SAMUEL na BOTA. Um mergulho por um universo repleto de cor e dança

O cantor e compositor açoriano SAMUEL, apresentou-se no passado sábado na BOTA (Base Organizada da Toca das Artes) nos Anjos, para apresentar o seu disco de estreia “ULTRASENTIMENTAL”. É o primeiro registo a solo de Samuel Pacheco, já conhecido de projetos como Mind Mojo, onde pela primeira vez, expõe o seu mundo interior na forma de canções.

Texto: David Pissarrro
Fotos: Dolores

Neste registo lançado a 14 de fevereiro de 2025, pela MORADA, SAMUEL, alter-ego de Samuel Pacheco, centrando-se na voz e no piano, explora uma variedade de sentimentos desde a pertença e a saudade da sua terra natal, São Miguel, à homenagem de figuras importantes da sua vida, numa narrativa completa que explora o seu mundo interior, repleto de fusões e de cor. Situa-se num estilo que funde a música pop, o R&B, o soul e o funk, de uma forma muito própria, ao longo de cerca de 40 minutos, com influências que vão desde Stevie Wonder a Hiatus Kaiyote.

Segundo SAMUEL, “ULTRASENTIMENTAL” nasce de um desafio pessoal no final da sua licenciatura em Canto Jazz na Escola Superior de Música de Lisboa. A professora, a cantora Maria João, incentivou os alunos a criarem temas originais e SAMUEL resolveu criar um álbum completo, sozinho, desde a sua composição até à mistura. Segundo o próprio, este “é um trabalho do qual me orgulho e que me lembra sempre os Açores”, tornando-se num grande desafio a escrita de temas em português dentro do estilo que é “parte essencial de quem sou”. O título do disco é uma referência à sua própria hipersensibilidade emocional, que se revela na sua atitude enquanto artista e na sua arte e conta com a participação de Mariana Silveira na voz em “Mama” e “Fadas e Sereias” e com a participação de Eduardo Santiago no baixo elétrico.

Samuel Pacheco, natural da Povoação, em São Miguel, revelou desde cedo uma forte ligação à música, começando a cantar ainda em criança e iniciando o estudo de piano por volta dos 8 anos. Ao longo do seu percurso, desenvolveu interesse pela composição, integrando o projeto Mind Mojo, que lhe deu a confiança necessária para avançar com a sua carreira a solo como SAMUEL. A sua música caracteriza-se por uma abordagem emocional e, por vezes, maximalista, mas organizada, onde a relação entre voz e piano é simbiótica. Com formação em jazz no Hot Clube e na Escola Superior de Música de Lisboa, adquiriu as bases musicais que lhe permitem explorar uma panóplia de estilos musicais. Para além de compositor e intérprete, SAMUEL afirma-se também como produtor, sendo o seu álbum de estreia igualmente o seu primeiro trabalho nessa vertente, mantendo sempre uma postura de constante aprendizagem e evolução artística.

Para este concerto, apresentou-se em palco acompanhado por Hugo Portugal na guitarra elétrica e Francisco Ferreira na bateria, contando com vários convidados, que por agora, permanecerão incógnitos. Na sala de concertos da BOTA sente-se o público ansioso pelo começo do concerto. SAMUEL e companheiros entram em cena, para iniciar esta viagem por “ULTRASENTIMENTAL”, repleta de cor e de movimento, de dança e de amor.

“Hortênsia” é o tema que dá início à apresentação, imediatamente marcada por um riff de guitarra pesado dobrado com o baixo (tocado no sintetizador por SAMUEL) e que enche a sala. A voz entra com a bateria numa batida “laid back”, sempre a puxar o tempo para trás, ao estilo de D’Angelo, criando uma tensão envolvente que segura o público desde o primeiro segundo. A sonoridade é densa e cheia, quase imersiva, enquanto Samuel presta uma homenagem à figura de uma das suas “ninfas” – a hortênsia. É um tema carregado de memória e saudade, estabelecendo a hortênsia não como uma flor decorativa, mas sim como símbolo da paisagem da sua terra natal. Faz referência às suas origens e a um sentimento de pertença misturado com um romantismo ainda mais simbólico no primeiro verso: “numa das tuas folhas, quero viver; ser a tua hortênsia” transformando um dos símbolos da sua terra no seu objeto romântico – torna-se a sua lembrança, o seu refúgio e a sua memória, tal como querer tornar-se esse refúgio e lembrança para alguém. É um início forte e seguro, que estabelece logo a identidade do concerto.

