Scarabanga: as cassetes perdidas que deram origem a uma nova viagem musical
Depois de mais de duas décadas de música e cinco álbuns enquanto The Weatherman, Alexandre regressa com Scarabanga, um novo projecto construído a partir de gravações fragmentárias, mistério e muita imaginação. No centro está uma figura chamada Scarabanga, um explorador desaparecido e um conjunto de cassetes que parecem esconder mais perguntas do que respostas.
Por Sandra Pinto
Entre psicadelismo, pop, ritmos tropicais e ambientes cinematográficos, “Tropical Panic for Modern People” abre a porta para este universo estranho e inquietante. Falámos com Alexandre sobre a origem do projeto, a reconstrução das gravações, o papel do acaso e a liberdade de voltar a fazer música sem saber exatamente onde a viagem vai terminar.
Scarabanga surge como um novo capítulo no teu percurso, depois de mais de duas décadas de trabalho enquanto músico, compositor e produtor. O que te levou a sentir que era altura de começar este projecto?
ALEXANDRE: Não foi por nenhuma razão em especial, nem fazia parte dos meus planos mais próximos. Pura e simplesmente, foi a vontade e o entusiasmo de voltar a fazer música que surgiu, sem aviso, pois tive muito tempo parado. O facto de ser um novo projecto traz a adrenalina do desconhecido, e acho que senti saudades dessa sensação.
A história começa com a descoberta de antigas cassetes com gravações fragmentárias. Lembras-te do momento em que percebeste que aquele material podia dar origem a algo maior?
SCARABANGA TEAM: Por razões que ainda não podemos esclarecer, Alexandre não encontrou as cassetes, apenas descobriu material relacionado com a expedição. O material foi-lhe entregue. A partir desse momento, todas as decisões musicais passaram a ser da sua responsabilidade.
ALEXANDRE: Sim, foi quando percebi que não eram apenas gravações de campo, que havia sobretudo música ali. A partir do momento em que me pareceu que tinha encontrado uma canção à espera de ser reconstruída, o sentido de missão tomou conta de mim, meti mãos à obra, e só terminei quando tinha algo concreto. Foi um processo muito excitante.
O que encontraste exatamente nessas cassetes? Eram ideias musicais reconhecíveis ou, em alguns casos, praticamente ruído e fragmentos difíceis de interpretar?
ALEXANDRE: Encontrei de tudo um pouco. Algumas partes foram fáceis de decifrar, como por exemplo o ritmo da canção, que reconstruí. Na gravação original, ouvi aquilo que parecia ser o próprio Scarabanga a entoar um ritmo, com a fala. Pensar no que o levou a fazer isso em plena viagem é muito intrigante. Penso que terá querido registar um ritmo que ouviu por lá e para não se esquecer dele gravou imediatamente. Há um vídeo meu no meu Instagram pessoal em que faço essa demonstração. Imediatamente reconstruí esse ritmo com recurso a palmas, e a percussão corporal. Ficou assim com um travo a algo meio tribal, que acho que resultou lindamente.
Algumas partes foram fáceis de decifrar, como por exemplo o ritmo da canção, que reconstruí.
Falaste das cassetes como pistas de um puzzle.Como foi esse processo de reconstrução? Houve momentos em que tiveste de tomar decisões quase como se estivesses a compor música de outra pessoa?
ALEXANDRE: Sim, parte do desafio foi tentar colocar-me na pele do Scarabanga, e tentar perceber de que maneira eu poderia ser o mais fiel possível ao que ele quereria fazer. Para isso tive que fazer apontamentos exaustivos de tudo o que ouvi, de forma a poder dar um seguimento artístico à sua visão
Até que ponto querias preservar as imperfeições, degradação e características originais das gravações, em vez de as tentar recuperar tecnicamente?
ALEXANDRE: As características originais são interessantes porque acrescentam um carácter interessante e verdadeiro. Mas a maior parte teve que ser regravada e reconstruída.
