Primavera Sound Porto 2026 Dia III: quando a consciencialização política sobe a palco com os Massive Attack e os IDLES

O terceiro dia do Primavera Sound Porto 2026 ficou marcado pelos concertos de Model/Atriz e Yard Act, além de muito rock e uma forte e urgente consciencialização política com o tão aguardado regresso de Massive Attack e os muito interventivos IDLES.

Texto: David Pissarro
Fotos: Pedro Sebastião

No terceiro dia do Primavera Sound 2026, os Triángulo de Amor Bizarro foram responsáveis por um dos mais sólidos inícios de tarde do festival. Perante um público com grande presença espanhola, que aguardava ansiosamente a sua atuação no Palco Vodafone, os quatro músicos entraram em cena ao som de uma introdução de piano que rapidamente estabeleceu uma atmosfera mais escura e melancólica. Pouco depois, a tranquilidade inicial deu lugar a uma avalanche sonora – guitarras distorcidas, um baixo poderoso e uma bateria rápida e impiedosa marcaram uma entrada cheia de atitude, apontando imediatamente para territórios próximos do punk e do rock alternativo. O grupo é um dos  mais importantes do rock alternativo oriundos de Espanha nas últimas duas décadas. Formados na Galiza em 2004, o quarteto construiu uma identidade muito própria fundindo shoegaze, post-punk, indie rock e noise rock. Para além da música, a banda destaca-se pelas suas posições sobre temas sociais e culturais, falando frequentemente acerca do preço cada vez mais elevado dos bilhetes para espetáculos e criticando a ideia de que arte e política devem permanecer separadas, uma postura que consideram perigosa e próxima de uma lógica autoritária. À medida que o concerto avançava, a plateia foi-se enchendo sob o sol intenso da tarde. Entre temas mais punk e outros mais shoegaze, foram revelando uma das suas maiores qualidades: a capacidade de combinar diferentes referências sem que a mistura pareça forçada. As vozes alternadas entre a baixista e o guitarrista acrescentavam dinâmica às canções, enquanto o grupo navegava entre a urgência do punk, a melancolia do post-punk, as texturas densas do shoegaze e a energia do rock alternativo, sempre de forma coesa, moderna e extremamente bem executada. Os Triángulo de Amor Bizarro lembram muitas das grandes referências destes estilos. mas sem nunca parecerem uma simples soma de influências. Entre momentos de intensidade esmagadora e passagens mais atmosféricas, a banda ofereceu um concerto que confirmou o seu estatuto como uma das propostas mais relevantes do panorama ibérico atual. Um excelente começo de tarde para este terceiro dia de Primavera Sound, protagonizado por um grupo que continua a demonstrar porque é tão respeitado dentro e fora do seu país de origem.

