Super Bock e Xutos e Pontapés: amor pela música
Reconhecida como uma das mais importantes bandas rock no universo musical português, os Xutos e Pontapés celebraram recentemente 35 anos de vida, data comemorada com dois concertos no Meo Arena, em Lisboa. A patrocinar o evento esteve a Super Bock, marca de cerveja que desde há muitos anos tem vindo, não só a apoiar os Xutos, mas também a música nacional, com a realização, desde 1995, do festival Super Bock Super Rock. A propósito desta data tão especial e da igualmente especial ligação que une a Super Bock aos Xutos e Pontapés, falámos com Miguel Araújo, diretor de patrocínios da Unicer, e com Zé Pedro e Kalú, respetivamente, guitarrista e baterista dos Xutos e Pontapés.

Tendo comparecido ao primeiro Super Bock Super Rock como outsider, Miguel Araújo viu-se diretamente envolvido na organização do evento desde o ano 2000, sendo que carrega já o peso de 20 edições, entre as realizadas em Portugal, as quatro levadas a Angola e a que se realizou em Espanha. «Guardo boas memórias de todas as edições, mas lembro-me de algumas situações que não vou esquecer, como quando tivemos que abandonar o Hard Club, no Porto, porque havia cheias no Douro, ou quando os Metallica tocaram no Parque Tejo, ou a edição em que Prince cantou com Ana Moura, ou mesmo quando, em 2008, levámos os Xutos e Pontapés a Angola no âmbito do Super Bock Super Rock e onde eles deram um concerto para 30 mil pessoas num estádio em Luanda. Um momento único!». Para Zé Pedro chegar a Luanda e ver tanta gente para os ver tocar «foi muito emocionante. Chegar a um país que não é o nosso, apesar de ter uma forte ligação à cultura portuguesa, e ver aquelas pessoas todas…não estávamos nada à espera, e de acordo com o que nos contaram, fomos a primeira banda rock a ir lá. Foi muito bom», reforça o guitarrista. Para Kalú «esse concerto foi brutal, foi tão bom que até houve invasão de palco e tudo!», recorda o baterista, «houve pessoas que subiram para cima do palco e estiveram lá a dançar! Foi muito bom!».
De acordo com Miguel Araújo, um regresso com o festival a Angola, sendo possível não está para já previsto, «temos apostado mais em comunicar a inovação, mas a nível do “packaging”, os recursos não dão para tudo, mas o festival deixou muita saudade e uma marca muito positiva, pelo que o regresso é algo que, não estando previsto, pode vir a acontecer». Quem já regressou a Angola foram os Xutos e Pontapés que foram a Luanda atuar num bar/restaurante de praia, evento que de acordo com Kalú «correu muito bem», relembrando entre risos que aproveitou a experiência de regressar a Angola para aprender a dançar “kuduro” num bairro de Luanda, «foi muito divertido, podem ver isso mesmo no youtube», desafia o baterista.
A verdade é que os Xutos e Pontapés fazem parte da vida do festival Super Bock Super Rock, pelo que para Miguel Araújo é muito difícil destacar o concerto que mais o marcou, «no de hoje ressalvo a parte cénica, com a descida do pano no início da quarta música. Mas estes dois concertos não são um Super Bock Super Rock», ressalva o responsável da Unicer, relembrando que «eles tocaram já de variadíssimas formas, com a orquestra do Hot Club, com os seus projetos a solo, sendo difícil destacar um único momento…talvez com a orquestra de jazz tenha sido aquele momento que musicalmente me tenha surpreendido mais», conclui.
Para lá da ligação profissional, Miguel Araújo mantém uma relação de amizade com os Xutos. Questionado sobre o que têm eles de tão especial que lhes permita estar no ativo desde há 35 anos, não hesita em responder «a vantagem de se complementarem muito bem uns aos outros», esclarecendo que «com feitios muito diferentes, são uma banda cujos músicos têm uma forte relação de amizade entre si, relação que ultrapassa a música e que se percebeu bem na altura do problema de saúde do Zé Pedro, em que havendo concertos marcados, a banda não hesitou em cancelá-los», refere, «eles respeitam-se muito e isso é um dos alicerces da sua tão longa vida». Se para Miguel Araújo hoje, musicalmente falando, a banda está melhor do que nunca, os nervos e o stress por parte dos músicos mantém-se inalterado, pois passam os anos que passarem todos sentem o peso da responsabilidade, como refere Kalú «chegar e ver este mar de gente faz-me estar uma “pilha” de nervos, por muitos anos que passem eu continuo nervoso», confessa, «até à primeira nota o coração bate mesmo mais forte!» Zé Pedro reforça a opinião do companheiro de banda ao afirmar por entre risos que «é muito emocionante ver que as pessoas ainda nos aturam».
