Sepultura incendiaram o Rock in Rio Lisboa numa despedida carregada de história e emoção
Num dia esgotado no Rock in Rio Lisboa, milhares de fãs vestiram o recinto de negro para receber os Sepultura, uma das maiores referências do metal mundial. Em plena digressão de despedida “Celebrating Life Through Death”, a banda brasileira entregou um concerto carregado de história, emoção e poder.
Texto: Sandra Pinto
Fotos: Luís Pissarro
O dia em que os Sepultura subiram ao palco do Rock in Rio Lisboa ficou marcado como um dos momentos mais intensos da edição do festival. Foi o dia que esgotou, aquele em que milhares de pessoas encheram a Cidade do Rock e transformaram o recinto numa enorme mancha negra, com camisolas de bandas, coletes de ganga e a atitude de uma comunidade que encontrou no metal uma linguagem comum. Muito antes das primeiras notas, já se percebia que aquela não seria uma noite igual às outras. O público chegou preparado para celebrar uma das maiores bandas da história do metal mundial e para testemunhar um momento especial: a passagem dos Sepultura pela sua digressão de despedida “Celebrating Life Through Death”, criada para assinalar quatro décadas de carreira. Quando Andreas Kisser, Derrick Green, Paulo Xisto Jr. e Greyson Nekrutman entraram em palco, a reação foi imediata. O rugido vindo da plateia mostrou a dimensão de uma banda que, desde 1984, ajudou a levar o nome do Brasil aos quatro cantos do mundo e abriu caminho para inúmeras gerações de músicos de metal. Os Sepultura não chegaram ao Rock in Rio Lisboa apenas para tocar músicas. Chegaram para contar uma história. Uma história feita de resistência, mudança e evolução, construída desde os primeiros anos mais extremos até à explosão internacional de álbuns como “Beneath the Remains”, “Arise”, “Chaos A.D.” e “Roots”. O concerto foi uma viagem pela carreira da banda, onde cada tema carregava memórias e significados diferentes para quem estava diante do palco. Havia fãs que acompanharam o grupo desde os anos 80 e 90, mas também uma nova geração que descobriu os Sepultura através da influência que continuam a ter no metal moderno. Milhares de vozes juntaram-se às de Derrick Green, criando alguns dos momentos mais poderosos da noite. Andreas Kisser voltou a mostrar porque é uma das figuras mais respeitadas do metal mundial. A sua guitarra continua a ser uma assinatura dos Sepultura, enquanto Derrick Green assumiu o palco com uma presença esmagadora, mantendo viva a energia e a intensidade que sempre definiram a banda. Mais do que um concerto, esta foi uma celebração. Uma homenagem a uma carreira que ultrapassou fronteiras, estilos e gerações. Num festival onde convivem diferentes universos musicais, os Sepultura provaram que o metal continua a ter uma força própria e uma comunidade apaixonada capaz de transformar um recinto inteiro.
Os Cypress Hill não são apenas um nome grande do hip-hop. São uma peça essencial na construção do som da Costa Oeste. Formados no final dos anos 80, em Los Angeles, por B-Real, Sen Dog e DJ Muggs, mais tarde com Eric Bobo a reforçar a identidade rítmica da banda, sempre foram muito mais do que batidas e rimas. Há uma assinatura própria ali feita de atitude, crítica social, raízes latinas e uma estética inconfundível que atravessa décadas sem perder relevância. No Rock in Rio 2026, isso sentiu-se logo desde o primeiro momento. Sem grandes rodeios, o grupo entrou direto ao assunto com “How I Could Just Kill a Man”, trazendo consigo aquela crueza urbana que nunca deixou de os definir. A ligação com “Hand on the Pump / Shoot ’Em Up” foi quase natural, mais tensão, mais peso, como se o concerto estivesse a ganhar corpo à frente de toda a gente.