Segue-se “Dragã”. Trata-se de outra referência à sua terra, nomeadamente à ilha-dragão, São Jorge, como “entre as ondas sobrevoava; restos de escamas; algas entre as chamas” que depois é apanhado, servindo de metáfora para ser capturado por algo ou alguém. Uma introdução de piano mais ritmada faz-se ouvir, “Dragã” traz um ambiente mais mexido, mas igualmente sofisticado, com um andamento constante na bateria, como o balanço das ondas do mar. A voz de Samuel destaca-se, desenhando ornamentos e runs de blues para colorir um pouco mais as melodias, enquanto os sintetizadores preenchem completamente o espaço e o baixo acompanha tudo isto, criando uma base muito forte para o desenvolvimento dos outros instrumentos. O tema respira com naturalidade, culminando num final em “half time” onde se escuta um sintetizador muito particular ao estilo do hip-hop da costa oeste norte-americana, voltando a puxar o tempo para trás, mantendo a estética descontraída, mas controlada. Contrasta com “Hortênsia” no seu carácter, passando de uma lembrança e de uma memória para um tema com mais presença e maior intensidade.

Segue-se “Dip”, uma das várias músicas ainda não editadas que SAMUEL escolheu apresentar neste concerto. Antes mesmo de começar, um solo de sintetizador com timbres próximos de sopros introduz o tema mais complexo e, claramente, influenciado pela fusão e pelo jazz. Apesar de serem apenas três músicos em palco, o som é surpreendentemente cheio, mantendo-se na linguagem musical própria de Samuel. A guitarra assume primazia, depois um solo com linguagem progressiva, acrescentando mais camadas a este “mergulho” sonoro. No final, SAMUEL apresenta os seus companheiros em palco, nomeadamente Hugo Portugal e Francisco Ferreira.

Para o tema seguinte, SAMUEL chama a palco a primeira convidada da noite, a coautora do mesmo, a cantora Mariana Silveira. A entrada de Mariana, eleva o concerto com “Mama”, tema composto em 2023 por ambos e que, segundo os próprios, já passou por várias vidas. “Mama” assenta num sintetizador pesado e groovado, com um sub grave bem presente e muito espaço entre os elementos, fundindo-se numa batida laid back ao estilo de fusão moderna. A estética geral do tema aproxima-se do soul e neo-soul, entrando SAMUEL no primeiro verso. Segue-se um refrão a duas vozes que revela uma excelente química entre os dois. Mariana assume o segundo verso com a voz rouca e quente, contrastando com a de Samuel. A bateria acrescenta constantes pormenores rítmicos e o resultado é um diálogo vocal rico. Sente-se uma ligação emocional muito grande neste tema que, combinado com a intensidade vocal de ambos, se aproxima da tradição do soul e do espiritual. Serve como uma homenagem à figura materna, explorando ligações profundas de afeto, proteção e memória, misturadas com a gratidão e a saudade, elevadas pela simplicidade dos arranjos que reforça o peso emocional da letra, permitindo que a mensagem chegue de uma forma muito tocante.

“Chuva de Estrelas”, tema pelo qual o artista tem um especial carinho, sobretudo pelo seu significado, segue o alinhamento. Começa com uma introdução de piano jazzística e desenvolve-se para um ambiente mais lento e atmosférico,algo ambíguo. O sub grave do sintetizador sustenta a base, enquanto a guitarra preenche com subtileza. É um dos grandes momentos do concerto, com um refrão muito forte marcado por runs de blues na voz. As interações entre guitarra e bateria criam transições muito dinâmicas e surpreendentes, transformando a música numa verdadeira viagem. A voz mantém-se irrepreensível, com uma execução perfeita, encantando e transportando o ouvinte para um mundo quase espiritual, num ambiente suspenso e etéreo.

É tempo de “Tenho Espaço P’ra Ti”, a primeira balada da noite. Para o acompanhar, SAMUEL chama ao palco a segunda convidada, a cantora Mariana Brissos. Num registo mais íntimo, a canção surge com piano limpo e uma atmosfera mais escura e densa. A entrada de Mariana Brissos traz uma nova cor, com uma voz doce e suave que contrasta com a intensidade latente. O refrão abre-se em duas vozes, reforçando uma estética mais pop. Há espaço para improvisos vocais que levam ao terminus em forma circular, regressando à simplicidade do piano e das vozes. É uma canção simples, mas carregada de significado. O próprio título encerra desde logo uma explicação acerca de espaço não físico, mas de disponibilidade emocional, mostrando-se vulnerável, disposto a deixar alguém entrar e a confiar.

