta de uma identidade musical nacional a que nos possamos agarrar com facilidade empurra muita gente para o tradicional. No entanto, há muito que se pode fazer com isso, especialmente em ter uma abordagem não fundamentalista a esta estética.
O vosso som é dominado por adufes, cavaquinhos e acordeões. Como é que decidiram que estes instrumentos seriam centrais na identidade da banda?
Não foi uma decisão consciente. Estávamos descontentes com o som de rock convencional e decidimos experimentar com o que tínhamos à disposição (tínhamos um adufe e cavaquinho e acesso a um acordeão). A partir daí fomos expandindo.
Que desafios ou surpresas encontram ao trazer instrumentos tão associados ao folclore para um contexto indie?
A maior surpresa é que essa mistura pode ser completamente natural, desde que as canções sejam pensadas assim desde o início. Não temos muito interesse em trocar uma bateria por um adufe e achar que isso muda o género da canção. Outra surpresa é que o processo de gravação e manipulação digital em estúdio funciona muito bem com este tipo de instrumentos. Não sentimos de todo uma necessidade de “pureza” em como os usamos e acabamos por os usar quase como samples, a cortar e colar partes como se de música mais eletrónica se tratasse. É libertador darmo-nos permissão para os tratar assim. Os nossos cavaquinhos estão todos lixados, transpostos, e cheios de reverb, tal como as nossas guitarras elétricas.
Quando compõem, a música nasce primeiro na letra, na melodia ou na experimentação com os instrumentos?
Normalmente as músicas nascem de conversas que temos uns com os outros, sobre histórias que alguém tenha vivido ou imaginado. Quando chega a hora de musicar, normalmente a letra e a melodia começam a aparecer ao mesmo tempo. A partir daí, fazemos as experiências com os instrumentos, e vamos terminando a composição e letra, às vezes ao mesmo tempo que gravamos.
Dizem que querem ligar o folclore ao quotidiano que conhecem. Que elementos da vida em Lisboa acabam por entrar nas vossas canções?
O mais claro são as referências locais, as cervetecas, as Graças, os Olivais, os Bairros Altos. Até quando as histórias se passam longe da cidade, ela infiltra-se nas músicas, nem que seja por ausência ou contraste. Mas é possível que estas referências pintem mais uma imagem na nossa cabeça do que na de quem nos ouvir. A mistura de influências portuguesas, estrangeiras, urbanas e tradicionais é provavelmente o que mais vem de uma vida citadina.
A cidade influencia a vossa estética e as histórias que contam?
Os Franciscos são ratos da cidade, o João já fez de Lisboa casa há mais de dez anos. A cidade está à nossa volta e isso mostra-se na música e no modo como gravamos, em quartos, num portátil, numa placa de som de quarenta euros, e isso passa na música. Para além disso, tentamos manter um registo coloquial nas nossas letras e nas palavras que escolhemos usar, e esse discurso corrente parece inseparável do nosso dia-a-dia.
Depois de “Fiat 500”, o que podemos esperar dos Baby Suicida nos próximos tempos?
Depois de “Fiat 500”, queremos continuar com o nosso plano de lançar uma canção todos os meses. Há umas teorias da conspiração que dizem que iremos lançar um EP de pimba a tempo dos Santos Populares.
Este single faz parte de um projeto maior — um EP ou álbum?
Não temos tempo nem dinheiro, tendo todos trabalho a tempo inteiro, para poder conceber, gravar e editar um álbum, respeitando o conceito de um longa duração. Mas gostaríamos de compilar os singles em algum formato físico e começar a editar EP temáticos ou mini-LPs.
Como imaginam a evolução da banda nos próximos anos?
Gostávamos de começar a integrar mais vozes femininas, e a colaborar com músicos que admiramos (shoutout Tomás Varela). É provável que acabemos por ter uns micro-géneros dentro dos nossos sons e que os revisitemos regularmente, em vez de termos uma evolução mais linear. Gostávamos muito, também, de fazer bandas sonoras.
Bandcamp: https://babysuicida.
Instagram: @eldirtysanchez_lxix e @fnp_castro