Probo: “A inquietação é uma boa meta. É dela que parte a mudança”

Há coisas que não se conseguem ignorar. Pessoas, histórias, injustiças, perdas, silêncios. É desse olhar atento sobre o que acontece à sua volta que os Probo constroem a sua música, transformando inquietação e revolta numa criação que procura, acima de tudo, recuperar alguma da humanidade que parece perder-se pelo caminho. Olho Aberto e Pé Ligeiro, o EP de estreia, reúne oito temas onde diferentes sensibilidades se encontram numa construção coletiva. Partindo das composições de Vítor e da poesia de Beatriz Fontes, a banda cruza melancolia, tensão e momentos de luminosidade para falar de experiências pessoais, heranças, amor, dor e das realidades sociais que não podem ser simplesmente deixadas passar.

Por Sandra Pinto

Nesta conversa com a LOOK mag, os Probo falam sobre a génese do projecto, o processo de transformar poesia em música, a importância da comunicação dentro da banda e a forma como a arte pode continuar a provocar mudança num mundo saturado de estímulos. Porque, para eles, a inquietação não é um destino — é o ponto de partida.

Os Probo surgem como “reação” e como um apelo à humanização do colectivo. A que é que sentem que estão a reagir quando criam música?
Reagimos principalmente às injustiças múltiplas que premeiam na sociedade moderna, sejam os genocídios praticados publicamente ou as ingerências que afetam a qualidade de todos nós, dos nossos e de todos aqueles que existem nesta realidade política. Há muita revolta com muita coisa na nossa arte.

Falam de uma sociedade que nos empurra para o entorpecimento e para a apatia. O que é que mais vos incomoda nessa sensação de “ombros encolhidos” que descrevem?
Incomoda-nos por ser o reflexo de uma certa perda de humanidade. Ter empatia e mexer pelo outro acaba por ser o que nos torna verdadeiramente gente. Se isso falha, o que resta de nós? E o que restará dos outros que vão ficando destituídos de tudo?

Dizem que, perante essa realidade, a arte aparece como a única contrarresposta. Acreditam realmente que a arte ainda pode provocar mudança num mundo cada vez mais saturado de informação e estímulos?
A arte pode absolutamente fazer a diferença. Onde os estímulos são passageiros, a arte é perene, e pensamos que não perde o seu impacto. Acreditamos que cada vez há mais uma tendência das pessoas de procurar algo real, uma espécie de “arte biológica” a que se agarrar. Se a arte a que se agarram as pessoas se agarrar também a elas, poderá haver essa mudança.

Olho Aberto e Pé Ligeiro parece ser, desde logo pelo título, um convite à atenção e à reacção. O que significa para vocês manter o “olho aberto” e ter o “pé ligeiro” nos dias de hoje?
Ter o olho aberto e o pé ligeiro é, acima de tudo, estar atento a tudo o que se passa em nosso redor, e ter capacidade de agir em função do que vemos. A beleza deste dizer, que surge dito ao Vitor pela avó quando era miúdo, é precisamente ser extremamente versátil e aplicável a imensas realidades. Pode ser político, assim como pode ser um guia de sobrevivência do dia-a-dia. Queremos que cada um leve esta frase e a aplique na sua vida como quiser.

O EP nasceu das composições de Vitor, que foram depois desenvolvidas por André, Charneca e Tiago. Como funciona essa transformação de uma ideia individual numa criação coletiva?
O processo de uma criação coletiva que parte de uma ideia individual é-nos muito natural e tem vindo a funcionar bem ao longo do tempo. As composições que o Vítor traz são sementes que acabam por desabrochar em canções muito particulares com um toque especial de cada um dos membros. Por vezes, estas sementes acabam por dar aso a canções muito diferentes do que se previa na ideia original. As composições que o Vítor traz são entendidas por todos como uma base de trabalho e não como um produto final.

Quatro pessoas, quatro sensibilidades e diferentes histórias pessoais. Em que momento perceberam que essas diferenças estavam a enriquecer a identidade dos Probo em vez de a fragmentarem?
A consolidação da nossa identidade parte da nossa tendência bastante democrática na gestão da banda. Todos contribuímos com as nossas opiniões pessoais sobre o projeto e há sempre muito espaço para o fazer. O enriquecimento da nossa identidade vem de uma capacidade de conseguir pegar nos fragmentos que somos e fazer deles um todo, mesmo que imperfeito.

As letras são adaptações da poesia de Beatriz Fontes. O que encontraram na sua escrita que vos fez querer transformá-la em música?
Uma ressonância para com as temáticas emocionais dos poemas, as observações que são feitas nestes poemas sobre o mundo, nas quais nos revemos, sendo que a música é capaz de encapsular esses mesmos sentimentos.

Como é trabalhar sobre uma poesia que já existe e encontrar nela uma nova linguagem através da música? Existe algum receio de alterar a intenção original de quem escreveu?
Existe um cuidado contínuo de respeitar a intenção original dos poemas da Beatriz, e inclusive de traduzir essa intenção ao nível musical e pela escolha dos excertos que resumam melhor essa intenção e simultaneamente funcionem em música. Existe comunicação e consentimento com a autora nesse aspeto também. No entanto, vemos a coisa da perspetiva de um diagrama de Venn, onde a música de Probo e a poesia da Beatriz se intercetam, mas vivem por si mesmas ao nível individual.