Se há banda que constitui uma referência para o universo do rock mundial são os Rolling Stones. Serão os Xutos e Pontapés os Rolling Stones portugueses? Para Miguel Araújo não há dúvidas, «não só pelo género musical, mas também pela transversalidade que o rock deles tem tido ao longo dos anos são mesmo os nossos Rolling Stones», defende. Reforçando esta ideia, o responsável de patrocínios da Unicer refere um episódio passado em Austin, no Texas, no festival South by Southwest, onde acontecem concertos surpresa à margem do cartaz pré-definido, «um deles foi o concerto dos Motörhead, cuja entrada era feita apenas por ”guestlist”», relembra. «Eramos 10 portugueses que queríamos a entrar, entre eles o Zé Pedro, com as suas correntes e os seus lenços, mas como estava cheio não nos deixaram», conta, «então virámo-nos para os dois seguranças, enormes, e dissemos apontando para o Zé Pedro “este é o nosso guitar star português, o Keith Richards português, deixe-o entrar só para dar uma olhadela” e o segurança olhou para ele e disse “passe” e ele foi! O Zé Pedro entrou como sendo o Keith Richards português, viu o concerto dos Motörhead e saiu de lá super satisfeito!», relembra Miguel Araújo. «É verdade, é verdade! O Keith Richards português!», relembra divertido Kalú. Já Zé Pedro recorda o acontecimento de sorriso rasgado no rosto, «foi muito giro, pois apesar de já ter visto os Motörhead uma data de vezes ali foi muito giro».
Um dos momentos que testemunha bem a ligação da banda ao Super Bock Super Rock foi a sua disponibilidade para substituir os Depeche Mode quando estes cancelaram a sua participação, «essa história foi fantástica, apesar de ter acontecido num momento triste para o festival, pois nunca é bom ter um cancelamento, em especial quando é um cabeça de cartaz, mas aconteceu», refere Miguel Araújo. No espaço de um dia era preciso garantir uma alternativa, «a qual tinha de ser uma banda portuguesa, pois em pleno Verão e tão em cima da hora era impossível ter uma banda estrangeira», esclarece. «Na altura, o Luís Montez falou com os Xutos que estavam de férias, mas eles foram fantásticos, interromperam as férias e vieram com todo o agrado substituir os Depeche Mode», afirma Miguel Araújo, «foi um concerto que teve cerca de 12 mil pessoas e que foi uma grande festa». Têm vindo a ser cada vez mais assim os concertos da banda, uma grande festa à qual comparecem já famílias inteiras, facto que para Zé Pedro «é ótimo de ver. Acho que este é o objetivo de todos os artistas, conseguir atingir assim várias gerações», reforçando que «não tenho nenhuma explicação para esse facto, não consigo explicar quando isso acontece connosco…». Para Kalú «o público é tão transversal como nós, que estamos a atravessar geração após geração», aproveitando para, entre risos, brincar dizendo que «somos como o Tintim, temos um público que vai dos oito aos oitenta».
Mas não são só os portugueses, e os angolanos, que se rendem à música dos Xutos e Pontapés. Na edição de 2012 do Rock in Rio Lisboa, o mesmo aconteceu com uma figura de proa do rock internacional de seu nome Bruce Springsteen. «Estava no palco a assistir ao concerto dos Xutos, o qual aconteceu antes do concerto do Bruce Springsteen», recorda Miguel Araújo, «quando de repente surge um enorme aparato de seguranças. Rapidamente percebemos que o Bruce tinha decidido ir ver o concerto, sendo que esteve a ver e ouvir umas 3 ou 4 músicas com uma cara de agrado, acenando afirmativamente com a cabeça». Miguel Araújo relembra que apesar de não se perceber o que comentavam, «percebíamos pelo semblante de admiração e contentamento, mas também de alguma preocupação do “Boss”, que devia ser algo como “vai ser difícil termos esta energia”, pois em frente ao palco estavam 80 mil pessoas em delírio». Mas será que os próprios Xutos e Pontapés se aperceberam do efeito que provocaram em Bruce Springsteen? De acordo com Kalú «não, nem demos conta. Eu é que depois fiquei vidrado nele». Zé Pedro teve mais sorte, pois foi único que, não falando com o “Boss”, chegou a trocar algumas palavras com Little Steve, «mas não tivemos a noção de que Bruce Springsteen tinha gostado assim tanto de nós. Aliás, foram os técnicos que depois nos contaram, porque nós nem chegámos a ver o Bruce em cima do palco nessa altura». Kalú confessa ainda ter ficado «um bocado aborrecido porque o primeiro vinil que comprei na minha vida foi dele, pelo que o levei para ele assinar, mas nem isso consegui», relembra entre risos.
