Sarah Negra abre o seu espaço artístico: “Este disco era um desejo antigo, era uma urgência para mim”
Entre a intensidade emocional e uma estética muito própria, Sarah Negra tem vindo a construir um percurso artístico que não se limita à música — expande-se em narrativa, atmosfera e identidade. Cada lançamento revela uma abordagem sensível, mas ao mesmo tempo firme, onde a artista explora estados emocionais, relações e inquietações pessoais com uma linguagem direta e sem filtros.
Por Sandra Pinto
Nesta conversa, olhamos para o seu processo criativo e para a forma como transforma experiências em som e palavra. Mais do que falar de temas ou influências, Sarah Negra abre espaço para perceber o que está por detrás da sua criação artística e como se desenha o seu universo em constante evolução.
Como nasceu Amor E Magia e houve um momento específico que tenha desencadeado este disco?
conseguir registar um pouco do que faço na música. Isso não significa que este disco já estivesse pensado ou programado, na verdade só no Verão do ano passado comecei a ter acesso a ideias e conceitos para o disco, foi nesse verão que pensei no nome AMOR E MAGIA, mas a ideia de gravar um disco era algo importante para mim, dentro da continuidade do meu percurso. Sempre fiz muitos concertos e nunca tinha parado para gravar, só o e.p Deus Só, e isso parecia me pouco.
O que significa para ti o título Amor E Magia e como essas duas forças atravessam o álbum?
Para mim o amor e a magia (essa força e conhecimento invisíveis) são ferramentas vitais à evolução humana em todas as suas esferas de existência. Queria fazer um disco que fosse para mim um desafio no sentido mesmo profundo da escrita e do conceito das coisas, que fosse pertinente também claro. Essas duas ideias estão no disco apresentadas e tratadas como ideias para um novo começo, ou ferramentas que podem ajudar a um novo começo a todos, e a cada um de nós.
Este trabalho representa continuidade ou rutura no teu percurso artístico?
Ambos na verdade. Continuidade porque é de facto um culminar de vários anos anos de trabalho, é uma espécie de concretização alcançada. Mas trás com ele uma ruptura profunda, a nível pessoal, e a nível profissional também. Traz uma afirmação desta vontade de fazer mais e mais música e poder dedicar-me a isso mais profundamente.
Falas do amor como uma força urgente — porquê essa urgência neste momento?
Porque sinto que nos perdemos, todos nós, com demasiada facilidade daquilo que somos e daquilo que é essencial. Porque sinto que o amor não é tratado com seriedade ou respeito nos nossos dias e existe uma profunda ignorância sobre como amar, uma espécie de atitude de arrogância até. Como se soubéssemos tudo sobre o amor, como se fossemos uns grandes praticantes e entendidos quando na verdade somos também muito falhos e pouco evoluídos na prática do amor. Quando digo que é urgente o amor quero dizer que é urgente que a acão amorosa seja consciente e repensada sobre como ser aplicada como ser olhada como ser transformada para que possa habitar os nossos dias. Não sinto que haja muito empenho em estudar ou refletir sobre a forma como amamos, a forma como entendemos o amor a nós mesmos e aos outros. E principalmente há pouca educação amorosa, digamos assim. Ninguém é educado a amar.
No disco, o amor surge como dimensão política, espiritual ou íntima — ou recusas essa separação?
O amor é dimensão política, é amadurecimento e consciência espiritual e isso é profundamente intimo. Como uma roda em ascensão que começa no teu íntimo mais profundo, que se expande para o teu eu superior e inevitavelmente contagia o mundo ao teu redor tornando se politico, revolucionário, contra corrente. Não creio que haja uma separação, mas sim uma sinergia que alimenta todas essas dimensões e elas
contagiam-se umas às outras.
Como trabalhas a tua escrita entre poesia, música e performance, e como surge essa tensão entre contemplação e ação?
