“Somos uma banda que facilmente se transforma e procura evoluir”, Exomortis

Em 2023, os Exomortis regressaram aos palcos com a formação original, quase três décadas depois do último capítulo ativo da banda. O reencontro, inesperado e nascido de um momento informal entre amigos, acabou por evoluir para algo mais sério e criativo, culminando agora no lançamento do novo disco de originais, SeMente. Mais do que uma reunião nostálgica, este regresso revela uma banda em transformação, que revê o seu passado, mas sobretudo projeta uma nova identidade artística.

Por Sandra Pinto

Entre memórias, recomeços e uma abordagem renovada à composição, os Exomortis falam de liberdade criativa, maturidade e de uma relação mais direta com a música e com o público. Em entrevista, explicam como este novo ciclo nasceu sem planos definidos, mas com uma vontade clara de voltar a criar juntos — agora com outra visão sobre o mundo, sobre a arte e sobre o próprio papel da banda. É neste contexto que SeMente surge como ponto de viragem: um disco que mantém a essência do grupo, mas abre espaço a novas linguagens, novas escolhas e a uma abordagem mais livre da composição. Um regresso que não se limita a recuperar o passado, mas que o reinterpreta.

O regresso dos Exomortis em 2023, com a formação original, surge após várias décadas — o que motivou este reencontro?
O motivo que levou à nossa reunião praticamente três décadas depois foi uma brincadeira. Tínhamos os instrumentos e um dia fomos fazer um churrasco como amigos que sempre fomos e a ideia de experimentarmos tocar por brincadeira surgiu nesse dia. A coisa foi ganhando intensidade e fomos dando continuidade. O resultado ficou agora registado no nosso novo disco de originais, SeMente.

Sentiram que havia algo por dizer que ficou por cumprir na primeira fase da banda?
Sim, sem dúvida. Houve sempre um sentimento de que nós os quatro tínhamos mandado a toalha ao chão numa altura que a banda estava num bom momento criativo. Talvez derivado desse sentimento tenhamos chegado à conclusão que havia que voltar a dar outra oportunidade ao colectivo.

“SeMente” marca uma nova etapa artística, em que medida este disco representa uma rutura com o passado?
O disco SeMente marca de certa forma uma rutura com o passado ao nível da composição que é mais aberta, menos dentro dos estereótipos do passado. Contudo a nossa essência e forma de composição mantem-se inalterada. Os anos foram passando por nós e por muito que queiramos evitar, a nossa visão sobre a vida tem novos contornos, o que de certa forma se reflete na forma como encaramos actualmente a música.

O que significa o título “SeMente” dentro do conceito do álbum?
Está aí uma boa pergunta. SeMente encerra uma dualidade de critérios. A palavra em si encerra como que uma semente que germina. Por outro lado, mente-se muito na vida em sociedade. A mentira anda de mãos dadas com a Humanidade, desde sempre.

Optaram por compor em português neste trabalho. Foi uma decisão consciente de aproximação ao público ou uma necessidade artística?
O português foi uma decisão bastante consciente e garantidamente uma necessidade artística de maneira a dar forma ao nosso estado de espírito atual. Por outro lado, também é uma forma de nos aproximarmos do público, sendo que com o português a nossa mensagem é seguramente mais coerente e clara.

Como foi o processo de escrita e construção das dez músicas que compõem o disco?
O processo criativo obedece aos mesmos critérios do início da banda em 1988. O que muda é apenas a nossa idade e respectiva visão sobre as coisas que nos rodeiam.

Referem uma linguagem livre e fora de rótulos, até que ponto essa liberdade é essencial para a identidade dos Exomortis hoje?
Pensamos que sem essa liberdade, ou seja, se nos tivéssemos mantido fiéis e agarrados de certa forma ao passado, o regresso da banda não faria sentido. Digamos que é uma maneira de encararmos a vida.

Sentem que o facto de estarem fora dos circuitos convencionais vos dá mais espaço criativo?
Sim, sem dúvida. Nem é só estarmos fora dos circuitos convencionais é também a forma livre como encaramos a arte de fazermos música enquanto banda unida.

