Surma + Dora Morelenbaum + Sofia Leão na Casa Capitão. Uma noite de grandes mulheres ao piano

Realizou-se na Casa Capitão o Piano Day um dia de homenagem ao piano que foi, simultaneamente, uma homenagem às mulheres ao piano. Estiveram presentes Sofia Leão, Dora Morelenbaum e Surma para um concerto intimista no Sótão da Casa Capitão, onde cada uma das compositoras apresentou a sua obra num formato mais reduzido. Uma interpretação muito diversa de vários universos ao piano, desde a simplicidade de Sofia Leão, os arranjos jazzísticos de Dora Morelenbaum e a qualidade onírica de Surma: as três mostraram um piano moderno, versátil e relevante.

Texto: David Pissarro
Fotos: Pedro Sebastião

O Piano Day é uma criação moderna idealizada pelo pianista e compositor alemão Nils Frahm numa homenagem ao seu instrumento de eleição, o piano, e que acontece no 88º dia do ano, numa referência às 88 teclas do instrumento. O evento tem lugar um pouco por todo o mundo desde 2015 e celebra não só o instrumento e os instrumentistas, mas também os compositores, os construtores, os afinadores e, claro, o ouvinte.

No Sótão da Casa Capitão, a primeira apresentação da noite ficou a cargo de Sofia Leão que iniciou a celebração do piano com a apresentação de “Mar”. Sofia Leão, compositora emergente de Lisboa, veio apresentar o seu álbum de estreia lançado em maio de 2025, pela UGURU. Este registo é um trabalho profundamente intimista e contemplativo, que nasceu de um processo criativo muito orgânico – começou a ser criado no quarto da própria, onde experimentava sons e gravava ideias, ganhando uma maior forma e desenvolvimento em estúdio com o produtor João Eleutério. Além de Eleutério, que produziu e gravou o baixo para os temas “Não Seria Tão Triste” e “Umineu”, participaram no disco também Bruno Silva (viola de arco em “Não me conheço”) e Gabriel Gomes (acordeão em “Mar”).

A sua apresentação revelou-se uma experiência profundamente intimista, construída apenas com piano e voz, mas carregada de uma densidade emocional e riqueza textural. “Mar” constrói um universo muito delicado e imersivo, caracterizado pela figura central do piano, instrumento de preferência de Sofia, harmonias e camadas de vozes muito ricas, texturas ambient e outros instrumentos como cordas e acordeão, tornando-se evidente a sua assinatura sonora. A própria artista descreve o álbum como um “fazer-se ao mar”, uma exploração da sua própria identidade, das emoções e das questões existenciais, fazendo da autodescoberta tema central deste registo.

O público, sentado no chão em redor do piano colocado no centro da sala, era convidado a entrar nesse universo. A abertura fez-se com “Mar”, num ambiente suspenso, como se todos flutuassem. A presença do acordeão de Gabriel Gomes acrescentou uma dimensão orgânica e ondulante ao tema, fundindo-se com as múltiplas vozes — “as outras Sofias” dentro de si, que se entrelaçam, criando um coro interior delicado. Seguiu-se “Não Seria Tão Triste”, uma canção de amor que reflete sobre aquilo que a vida traz e a incerteza, mais ritmada, mas ainda envolta na melancolia que atravessa todo o seu trabalho, mantendo o acordeão como elemento de grande destaque a par da voz. Antes de avançar, Sofia agradeceu ao público e às suas “colegas muito grandes” Dora e Surma, num gesto simples que reforçou a proximidade entre as artistas. A seguir, em “Não Me Conheço”, a simplicidade ganhou destaque. Com cordas no plano de fundo, a música foi acompanhada por uma projeção do vídeo do single onde sombras de mãos e braços, errantes, aparecem como extensões visuais da inquietação interior da canção.