“Não Tem Mal” é outro inédito que transporta uma energia mais funk, com guitarra ritmada e uma bateria cheia de movimento. Os sintetizadores revelam um trabalho cuidado de sound design, preenchendo com detalhes subtis o espaço sonoro, enquanto SAMUEL explora novamente a fusão. Nele assistimos a uma jogada constantemente entre double time e half time, surpreendendo o ouvinte e evitando qualquer previsibilidade. Os solos, tanto de sintetizador como de guitarra elétrica, elevam o momento, com destaque para a interação entre os músicos, que estão numa “conversa” constante.

SAMUEL chama a palco a próxima convidada, Inês Almeida, surgindo uma versão renovada, segundo o próprio, de “Palhaço”, mais etéreo e pop. A introdução de sintetizador abre espaço para uma narrativa emocional, com Inês a iniciar de uma forma muito delicada. SAMUEL junta-se depois e o refrão a duas vozes cria harmonias envolventes. A bateria mantém-se inovadora e no segundo refrão, há uma modulação musical, elemento característico da pop clássica. Depois, ficam apenas voz e bateria, intensificando o caráter emocional da música. Ali é explorada a dualidade entre o que se mostra ao mundo e o que realmente se sente por dentro — usando a figura do “palhaço” como metáfora para alguém que faz os outros sorrir enquanto esconde fragilidade, dor ou conflito interior, contribuindo para a narrativa de exposição emocional e honestidade que marca este registo.

SAMUEL chama Diana Silveira para interpretar “O Que Me Resta”, dono uma estética mais sombria. Os sintetizadores criam um ambiente quase mágico, sustentado por um sub grave constante. A interpretação vocal de Diana, mais grave e num balanço entre sussurro e expansividade, dá-lhe uma intensidade particular, muito R&B. A flexibilidade da voz de Diana destaca-se durante a execução, atingindo o auge numa modulação final que intensifica profundamente a carga emocional deste inédito.

Amigo e colega de banda, João Mesquita  sobe  palco para fazer parte desta “homenagem às namoradas” e inspirações. “Musa” pode ser entendida tanto como uma pessoa concreta, como uma projeção idealizada ou como uma fantasia que alimenta o imaginário artístico. A letra move-se entre admiração e vulnerabilidade, revelando o impacto profundo que essa presença tem no seu mundo emocional e criativo. Com Mesquita, o concerto ganha um momento mais leve e descontraído. Com uma batida muito funk e contagiante, dentro do R&B e soul contemporâneo, cheio de hooks que ficam imediatamente na memória, apresenta as duas vozes combinam na perfeição. O refrão torna-se coletivo, com o público a participar. A energia é dançável e solta, culminando num final a cappella que evidencia a força das vozes.

Num momento inesperado, Samuel desloca-se para o piano da sala e dá vida ao último inédito da noite. “Forest Child” trata-se de uma balada profundamente emocional, cantada em inglês, sobre a experiência de ser uma criança incompreendida. Começa a solo, voz e piano, e vai crescendo com a aproximação das cantoras pelo meio do público. Sem microfone, a voz ganha uma dimensão crua e honesta. O público junta-se a SAMUEL em coro, criando um momento comovente neste final da apresentação de “ULTRASENTIMENTAL”.

O concerto encerra com “Nuvem Negra”, portador de uma grande força melódica. Aqui “nuvem negra” surge como metáfora para estados emocionais mais densos, como a ansiedade ou a melancolia que escurecem a visão do mundo. A canção transmite uma sensação de peso interior, onde há espaço para a dúvida e para o confronto com emoções difíceis. Começa de forma contida, com piano e voz, até entrar um sintetizador à la Stevie Wonder que abre o som. A música cresce para um groove funky, com um solo de guitarra com elementos do blues e altamente musical sobre uma construção gradual que reforça a ideia de inquietação interior. A banda demonstra total domínio técnico, com elementos de fusão sempre presentes e a voz de Samuel mantém-se no limite, criando tensão, mas nunca falhando — um final poderoso para um concerto memorável.

É igualmente importante salientar o trabalho exemplar de David Santos na mesa de mistura, responsável por um som ao vivo muito  equilibrado, com excelente definição e clareza e que soube ocupar de forma eficaz todo o espaço sonoro da sala da BOTA. Foi uma noite memorável, marcada por um ambiente caloroso e pela presença de muitos amigos na sala da BOTA. “ULTRASENTIMENTAL” é um disco cativante e, sem dúvida, um dos mais relevantes dentro do estilo no panorama nacional, destacando-se pela sua fusão musical singular, podendo mesmo afirmar-se como o início de um novo caminho dentro do R&B português.

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