Aceitando que essas três linguagens não são forças separadas umas das outras, esse é o ponto de partida. Creio que essa é a grande pérola. Para mim, a poesia ou a escrita é uma forma de escuta, a música é uma forma de respiração e de ritmo cardíaco para aceder a diferentes dimensões, e a performance é o momento em que ambas encontram um corpo físico. Escrevo para compreender aquilo que ainda não sei dizer, aquilo que me é oferecido, porque muitas coisas vêm a mim como uma corrente quando páro para escutar, é como se fosse a minha alma ou várias almas a falarem comigo, e subo ao palco para descobrir aquilo que o texto sozinho não consegue revelar ou clarear. Aí o corpo é o canal e a expressão máxima de todos esses mistérios concentrados na carne. A tensão entre contemplação e ação interessa-me porque é
também a condição de estarmos vivos. Contemplar não é fugir do mundo, para mim, é observá-lo com profundidade suficiente para agir com verdade e alinhamento, com coragem. E agir, para mim, não é responder ao ruído ou à urgência permanente, mas transformar essa observação em presença e consciência, assertividade. As canções vivem exatamente nesse intervalo: entre um silêncio e um grito, entre a fragilidade e a força.
Como decides as línguas em que escreves e cantas, e o que esse cruzamento linguístico acrescenta ao teu trabalho?
Acho que as línguas escolhem-me tanto quanto eu as escolho. Cada uma transporta uma memória, uma musicalidade e uma forma diferente de pensar. Há emoções que só encontro em português, há ritmos que respiram melhor noutras línguas. Não vejo a linguagem como uma fronteira, mas como um território em expansão. Essa forma de lidar com as diferentes línguas, um certo á vontade e uma certa leveza até vem
também da minha experiência em teatro. Eu fiz espetáculos em português, depois tínhamos Tours em Espanha eu fazia Shakespeare em espanhol, ou italiano ou inglês, enfim havia uma certa praticidade com relação à língua. O principal foco era chegar ao público de cada país e se para isso eu tinha de decorar o Shakespeare em inglês tudo bem. A língua na verdade é só uma forma, o que é relevante é o que está por detrás das diferentes línguas, e o que está por detrás delas é universal, não precisa de tradutores nem sotaques perfeitos. Depois cada música tem um coração. Há músicas que me surgem na cabeça naquela língua em particular, e não vale a pena contrariar isso, gosto de as aceitar como nasceram de certa forma.
Acho que o cruzamento linguístico, que sempre esteve no meu trabalho em teatro e na música, me impede de cair numa identidade fixa. Obriga-me a permanecer em movimento, a traduzir-me constantemente, não apenas entre idiomas, mas entre diferentes formas de sentir. Cada língua tem uma sonoridade muito diferente, cada língua vibra internamente de forma muito própria e esse jogo fascina-me, é desafiante
e interessante para mim. No fundo, acho que me interessa menos a ideia de pertencer a uma língua do que a possibilidade de criar uma linguagem própria sem fronteiras visíveis. Todos somos um pouco de tudo, um pouco mouros, um pouco africanos um pouco asiáticos, somos essa combinação de multiplicidade geracional. Eu, o meu ADN não é só português, parece me natural que me expresse em outras linguagens.
De que forma o corpo se torna uma ferramenta de expressão política no teu universo artístico e em palco?
O corpo é o primeiro lugar onde a política acontece. Antes das leis, dos discursos ou das ideologias, existe um corpo que ocupa espaço, que respira, que ama, que teme, que resiste que reclama uma posição e que dialoga com tudo ao redor. Deixa rastro. Cria memória. Em palco procuro não representar uma ideia, mas habitá-la, ser e existir uma ideia. A forma como nos movemos, como olhamos, como permanecemos em silêncio ou escolhemos fragilizar-nos pode ser profundamente política. Vivemos num tempo que nos quer rápidos, produtivos e permanentemente disponíveis. Um corpo que preserva a seu livre arbítrio, a sua capacidade de decidir de forma consciente, já está de certa forma a ter um impacto politico. Para que um corpo possa de certa forma preservar-se como consciente de si, é preciso que se conheça muito bem, interna e exteriormente, que se estude esse corpo até ás suas maiores profundezas, e em todo o meu percurso eu tive esse tempo e investi nisso, conhecer a minha máquina – o meu corpo. Entender os seus limites, desafiá-los, controlar os impulsos, descobrir outros
corpos inimagináveis para mim nele contidos enfim… acho que num mundo onde o corpo é banalizado e colocado sempre como cenário ou ator secundário da tua existência, esta relação mais profunda com o corpo que habitas é uma forma de resistência política forte e muito rica na verdade. Todo o meu percurso foi construído e experienciado com base numa relação profunda com o meu corpo físico e emocional, de escuta profunda, de laços de ligação profundos.
Atravessar géneros e recusar classificações é uma escolha consciente? Como defines o som de Amor E Magia?