A intensidade manteve-se com “When the Shit Goes Down”, onde o caos parece sempre à espreita, antes de “Real Estate” introduzir uma crítica mais direta ao sucesso e ao dinheiro. Mas foi com “Latin Lingo” que o concerto ganhou outra cor, uma afirmação clara das raízes latinas da banda, algo que se prolongou em “A to the K”, reforçando a ideia de coletivo e identidade.
Depois veio “Illusions”, que trouxe uma mudança de ambiente. Mais denso, mais psicológico, quase claustrofóbico. Uma transição perfeita para “I Wanna Get High / Cisco Kid”, onde tudo abranda ligeiramente e entra num registo mais solto, mais imersivo. E claro, quando chega “Dr. Greenthumb”, já ninguém tem dúvidas: este é território Cypress Hill puro, irreverente, provocador e impossível de dissociar da cultura que ajudaram a moldar.
“Hits From the Bong / The Next Episode” manteve essa vibe mais leve e próxima do público, antes de um momento instrumental com Eric Bobo e DJ Lord dar espaço à técnica e à respiração, uma pausa curta, mas eficaz. Na reta final, “Wacha Trucha” trouxe de volta a identidade latina com um toque mais contemporâneo, abrindo caminho para “I Ain’t Goin’ Out Like That”, que voltou a levantar a fasquia em termos de atitude. Logo a seguir, “Bombtrack”, dos Rage Against the Machine, encaixou como uma luva, reforçando o lado mais político e combativo do concerto. “Can’t Get the Best of Me” manteve essa postura firme, preparando o terreno para “(Rock) Superstar”, onde a banda olha para a fama sem filtros, expondo o que está por trás do brilho. E depois, claro, o inevitável. “Insane in the Brain”. O momento em que já não há distância entre palco e público. Só energia, só entrega, só um refrão que toda a gente conhece.
No fim, não foi sobre nostalgia, nem apenas sobre clássicos. Foi sobre presença. Sobre uma banda que entra em palco e não precisa de provar nada, mas ainda assim entrega tudo. Sem filtros, sem concessões, sem necessidade de reinventar o que já funciona. Apenas a certeza de quem conhece o seu lugar e o ocupa sem hesitação.
Os Kaiser Chiefs já não são estranhos ao público português, muito pelo contrário. Ao longo dos anos, foram criando uma relação próxima com quem os vê ao vivo, com várias passagens por Portugal, incluindo pelo palco do Rock in Rio Lisboa. E se há momentos que ficaram gravados na memória coletiva, um deles destaca-se inevitavelmente: quando Ricky Wilson decidiu cantar enquanto descia o icónico slide que atravessa a frente do palco. Um daqueles instantes imprevisíveis, caóticos e absolutamente alinhados com a energia da banda, impossível de replicar, impossível de esquecer.
Foi com esse historial em mente que regressaram ao festival em 2026, trazendo consigo um alinhamento sólido. “The Factory Gates” abriu as hostilidades com urgência, quase sem dar tempo para respirar, lançando imediatamente o público para dentro do ritmo da banda. A ligação para “Everyday I Love You Less and Less” fez-se de forma natural, mais melódica, mas igualmente eficaz, com o público a entrar sem hesitação. “Modern Way” trouxe um lado mais contido e nostálgico, antes de “Na Na Na Na Naa” devolver a leveza e aquele espírito quase despreocupado que define tantos momentos da banda em palco. Com “Never Miss a Beat”, entrou-se num território mais irónico e crítico, algo que se prolonga subtilmente até “Ruby”, onde tudo explode num dos maiores momentos da noite, um refrão que se canta quase por instinto, sem esforço, como se já fizesse parte de todos. “Hole in My Soul” e “Reasons to Stay Alive” trouxeram uma pausa emocional no meio da euforia, mostrando uma banda que também sabe abrandar e respirar. Mas essa calma dura pouco: “I Predict a Riot” chega como um gatilho, reacendendo tudo com uma energia impossível de conter. “The Angry Mob” mantém essa intensidade coletiva, quase como um comentário direto ao comportamento das multidões. Pelo meio, a inesperada “Blitzkrieg Bop”, dos Ramones, surge como um momento de pura diversão, simples e eficaz. Já na reta final, “Take My Temperature” mantém o pulso elevado, preparando o terreno para o inevitável fecho com “Oh My God”. E aqui, já não há muito a dizer, é um daqueles temas que fazem o resto sozinho, que fecham concertos e ficam no ar mesmo depois de tudo terminar.