Scarabanga coloca composição, arquivo e narrativa no mesmo espaço. Onde termina aquilo que estava realmente gravado nas cassetes e começa a tua própria imaginação?
ALEXANDRE: É difícil traçar essa linha, porque o meu trabalho começa precisamente ao ouvir o que falta. Às vezes há um ritmo, uma melodia ou uma textura que parece apontar numa direção, e eu sigo-a. Noutras, há apenas uma falha, um fragmento, e é a imaginação que tenta perceber o que poderia existir à volta dele.
Existe uma ideia fascinante de que as cassetes foram encontradas e que pertenciam a um explorador desaparecido. Quando nasceu esta história e até que ponto ela condicionou a música?
SCARABANGA TEAM: A existência do explorador é anterior ao envolvimento de Alexandre no projeto. A documentação que recebemos é fragmentária e, em alguns casos, contraditória. Não estamos, neste momento, em condições de confirmar onde ocorreu a expedição nem o que aconteceu ao seu responsável.
ALEXANDRE: A história começou a ganhar forma enquanto trabalhava num hotel rural, por onde passam dezenas de peregrinos diariamente. A paisagem, o isolamento e a sensação de que aquele lugar podia guardar histórias foi crucial. Depois, ao explorar material que estava guardado em arcas, descobri muitos objetos antigos (manuscritos, livros, recortes de imprensa, pautas de música, quadros, etc). Daí surgiram as cassetes e a figura do Scarabanga.
A existência do explorador é anterior ao envolvimento de Alexandre no projeto.
“Tudo indica que as cassetes nunca deveriam ter sido encontradas.” O que é que te interessa particularmente nesta ideia de descobrir algo que aparentemente estava destinado a permanecer perdido?
ALEXANDRE: A frase “nunca deveriam ter sido encontradas” introduz uma dúvida que me agrada: foram escondidas de propósito ou simplesmente esquecidas? Não preciso de resolver isso. É essa incerteza que me faz querer carregar no play.
SCARABANGA TEAM: Não podemos confirmar se as cassetes foram perdidas ou deliberadamente ocultadas.
Musicalmente, Scarabanga cruza psicadelismo, pop, ritmos tropicais, instrumentação orgânica e música cinematográfica. Como encontraste o equilíbrio entre elementos tão distintos?
ALEXANDRE: Não procurei equilibrar esses géneros, eles simplesmente foram surgindo durante o processo. Uma linha de baixo podia sugerir um ritmo tropical; uma guitarra mais psicadélica abria espaço para uma melodia pop; e, quando a canção pedia uma mudança de cenário, entrava essa dimensão mais cinematográfica. O equilíbrio veio de manter a canção no centro. Por mais diferentes que sejam as referências, cada elemento tem de ajudar a contar a mesma história. Se estiver lá só porque soa interessante, provavelmente está a mais.
O título “Tropical Panic for Modern People” parece condensar muito bem esse contraste entre algo luminoso e algo inquietante. O que está por detrás desta expressão?
ALEXANDRE: Nos apontamentos que encontrei haviam já referências a este título. Interpreto esta expressão como representante de uma ideia de dualidade entre selva e vida moderna – como sobreviver ao caos através da imaginação, e da conexão humana. Claro que transportei isso para a realidade no mundo actual: a selva como o caos e a ansiedade em que vivemos mergulhados actualmente no mundo. Estamos rodeados de informação, versões contraditórias da realidade, instituições e figuras públicas em que muitas pessoas deixaram de confiar, tecnologia a mudar muito depressa, crises sucessivas — e torna-se difícil perceber em que acreditar, em quem confiar e onde estão os pontos de referência.
A primeira música funciona como uma espécie de porta de entrada para este universo. O que querias que o ouvinte sentisse ou imaginasse quando a escutasse pela primeira vez?
ALEXANDRE: Queria que se sentisse transportado para uma espécie de filme de aventuras, um pouco ao género do Indiana Jones, e que se sentissem também parte dessa narrativa. Algo excitante que veio do passado, mas que faz sentido aqui e agora.