Sonoramente, o álbum é descrito como rock alternativo musculado e directo. Que influências ou referências estiveram presentes neste processo?
Para sermos sinceros as influências e referências que estiveram presentes no processo criativo, foi mesmo a vida, o facto de estarmos vivos e a tocarmos novamente como banda.

Houve alguma preocupação em equilibrar intensidade sonora com a dimensão da palavra?
Sim, o nosso processo criativo teve e tem em conta esses dois factores, tanto mais que por vezes as letras ou as músicas sofrem ajustes na sua composição de acordo com esse equilíbrio. Podemos dizer que é um processo dinâmico onde a letra e a música estão conectadas de acordo com a mensagem que queremos transmitir.

Depois de tantos anos, como foi voltar a tocar juntos e reconstruir a dinâmica de banda?
Na fase inicial foi uma incógnita pelos muitos anos em que estivemos afastados uns dos outros. Felizmente a adaptação foi rápida, não existiu dificuldades em voltar a tocar nos instrumentos e a compor novos temas. O que mais nos surpreendeu foi mesmo o processo criativo, a forma de composição mantém-se igual à fase inicial de Exomortis mas agora numa vertente e criação musical muito diferente.

O tempo trouxe uma nova forma de encarar a criação musical?
Sem dúvida, todos nós já nos encontramos na faixa dos cinquenta o que se reflecte na forma como vemos a criatividade musical. Penso que é um processo evolutivo natural e que se constata na nova composição das músicas. Neste momento não estamos agarrados a estereótipos musicais mas sim a criar algo que nos identifica como banda.

O concerto de apresentação na Marinha Grande será um momento especial. O que podem revelar sobre esse espectáculo?
Para nós será um novo marco e um novo desafio dado que é o lançamento do nosso álbum SeMente. Teremos a banda Malo!o como convidada, a venda do álbum em vinil em 1ª mão e diverso merchandising. Esperamos que seja do agrado de todos.

O público pode esperar uma experiência mais conceptual ou mais crua e directa?
Será uma experiência mais crua e directa. O nosso álbum caracteriza-se igualmente dessa forma, pelo que faz todo o sentido transpormos essa energia para dentro do palco.

O lançamento em vinil tem aqui um papel central. Que importância tem o formato físico neste projeto?
Cada vez mais o vinil é caracterizado como algo artístico em formato físico, pois não se trata apenas do seu conteúdo musical. Temos a capa que transmite a mensagem da banda assim como o design gráfico e restantes elementos que acompanham o mesmo. Este formato físico caracteriza-se como um todo, algo para ouvir, ver e valorizar, motivo pelo que foi a nossa aposta. De referir que o nosso vinil contém como complemento um código para download digital gratuito para quem não possuir um leitor de vinil.

Como encaram a relação entre música e objeto, especialmente numa era dominada pelo digital?
A era digital transformou radicalmente a forma como ouvimos a música. A abundância e os algoritmos das plataformas influenciam a forma como ouvimos e temos acesso às bandas. O objecto como um vinil cria uma ligação mais conectada, algo mais palpável, mais artístico levando o público a uma audição mais diferenciada que um mero ficheiro digital.

Este novo ciclo surge como necessidade criativa. Sentem que a banda renasceu com uma nova identidade?
Ao comparar o passado da banda com este novo álbum, não restam qualquer dúvidas que sim. Existe uma nova identidade da banda permanecendo apenas o nome da mesma. A nova construção musical e a sua integração com letras em Português são factores decisivos para não existir qualquer termo comparativo com o nosso passado.

Que caminhos gostariam de explorar a partir de “SeMente”?
É uma questão difícil de responder, somos uma banda que facilmente se transforma e procura evoluir. Neste momento estamos focados em divulgar o nosso novo álbum, tocar e usufruir do mesmo. O futuro será definido de acordo com as nossas novas composições musicais.

You May Also Like

À conversa com Ricardo e Mike dos For the Glory

DIETH apresentam “Pound of Flesh” e anunciam novo álbum para 2027

“Enquanto houver ondas e vento, navegar”: crosta transforma a mágoa em música em “a season of sorrow”

“The 90s just stayed with me”: Chris Matthew on Quiz Show “Xono” and returning to music

error: Conteúdo protegido. Partilhe e divulgue o link com o crédito @lookmag.pt