Tarkkes: “A “Viagem Lunar” é a transposição mais verdadeira do meu Eu”
Com o lançamento do seu mais recente single, “Viagem Lunar”, Tarkkes transporta-nos para um universo introspetivo e etéreo, onde a solidão e a paixão se entrelaçam em camadas de vozes hipnotizantes e paisagens sonoras “siderais”.
Ppr Sandra Pinto
Nesta entrevista, o artista fala sobre o processo criativo que deu origem à canção, a escolha de regressar à língua materna e como esta obra marca uma nova fase na sua evolução musical. Entre melancolia e sonho, Tarkkes revela a inspiração por trás de cada acorde e verso, convidando-nos a embarcar numa viagem única, tanto musical quanto emocional.
O que te inspirou a criar “Viagem Lunar” e qual é a mensagem que queres transmitir com esta canção?
A “Viagem Lunar” surgiu de uma solidão que, muitas vezes, acompanha o processo de exploração e descoberta, tanto de mim próprio, como de ambientes sociais diferentes dos que me enquadro, tendo por base um único porto seguro: a paixão. A idealização de uma viagem espacial reflete a infinidade de possibilidades que a vida nos pode proporcionar, mesmo que seja um processo só e esgotante. Se este caminho não resultou, não significa que não haja outros que podem ser melhores para cada um de nós.
Como surgiu a ideia de combinar camadas de vozes hipnotizantes com uma paisagem sonora “sideral”?
Quando compus a melodia, ouvi-a e percebi logo que queria que soasse algo etéreo. Então, como sempre gostei muito de harmonizar e me sinto muito inspirado pela forma como o Jacob Collier mistura as vozes nas suas músicas, decidi experimentar fazer várias camadas de frases melancólicas que acabaram por fazer nascer a “Viagem Lunar”.
Nos teus próprios termos, descreveste a música como um lamento entre sonho e esquecimento. Como conseguiste traduzir essas emoções em palavras e melodia?
A melodia e as vozes foram pensadas com um sentimento de arrependimento e tristeza sempre presentes, um lamento suspenso no vazio que existe do espaço, que não tem utilidade nem resposta. Foi tudo uma tentativa de transmitir a melancolia que sinto quando sonho sobre um possível futuro que está tão distante e que acaba por cair no esquecimento por ser um sonho irreal. Por ser tão improvável, acaba por cair em esquecimento. É uma luta entre acreditar no que é o meu potencial como artista e gerir expectativas que não vou ser concretizadas a curto prazo.
Após “Infinite Dance” e “No Time”, o que torna “Viagem Lunar” especial ou diferente na tua evolução artística?
A “Viagem Lunar” é a transposição mais verdadeira do meu Eu. Ao contrário dos meus outros singles, ainda muito experimentais, este é o que me deixa mais vulnerável e o que eu acredito ser a primeira manifestação da minha verdadeira identidade musical. A “Viagem Lunar” é como uma reflexão do Tarkkes.
O teu som mistura R&B, pop, soul, jazz, EDM e trap. Como estas influências se manifestam especificamente em “Viagem Lunar”?
Estes géneros musicais diversificados têm especial influência na forma como eu produzo as minhas canções. Tendo a minha cultura musical amadurecido de uma forma autónoma e autodidata, acabei por absorver pequenos detalhes acerca da forma como processo os diferentes elementos da música. No caso da “Viagem Lunar”, existe um contrabaixo que foi processado de forma semelhante ao que acontece nos graves presentes no EDM e no trap. Isto permitiu-me criar uma sensação de imersão e calor que não seria possível se não existisse tanto espaço dedicado a este único instrumento.
Por que decidiste regressar à tua língua materna para este single e de que forma isso mudou a forma como escreves e interpretas?
Para mim o inglês é mais fácil, permite-me dizer mais, de uma forma mais simples. Mas, pelo meio, perde-se a essência e a ligação que eu tenho com a minha língua materna. Vejo o inglês como um meio para atingir a maturidade emocional que me permite expressar naquela que é a língua mais presente e próxima de mim, o português. Por ser a minha língua materna exige que eu seja mais vulnerável e que entre mais em contacto com o que sinto, o que, por vezes, não se é fácil.
Que sentimentos esperas que o público viva ao ouvir “Viagem Lunar”?
Há claramente uma melancolia inescapável, contudo não tenho expectativas. Eu posso falar dos sentimentos que associo e que me levaram a compor esta canção, mas o bonito na música é a perceção individual ser formatada às vivências e ao sentimento presente no momento.
Depois deste single, que caminhos musicais ou experimentações planeias explorar nos próximos meses ou num próximo álbum?
Quero muito continuar a explorar esta nova identidade vocal e, se surgirem oportunidades, gostava de fazer colaborações. Gosto de pensar no que poderiam ser várias vozes diferentes entrelaçadas numa canção, em harmonias com diferentes timbres. É algo que quero muito explorar.
Fotoⓒ Cassie McCoy
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