As letras são descritas como surrealistas. Quando escreves para Scarabanga, partes de uma narrativa concreta ou preferes trabalhar através de imagens, associações e ideias mais abertas?
ALEXANDRE: Primeiro lanço umas frases soltas, e depois tento encaixar aquilo numa melodia, e há um momento qualquer em que as coisas começam a fazer sentido. Depois, é só apanhar esse fio condutor e levar a canção até ao fim.
Depois de cinco álbuns como The Weatherman, o que é que Scarabanga te permite fazer enquanto músico que não conseguias fazer nesse projeto?
ALEXANDRE: Bom, em primeiro lugar, permite-me partir de um lugar criativo completamente diferente e novo. Esta sensação de liberdade total, em que tudo pode acontecer, para mim, é realmente excitante. E como The Weatherman já não sentia isso há muitos anos.
Há também uma dimensão muito visual e cinematográfica em Scarabanga. Se tivesses de transformar este primeiro single numa cena de um filme, que lugar, personagem ou situação imaginarias?
ALEXANDRE: Imagino um barco à deriva que chega a uma costa que não aparece em nenhum mapa. O explorador desembarca sozinho, convencido de que vai encontrar respostas, mas começa a ouvir uma linha de baixo vinda do interior da floresta. Segue o som e percebe que tudo à sua volta parece mover-se ao ritmo da música. A cena começa como uma aventura luminosa e vai ganhando uma inquietação estranha. É essa mistura que ouço em Tropical Panic for Modern People: o entusiasmo de descobrir um lugar novo e a sensação de que, a qualquer momento, tudo pode sair fora de controlo.
Às vezes, uma interrupção ou um som inesperado sugere uma direção mais interessante do que aquela que eu tinha planeado.
O projecto parece estar construído para ser descoberto por etapas, quase como uma expedição. Podemos esperar que os próximos lançamentos revelem mais sobre a origem das cassetes e sobre o explorador desaparecido?
SCARABANGA TEAM: Cada cassete acrescentará uma nova peça, mas não necessariamente uma explicação. Algumas gravações parecem esclarecer a expedição; outras tornam-na ainda mais difícil de localizar. A divulgação será feita por etapas, à medida que o material for reconstruído e considerado seguro para transmissão.
Sendo produtor e estando habituado a controlar muitas das etapas da criação, como é que o acaso — aquilo que estava gravado nas cassetes e aquilo que não estava — alterou a tua forma de trabalhar?
ALEXANDRE: Habitualmente, como produtor, consigo voltar atrás e mudar quase tudo. O processo normal de gravar um disco é o produtor dar indicações aos músicos sobre o que tocam. Mas aqui tudo muda. A ideia das cassetes obrigou-me a trabalhar de outra maneira: ouvir primeiro e partir de coisas que já estão gravadas e construir em cima disso. E aceitar que nem todas as falhas precisam de ser corrigidas.
Às vezes, uma interrupção ou um som inesperado sugere uma direção mais interessante do que aquela que eu tinha planeado. O que não está lá também conta: deixa espaço para imaginar o que aconteceu entre os fragmentos. Continuo a tomar decisões, claro, mas passei a deixar que a surpresa tivesse uma palavra a dizer.
O que te surpreendeu mais durante este processo de reconstrução: a música que encontraste nas cassetes ou aquilo que acabaste por criar a partir delas?
ALEXANDRE: O que acabei por criar a partir delas, tendo em conta por vezes o quão indecifráveis pareciam ser as gravações originais.
Se The Weatherman representa uma parte importante da tua história musical, o que gostarias que Scarabanga representasse daqui a alguns anos?
ALEXANDRE: Para mim, Scarabanga será sempre o momento em que recuperei o entusiasmo de fazer música, depois de ter pensado que essa parte da minha vida podia ter acabado. Gostava que, daqui a alguns anos, quem conhecesse o meu percurso olhasse para este período como aquele em que fiz uma escolha: ser feliz a fazer música e livre a explorá-la.
À conversa com o músico Alexandre Monteiro aka The Weatherman