É uma consequência natural da forma como escuto o mundo. Nunca ouvi música por categorias; sempre ouvi atmosferas, intenções, frequências ou as vidas por trás da música que toca. As etiquetas são úteis para organizar prateleiras, e isso pode ser bom para o mercado, mas raramente conseguem explicar uma experiência ou fazer-lhe justiça. Acho que prefiro olhar para o conteúdo e menos para o rótulo das coisas. Como vou definir de uma árvore é punk ou jazz improvisado? Uma árvore é uma árvore e provavelmente terá fazes da vida em que é coisas diferentes mas o essencial é a sua natureza de árvore, a forma como fala, dança, como se move no vento em determinado momento da sua existência, não a podem definir por completo, podem sim caracterizar um determinado momento da sua existência, mas é apenas isso. Acho que o disco não procura pertencer a um género, procura construir um espaço. É um disco onde o orgânico encontra o eletrónico, onde a canção convive com a improvisação, onde a espiritualidade não se opõe ao quotidiano. Se tivesse de o definir, diria que é um lugar de transformação: um território onde a delicadeza e a intensidade deixam de ser opostos e passam a coexistir. Mas diverte me bastante a dificuldade que causa quando é necessário definir a sonoridade do disco, acho engraçado. Porque o disco contém tantas coisas ou gavetas reconhecíveis, mas a verdade é que não cabe em nenhuma delas por completo. É como se transbordasse. Essa imagem agrada-me.
Como surgiram as colaborações com Royal Bermuda e Miguel Dias, e o que trouxeram ao disco?
As melhores colaborações acontecem quando existe confiança antes de existir um plano. Tanto os Royal Bermuda como o Miguel Dias chegaram ao disco porque reconhecemos uma vontade de colaborar. Cada colaboração abriu uma janela diferente. Trouxeram outras formas de ouvir, de construir espaço e de desafiar aquilo que eu julgava fechado. Gosto da ideia de que um disco não é um manifesto individual, mas um organismo vivo que cresce através do encontro entre sensibilidades, e as colaborações com outros músicos são sempre momentos de descoberta e crescimento.
Como foi o processo de trabalho com Ricardo Martins e Alexandre Bernardo entre estúdio e estrada, e que papel teve a improvisação? Trabalhar com o Ricardo e o Alexandre foi sobre construir e descobrir uma linguagem comum. Esse principio é importante dentro da criação e da composição dos temas. Acho que há uma organicidade muito feliz entre nós e uma inteligência coletiva entre nós que também é consequência de estarmos juntos há alguns anos. Essa inteligência, e essa riqueza da nossa relação artística está refletida no disco. O estúdio serviu para encontrar uma gramática, ali estavam mais pessoas envolvidas, o Pedro Gerardo que teve também um papel fundamental na direção das coisas. E a estrada ensina-nos a esquecer essa gramática, a estarmos abertos a adaptar o que sentirmos necessário, a sermos versáteis, quando necessário. A improvisação não acontece muito no disco, surge mais em momentos de composição e de momentos ao vivo mas também só pode surgir porque existe um trabalho muito sólido e estruturado por trás, uma enorme confiança e conhecimento sobre cada um e sobre cada tema.
“Eu Só Quero a Paz” parece condensar várias tensões do disco — o que representa para ti e que ideia de paz estás a explorar?
O título pode parecer simples, quase ingénuo, mas a paz de que falo não é uma ausência de conflito. Não acredito numa paz construída sobre o esquecimento, a passividade ou o silêncio. Interessa-me uma paz que nasce depois do confronto connosco próprios, uma paz que é conquistada e por isso é sólida, tem raízes profundas, tem uma história de transformação agregada. Vivemos numa época que se confunde a velocidade e a quantidade com progresso, e opinião, reatividade e defesa com verdade. Dizer “eu só quero a paz” pode soar como uma frase até pateta, mas também pode ser profundamente radical. É escolher não alimentar a violência que tantas vezes se infiltra na linguagem, nas relações e na forma como habitamos o mundo, é sobre a consciência do desapego, e sobre a consciência da nossa grandeza e pequenez. No fundo, o disco também é sobre isso, é uma tentativa de imaginar que a sensibilidade, a serenidade, o desapego e a consciência de que fazemos parte de um macro sistema não é uma fuga da realidade, mas uma forma de a transformar.