A viagem deste terceiro dia após passar pela Galiza, dirige-se a Inglaterra, mais especificamente, para Leeds, com os Yard Act. A entrada em palco foi tudo menos convencional. Uma introdução dominada por sopros preparou o terreno para um concerto que revelou desde cedo a riqueza instrumental da banda, a qual explora os timbalões e as madeiras, enquanto o piano desenh acordes atmosféricos antes de uma explosão coletiva. Perante uma plateia cheia, os Yard Act começaram com grande energia, apresentando um som onde as guitarras angulares convivem com um baixo marcadamente funky, o saxofone acrescenta texturas e o piano assume um papel muito mais central. O grupo tornou-se numa das bandas mais interessantes surgidas na vaga recente do pós-punk britânico, construindo rapidamente uma reputação assente numa combinação muito própria de post-punk, indie rock, art rock e spoken word, onde a crítica social e a observação do quotidiano britânico ocupam um lugar central. Liderados pelo carismático vocalista James Smith, os Yard Act destacam-se pela escrita inteligente, pelo humor mordaz e por uma abordagem musical que tanto bebe da tradição britânica como de sonoridades mais contemporâneas. Regressaram ao Primavera Sound Porto 2026 para confirmar porque são um dos nomes mais respeitados da nova geração do rock inglês com James Smith a provar (mais uma vez) porque continua a ser um dos vocalistas mais singulares do rock britânico atual. Com uma presença de palco magnética, conduziu o público através de canções construídas em torno de um storytelling afiado e observador, alternando momentos de declamação quase teatral com passagens mais próximas do rap, como aconteceu a meio do concerto. Por entre reflexões sobre a dúvida, a incerteza e a complexidade do mundo contemporâneo, surge inevitavelmente a crítica social, elemento essencial da identidade dos Yard Act. O pin da Palestina ao peito do vocalista reforçava uma postura artística que não evita posicionamentos nem comentários sobre a realidade que os rodeia. Uma das maiores forças da banda está precisamente na forma como sabe utilizar o espaço e o silêncio. Em vez de procurar intensidade constante, os Yard Act constroem tensão através de pausas, dinâmicas e mudanças subtis, tornando cada explosão sonora ainda mais eficaz. O público respondeu com entusiasmo permanente, incapaz de ficar parado perante estas canções tão bem escritas e interpretadas. A certa altura, a banda comentou que, apesar de o festival ter nascido em Barcelona, é no Porto que ele verdadeiramente ganha vida, arrancando uma enorme ovação da audiência. Foi uma atuação inteligente, intensa e repleta de personalidade, funcionando como uma preparação perfeita para a tempestade sonora que se seguiria com os IDLES.

A união entre Criolo, Dino D’Santiago e Amaro Freitas representou um dos encontros mais ambiciosos e simbólicos do Primavera Sound 2026. Três artistas oriundos de diferentes pontos do universo lusófono, unidos por uma visão musical aberta e profundamente enraizada das suas culturas. O rapper e cantor brasileiro Criolo, uma das vozes mais influentes da música contemporânea brasileira, juntou-se ao luso-cabo-verdiano Dino D’Santiago, figura central da música afro-portuguesa, e ao pianista pernambucano Amaro Freitas, reconhecido internacionalmente pela sua abordagem inovadora ao jazz. O resultado foi um espetáculo que celebrou pontes entre continentes, línguas e tradições, onde apresentaram o seu registo “Criolo, Amaro & Dino”, lançado em janeiro deste ano. Ao final da tarde, perante uma plateia iluminada pelo pôr do sol, o trio apresentou uma viagem musical sem fronteiras. Em palco, uma banda extraordinária dava vida a uma sonoridade rica em detalhes, onde sopros, cordas, piano, vibrafone e percussões dialogavam constantemente. As batidas de matriz africana encontravam-se com harmonias jazzísticas, elementos eletrónicos próximos da house music e canções interpretadas tanto em português como em inglês. A fusão era a palavra de ordem, mas nunca de forma artificial: cada influência surgia naturalmente integrada num discurso musical coerente e vibrante. Ao longo do concerto, as referências multiplicavam-se. Das sonoridades do continente africano às influências orientais que surgiam em algumas passagens instrumentais, o espetáculo parecia recusar qualquer fronteira geográfica ou estilística. Um dos momentos mais marcantes aconteceu quando a viagem sonora chegou a Cabo Verde através do batuque, estilo tradicional associado à resistência e à força coletiva das mulheres cabo-verdianas. Interpretado em crioulo e enriquecido pela instrumentação da banda, esse momento trouxe uma dimensão histórica e emocional particularmente forte, recebida com entusiasmo pelo público. Mais do que um simples concerto, esta colaboração revelou-se uma celebração das múltiplas identidades que compõem o espaço atlântico e afro-lusófono. Criolo, Dino D’Santiago e Amaro Freitas encontraram um equilíbrio raro entre tradição e modernidade, entre dança e contemplação, entre virtuosismo e emoção. Sustentados por uma banda irrepreensível, ofereceram um dos concertos mais ricos musicalmente de todo o festival, transformando-o  num encontro memorável entre culturas, ritmos e histórias.