“Vino Dragostea” («Venha o amor», em português) introduziu uma nova cor ao concerto, com uma história pessoal cruzada com referências à música romena dos anos 20, trouxe um andamento mais leve, quase caminhante, onde o amor surgia em simultâneo, como memória e como fantasia. Com “Valsa”, regressou-se à balada e ao foco na narrativa, acompanhada por outra projeção, enquanto a voz de Sofia, doce e etérea, parecia suspender o tempo. Criava-se um pequeno mundo de fantasia, onde o público permanecia em silêncio atento, visivelmente tocado. Seguiu-se “Sombra da Raiz”, ainda em construção, revelando uma nova sonoridade no mundo de Sofia, com um arranjo de baixo mais desenvolvido e dinâmico, aproximando-se de uma estética de trovador contemporâneo, onde tradição e modernidade coexistem. Num momento inesperado, surgiu uma canção associada ao Quarteto em Cy, Vinicius de Moraes e Toquinho, trazendo ecos da música brasileira. “Fogo sobre Terra” evocava imagens de vendaval e perda, num arranjo onde o baixo e as vozes voltaram a assumir protagonismo. Por último, ficou “Cão”, uma canção escrita quando Sofia tinha apenas 11 anos. O momento foi marcado por uma interação com o público, entre latidos e uivos, reforçando a ligação com o público, fechando o espetáculo com uma nota de ternura e autenticidade. Ao longo de todo o concerto, Sofia Leão construiu um espaço onde a voz e o piano se expandem, num mundo muito singular, muito para lá da sua aparente simplicidade. Entre texturas densas, narrativas íntimas e uma presença muito genuína, resultando num “mergulho” delicado no seu universo. Não há dúvidas: Sofia Leão é num das mais recentes boas novidades a surgir no panorama musical nacional.

Após a apresentação de “Mar”, um pequeno intervalo para depois se retornar ao piano, desta vez pelas mãos (e dedos) de Dora Morelenbaum, com a apresentação de“Pique”. Lançado em outubro de 2024 pela Coala Records, este que é o álbum de estreia a solo da artista, marca um momento de afirmação artística após a sua passagem pela banda Bala Desejo, um dos maiores grupos da nova geração de MPB, que em 2022 venceu um Grammy Latino na categoria de Melhor Álbum de Pop Contemporâneo em Língua Portuguesa. “Pique” mistura elementos de vários estilos, como MPB, jazz, soul, R&B e pop contemporâneo, criando uma sonoridade sofisticada, elegante e moderna. Gravado no Rio de Janeiro e co-produzido por Ana Frango Elétrico, contando com a participação na escrita por Zé Ibarra, referência na MPB moderna, este álbum aposta em arranjos ricos e completos, contando com cordas, sopros, num constante balanço entre a intimidade e a expansividade. Mais do que uma coleção de canções, “Pique” é, uma viagem emocional, havendo temas mais leves e mexidos, como “Venha Comigo”, contrastando com temas mais intimistas e introspetivos, como “Petricor” ,tudo numa tentativa de “comunicar através do som”, segundo a própria artista.

Neste concerto, Dora Morelenbaum apresenta os temas que fazem parte de “Pique” num arranjo mais simples, como um exercício de vulnerabilidade e reinvenção. Sozinha em palco, apenas com piano e voz, Dora expôs-se de uma forma mais direta, revisitando o instrumento que começou a aprender aos cinco anos, mas que tinha deixado para trás — regressando agora para este desafio. A abertura, com “Talvez (As Canções)”, trouxe de imediato uma linguagem enraizada na MPB, mas atravessada por uma sofisticação jazzística. Ao piano, revelou-se muito expressiva, navegando entre harmonias com delicadeza enquanto a voz assumia o centro emocional. Seguiu-se “Dó a Dó”, numa abordagem mais despida em relação aos arranjos de banda. As canções de amor surgem como exercícios de memória, habitando o passado, reconstruindo-o com suavidade. “Não Te Vou Esquecer” destacou-se pela complexidade da linha vocal, rica em nuances e subtilezas. “Caco”, tema com letra de Zé Ibarra, trouxe uma mudança de energia. Mais ritmado, com uma harmonia complexa e um assobio que acrescentava leveza, revelou também a técnica vocal de Dora, sempre precisa, mas nunca distante da emoção. Num dos momentos mais especiais do concerto, Dora dividiu o palco com Guilherme Lirio, com quem partilha palco na formação completa da sua banda ao vivo, para apresentar “Japão”. Ao piano a quatro mãos, criou-se um espaço de partilha onde a artista, como ela própria referiu, se sentiu menos “nua”. A cumplicidade entre ambos trouxe uma nova dimensão ao espetáculo, diluindo a solidão inicial. “Essa Confusão” manteve o piano a quatro mãos como base, evocando referências claras à tradição da canção brasileira, com ecos de Marisa Monte e Elis Regina. Aqui, Dora navegou entre o clássico e o contemporâneo, com uma interpretação segura e emotiva. O concerto culminou com “Petricor”, onde Guilherme explorou técnicas estendidas no piano, criando sons invulgares para o ouvinte, como o mutar das cordas para soarem como um contrabaixo, presente na versão de álbum, ou o arpejar as cordas do piano, ao estilo de uma harpa, encerrando o espetáculo num tom mais experimental e surpreendente. Ao longo de toda a atuação, Dora Morelenbaum construiu um percurso muito completo entre memórias, canções de amor e a exploração sonora, tendo a sua apresentação surgido como um momento de exposição honesta — um regresso ao piano que foi, acima de tudo, um reencontro consigo mesma.