Há bandas que entram em palco para tocar músicas. E há bandas que entram em palco para criar uma experiência. Os Blasted Mechanism pertencem claramente ao segundo grupo. No Rock in Rio Lisboa, o coletivo português voltou a mostrar porque é uma das formações mais singulares da música nacional, levando ao público uma mistura explosiva de som, imagem, energia e uma dose generosa de irreverência. Com os seus visuais marcantes, a estética futurista que sempre acompanhou a banda e uma presença em palco impossível de ignorar, os Blasted Mechanism transformaram a Cidade do Rock num espaço onde a realidade ficou momentaneamente suspensa. Com quase 30 anos de carreira, a banda liderada por Valdjiu continua a fazer aquilo que sempre a distinguiu: desafiar fronteiras. Entre rock, eletrónica, sonoridades do mundo e experiências mais próximas da música experimental, os Blasted Mechanism criaram um espetáculo onde cada detalhe conta. Ao longo da atuação, o público foi convidado a embarcar numa viagem pela história de uma banda que nunca teve medo de ser diferente. Os temas mais conhecidos cruzaram-se com momentos de maior experimentação, numa demonstração de que os Blasted Mechanism continuam a procurar novos caminhos sem esquecer a identidade que conquistaram ao longo das décadas.
Há concertos que são mais do que uma simples atuação: são encontros entre passado e presente, entre memória e celebração. A passagem dos Dealema pelo Rock in Rio Lisboa foi precisamente isso, uma homenagem a três décadas de percurso de um dos nomes mais importantes do hip-hop português, um momento de afirmação de uma cultura que nasceu nas ruas e conquistou grandes palcos. Com o peso de uma carreira iniciada em 1996, o coletivo portuense chegou à Cidade do Rock com a experiência de quem ajudou a construir a história do rap nacional. Mundo Segundo, Fuse, Maze, Expeão e DJ Guze subiram ao palco com a confiança de quem conhece profundamente a sua missão: representar a essência do hip-hop português sem perder a ligação às raízes. Desde os primeiros minutos, ficou evidente que não era apenas um concerto, mas uma viagem pela história dos Dealema. Entre clássicos que marcaram várias gerações e temas mais recentes, o grupo revisitou uma carreira construída com palavras fortes, consciência social e uma autenticidade rara no panorama musical português.
A energia em palco demonstrou porque é que os Dealema continuam a ser uma referência para artistas e fãs de diferentes idades. As rimas precisas, a cumplicidade entre os elementos do grupo e a presença de DJ Guze deram ao espetáculo a força característica de uma formação que nunca precisou de seguir tendências para afirmar a sua identidade.
Num festival conhecido por juntar grandes nomes internacionais, os
Dealema assumiram o desafio de representar a música urbana portuguesa e mostraram que o hip-hop feito em Portugal tem história, qualidade e capacidade para conquistar qualquer palco. A ligação com o público foi um dos momentos mais marcantes da atuação, com várias gerações a acompanhar versos que fazem parte da banda sonora de muitas vidas. O concerto serviu também como celebração do mais recente capítulo da banda, “96 ao Infinito”, um trabalho que olha para o passado sem deixar de apontar caminhos para o futuro. Trinta anos depois da formação, os Dealema continuam a provar que a longevidade no hip-hop constrói-se com verdade, consistência e uma ligação genuína à comunidade que os acompanha.
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