A melancolia e as “ascensões radiantes” parecem coexistir no EP. É essa tensão entre sombra e luz que melhor define o universo sonoro dos Probo?
Esteticamente, desde o início do projeto que esta foi a sonoridade que queríamos atingir e que nos saía instintivamente – o próprio teor das letras acaba por transparecer na intenção com que são tocadas. Esta tensão é uma boa definição do que é o Olho Aberto e Pé Ligeiro, porque foi para onde esse disco nos levou, mas pensamos ser cedo para dizer que define Probo. Sentimo-nos a evoluir sonicamente e não pretendemos ficar por aqui.

O disco fala de histórias pessoais, influências e heranças — tanto históricas como familiares. Que heranças sentem que estão mais presentes na música dos Probo?
⁠Quando tocamos estas músicas pensamos principalmente em pessoas. São pessoas e vivências que inspiram a escrita dos poemas e é isso, esse olhar atento a pessoas e vivências, que Probo tem, que nos dá a intenção para as interpretar. Amigos forçados a emigrar, pessoas que não conseguem arranjar onde viver, pessoas que perderam tudo, pessoas que já cá não estão, pessoas que vivem em silêncio, sem poder para falar. É esta a herança que corre nas nossas músicas.

O conceito de herança parece ter também uma dimensão muito pessoal: vocês próprios tornam-se uma espécie de herança uns dos outros enquanto banda. O que aprenderam uns com os outros desde que começaram este projeto?
Acho que a grande aprendizagem que tivemos uns com os outros foi a comunicação, algo indispensável para que um projeto destes funcione. Tornámo-nos melhores a expor ideias, receios, frustrações… e também a receber essas questões todas sem “hard feelings”.

“Fresco”, “Escape”, “Canto”, “Desalento”, “Antagonista”, “Da mãe”, “Tormenta” e “A Faixa” formam o alinhamento do EP. Existe uma narrativa que liga estas oito faixas ou preferem que cada pessoa construa a sua própria leitura?
O alinhamento acaba por ser sempre uma sugestão de audição do artista. Achámos este alinhamento o que nos fazia mais sentido em termos de como o EP fluía como um todo. No entanto, não é de todo taxativo, até porque existe uma conexão tematicamente forte entre todas as faixas. A própria ordem em que temos vindo a lançar as mesmas difere da ordem do EP.

“Da mãe” destaca-se imediatamente pelo próprio título. Há neste EP um lado particularmente íntimo e familiar que vos tenha sido difícil colocar em música?
Esta música em especial carrega uma conotação familiar muito íntima ao Vítor, que prefere não a desenvolver.

Se Olho Aberto e Pé Ligeiro é um apelo à empatia, à clemência e ao amor, qual foi a emoção mais difícil de transformar em canção?
Talvez a Dor, porque a Dor faz parte do amor (o próximo trabalho, vai abordar imenso esta questão, a relação entre amor e dor), esta emoção está diretamente relacionada com o interlúdio “Da Mãe”, foi um tema que se considerou bastante se devia ou não estar no álbum.

Os Probo falam de “muito para exteriorizar”. O que é que precisavam de dizer que talvez não conseguissem dizer de outra forma?
Existe em nós uma necessidade de expressão artística que acaba por ser canalizada na música que fazemos. É uma espécie de impulso visceral, um grito mudo mas físico que lançamos quando tocamos. Exteriorizamos mãos cheias de muitas emoções que não cabem em palavras.

Vivemos numa época em que a indignação se tornou quase instantânea e muitas vezes desaparece tão depressa como surgiu. Como podem os músicos transformar uma inquietação momentânea numa obra que permaneça?
Volta-se à ideia da arte como algo perene. Uma canção é como uma captura de um momento na história , de um estado de ser. Por mais tempo que passe, se lá voltarmos vamos ver a mesma revolta face à mesma situação. Por exemplo, já passaram 40 anos do FMI do José Mário Branco, mas se o formos ouvir temos uma cristalização clara da revolta (e desespero) de um homem no pós 25 de abril, que daqui a 40 anos continuará lá.

Existe também uma dimensão política e social no vosso discurso, mas o projeto parece evitar respostas demasiado fáceis. Para vocês, a música deve dar respostas ou deve sobretudo fazer perguntas?
Principalmente, procuramos expor as situações que vemos à nossa volta. Compete-nos dar a conhecer a realidade que vemos a olho nú. Não arriscamos respostas porque cabe a cada pessoa decidir como encarar estas situações, e isto é um processo extremamente pessoal. Não existe uma solução universal para os problemas que vemos, mas muitas formas de lutar.

Qual foi o momento mais inesperado durante a criação de Olho Aberto e Pé Ligeiro — aquele em que perceberam que o EP estava a transformar-se em algo diferente do que tinham imaginado?
O momento em que se gravou e se teve de ir regravar tudo de novo, porque ficámos insatisfeitos com o resultado. Foram aproximadamente dois anos até chegar a este ponto. Foram vários os erros que se cometeram, foi um processo emocionalmente desafiante.

O que gostariam que acontecesse dentro de alguém depois de ouvir o EP pela primeira vez: inquietação, identificação, esperança, vontade de agir?
⁠A inquietação é uma boa meta. É dela que parte a mudança. Se a nossa música mexer com as pessoas, se as fizer parar um pouco e refletir mesmo que brevemente no estado das coisas, já valeu a pena.

Para terminar: se os Probo fossem uma reação a alguma coisa, mas também uma mensagem para quem vos ouve, qual seria essa mensagem em poucas palavras?
⁠Por enquanto, achamos que a mensagem é bem clara: olho aberto e pé ligeiro.

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