Aquando da celebração dos 30 anos da banda, a Super Bock lançou no mercado uma cerveja com o nome Xutos e Pontapés. Questionado sobre como surgiu essa ideia, Miguel Araújo prontamente responde «eles! Os Xutos tinham uma série de iniciativas para comemorar a data e numa dessas iniciativas vieram ter connosco, desafiando-nos a fazer uma cerveja especial e nós aceitámos». «A ideia foi do Kalú», refere Zé Pedro numa afirmação de imediato negada pelo visado, «não fui nada, foi do Zé Pedro essa ideia! Ele é que está sempre a dizer que temos que fazer isto e temos que fazer aquilo». A verdade é que sem terem a certeza de quem foi a ideia original, Zé Pedro conclui que «já não sei se fui eu que tive a ideia, mas é possível, pois estou sempre a chateá-los para fazermos coisas novas e diferentes…», o que leva Kalú a relembrar «foste tu foste, pois na altura até descobriste que os Motörhead tinham uma cerveja com o nome deles». A apresentação da referida cerveja Xutos e Pontapés aconteceu num hipermercado Continente, uma vez que a Super Bock tinha realizado para o efeito uma parceria com o grupo Sonae, «tudo aconteceu num domingo e a esse concerto único e exclusivo assistiram entre 100 a 200 pessoas», recorda Miguel Araújo, «foi espetacular, mais um momento memorável entre os Xutos e Pontapés e a Super Bock, e que no fundo também revela a grandiosidade da banda». Um detalhe interessante, relembra Miguel Araújo, «foi o facto do Kalú ter colocado como única condição querer tocar bateria ao pé dos frangos, e tocou». Sobre isso o baterista dos Xutos afirma «adorei! Tocar no meio da carne foi bestial! Imagina lá a “carne” pronta e metida nos contentores…muito bom!», relembra entre risos e gargalhadas.
Funcionando como uma mais-valia, a ligação da Super Bock à mais famosa banda rock portuguesa demonstra bem o quão forte é a marca no mundo da música. «O nome Super Bock Super Rock foi criado com uma fonética muito bem aceite por parte do público e dos media, havendo mesmo bandas que querem vir atuar ao Super Bock (muitas vezes nem referem o Super Rock)», afirma o responsável de patrocínios da Unicer, «mais do que um estilo de música, o rock é um estilo de vida, mais irreverente, mais transgeracional, mais transgressor, e os Xutos têm isso tudo. As 20 edições e os 19 anos de existência do Super Bock Super Rock tinham, de facto, que estar associados aos Xutos e a esta celebração de 35 anos de carreira». Sobre se esta ligação no fundo reflete o amor que a marca tem pela música, Miguel Araújo concorda, «sim, tens toda a razão! É mais um momento importante e nós não podíamos estar fora desta comemoração».
Com tantos álbuns editados e tantas músicas gravadas, desafiámos Miguel Araújo a partilhar connosco qual a sua canção preferida dos Xutos e Pontapés, «gosto do “Circo de Feras”, primeiro porque marca uma tournée à qual tive a felicidade de assistir a dois ou três concertos, e depois é uma música que, não só me marca, como é daquelas que sei cantar do princípio ao fim (risos)». Mas como não há uma sem duas, Miguel Araújo relembra também a canção “Cerco”, escrita por Zé Pedro, «uma música que me marcou profundamente numa altura importante da minha juventude, ali nos 18/20 anos». Sobre se veremos em breve os Xutos e Pontapés de regresso ao alinhamento do festival Super Bock Super Rock, Miguel Araújo afirma que «não, pelo menos para este ano não», deixando no ar, «para o 20.º aniversário, que se celebra em 2015, logo se vê. É uma possibilidade, mas não um compromisso», conclui.
Foram duas noites de celebração dos 35 anos dos Xutos e Pontapés. Dois concertos que, além de assinalarem a data, marcaram também o lançamento do mais recente registo discográfico da mais transversal banda de rock nacional, “Puro”. Nos dois concertos mais de 28 mil pessoas juntaram-se a Tim, Zé Pedro e Kalú, os primeiros alicerces dos Xutos, e a João Cabeleira e Gui, membros da banda desde 1993, para em família partilharem duas noites de profunda emoção. O público que nas últimas três décadas e meia tem acompanhado a banda chegou em força ao Meo Arena para, mais uma vez com muita paixão, demonstrar o quanto os Xutos e Pontapés são importantes.
Do alinhamento fizeram parte temas novos, como “Tu Também (Há 10.000 Anos Atrás)”, “Salve-se Quem Puder” e “De Madrugada (Tu e Eu)”, além de temas que fazem já parte da história da banda e da história da música portuguesa, como o tão celebrado primeiro single “Sémen” (a nossa música preferida, para que conste), “Contentores” (cantada logo após a revelação do magnífico cenário), “Ai Se Ele Cai” ou “Não Sou o Único”, todas cantadas em uníssono pelo público de todas as idades e géneros em perfeita harmonia com os músicos. Impossível não fazer referência à emoção que se adivinhava nos rostos dos mais, digamos, antigos, quando do palco saltam os acordes de temas como “Remar Remar”, “Homem do Leme”, “Negras Como a Noite”, “Nesta Cidade” ou “Barcos Gregos”. “Estivemos 35 anos à vossa espera”, afirmou Tim, o vocalista dos Xutos. A verdade é que ninguém se fez rogado ao chamamento, e se no palco se percebia uma união mais forte do que nunca entre os membros da banda, no público tinha-se a perfeita noção de se estar numa celebração de família. Todos se sentiam felizes e absolutamente privilegiados por dela fazerem parte. À saída, a emoção estava espelhada nos olhos brilhantes e nos sorrisos felizes de todos.
Texto: Sandra Pinto
Fotos: Luís Pissarro