A última apresentação da noite ficou a cargo de Surma, alter-ego da compositora e intérprete portuguesa Débora Umbelino, artista muito bem conhecida do público português, reconhecida pela sua abordagem musical assente na experimentação e na construção sonora em tempo real. Utiliza loop stations, samplers e eletrónica como ferramentas centrais, criando composições a partir de camadas vocais e texturas ambientais que se sobrepõem e evoluem de uma forma muito própria. A sua música cruza diversos estilos, desde o jazz à eletrónica, passando pelo post-rock e pela música experimental — resultando num universo sonoro muito próprio Frequentemente descrita como cinematográfica, a sua obra destaca-se pela capacidade de criar atmosferas imersivas e narrativas sensoriais. Há uma constante sensação de imprevisibilidade, com estruturas que fogem ao convencional e privilegiam a exploração do som, do espaço e da emoção. Para Surma, este concerto foi uma reinvenção do seu universo sonoro. Conhecida pela eletrónica atmosférica e pela construção de paisagens densas, Surma trouxe a sua linguagem para o piano sem abdicar daquilo que a define: uma voz transformada, expandida por efeitos, loops e camada, trazendo uma mistura de temas que percorre o seu catálogo, mas transformando-os e dando-lhes uma nova vida. Desde o início, ficou claro que este não seria um concerto de piano tradicional, mas sim um território híbrido. Em “Maasai”, a voz surge carregada de reverb pairando sobre um piano contido. A simplicidade da estrutura contrasta com a profundidade do ambiente criado, construindo, aos poucos, um tecido sonoro mais amplo, fechando a peça com cordas sintetizadas em loop, ampliando o espaço sonoro. Curiosamente, tal como partilhou, também ela começou pelo piano clássico, mas abandonou-o poucos meses depois — um detalhe que torna este regresso ainda mais significativo. “Islet” foi o tema que se seguiu, trazendo um piano mais presente, mais físico, num tema que fala um refúgio, um lugar interior onde a artista se recolhe. Há uma tensão entre solidão e proteção, como se esse isolamento fosse ao mesmo tempo necessário e inquietante.

Apresentando versões acústicas de temas já conhecidos, tocou “Hemma” (“casa” em sueco), um tema nostálgico, de reencontro com um lugar ou consigo mesma, esta casa é mais que um espaço físico, é um estado emocional e uma procura por pertença, desta vez despida de qualquer tipo de artifícios, mantendo a sua assinatura musical mágica. Seguiu-se “Voyager”, do seu primeiro álbum “Antwerpen”, lançado em 2017, onde se destaca a doçura da sua voz e uma construção musical quase cinematográfica. As cordas sintetizadas assumem o papel melódico, à medida que a intensidade crescia gradualmente. A loop station entra em ação, multiplicando camadas e criando uma sensação de uma expansão infinita. Em “Myrtise”, de “alla”, que na versão de disco conta com a participação de Noiserv, a dimensão textural da música de Surma atinge um dos pontos mais altos do concerto. Num ambiente mais abstrato, onde as palavras funcionam como uma textura, as vozes processadas sobrepõem-se, criando uma atmosfera onírica suspensa no tempo. É um tema que mais do que explicado, se sente, como um sonho em construção. A apresentação terminou com “Begrenset”, interpretado a capella. Este tema, cujo título pode ser traduzido para “limitado” ou “restrito”, fala sobre contenção e limites, tanto emocionais como existenciais. Depois de tanta construção e manipulação sonora, este momento final foi de despojamento absoluto — apenas a voz, sem filtros, essa vulnerabilidade lírica torna-se ainda mais evidente, encerrando a atuação de forma simples, contrastando com toda a criação textural que a antecedeu. Ao longo do concerto, Surma demonstrou que o piano pode ser não um limite, mas uma extensão do seu universo criativo, transformando, entre loops, efeitos e uma sensibilidade muito própria, um formato minimalista numa experiência imersiva, onde a sua identidade se manteve do início ao fim.

Foi uma noite muito bonita e intimista no Sótão da Casa Capitão, que evidenciou a riqueza, a completude e a versatilidade do piano — um instrumento capaz de se adaptar a diversas estéticas, sempre com uma elegância difícil de igualar.

Surma

Sofia Leão

Dora Morelenbaum

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