Após atuações de artistas como Jade e Sudan Archives, Smerz deu continuidade a um dia marcado pela pop e pela eletrónica. Ao cair da noite, o Palco Zyn recebeu o duo, que se apresentou acompanhado por baterista e baixista. O concerto começa de forma desarmante, apenas com bateria e vozes, estabelecendo desde logo a atmosfera contida e misteriosa que marcou toda a atuação. Um baixo pesado acrescentava profundidade e energia às canções, enquanto pequenos objetos espalhados pelo palco — saltos altos, uma carteira a tiracolo usada durante algumas músicas e um copo de vinho branco pousado junto aos sintetizadores — ajudavam a revelar fragmentos do universo particular das artistas. Smerz é um duo norueguês de eletropop formado em 2016 por Catharina Stoltenberg e Henriette Motzfeldt. Ao longo da última década, as duas artistas afirmaram-se como uma das propostas mais interessantes da pop eletrónica europeia, construindo uma identidade sonora muito própria, onde convivem minimalismo, experimentação e canções de grande sensibilidade melódica. Depois de vários anos de crescente reconhecimento internacional, regressaram a Portugal para atuar no Primavera Sound Porto 2026, poucos meses após a sua passagem pelo B.Leza, em Lisboa, no final do ano passado. A improvisação teve também um papel importante, sobretudo através da bateria, que frequentemente desviava as canções dos seus percursos previsíveis. Ainda assim, tudo acontecia dentro de uma estética de enorme contenção. “Obrigado, Porto, estamos felizes por apresentar a Big City Light Experience”, disseram antes de apresentarem os restantes membros da banda. Sentadas ao piano e ao sintetizador, Stoltenberg e Motzfeldt encontraram um público que conhecia as letras de cor. Aqui, o valor estava na elegância e delicadeza: não havia espaço para vozes excessivamente agudas nem para solos exuberantes. A música de Smerz parece pedir silêncio e atenção, mantendo-se calma até deixar de o ser. Entre canções melancólicas, memórias, nostalgias e histórias de amor, a plateia dançava, abraçava-se e partilhava um ambiente de evidente cumplicidade. Foi um concerto bonito e íntimo, onde a subtileza falou mais alto do que qualquer espetáculo de virtuosismo, confirmando Smerz como uma das propostas mais singulares e cativantes do cartaz deste ano.

Um dos concertos mais antecipados de todo o festival reuniu milhares de pessoas perante o palco Estrella Damm. A multidão estendia-se até onde a vista alcançava, consciente de que não estava apenas perante um espetáculo musical, pois, desde os primeiros instantes, percebeu-se que a componente visual assumiria um papel central, ou não fosse este um concentro dos Massive Attack. Formados em Bristol no final dos anos 1980 por Robert “3D” Del Naja, Grant “Daddy G” Marshall e Andrew Vowles, o coletivo britânico foi pioneiro na criação do trip-hop, fundindo hip-hop, eletrónica, dub, soul e rock numa linguagem musical singular. Ao longo das décadas tornaram-se numa das bandas mais influentes, estatuto que se mantém até aos dia de hoje. Ao longo da sua carreira, os Massive Attack construíram uma obra profundamente política e socialmente consciente, onde a música serve frequentemente como veículo para refletir sobre guerra, desigualdade, vigilância e direitos humanos. No Primavera Sound Porto 2026, essa dimensão esteve mais presente do que nunca.
Camisolas alusivas à invasão do Líbano em 1982, mensagens políticas e projeções constantes sobre conflitos armados, ataques militares e crises humanitárias transformaram o concerto numa poderosa experiência de consciencialização social. Frases como “Bem-vindos à cadeia de mortes” surgiam nos ecrãs enquanto a banda iniciava a atuação com “Risingson”, uma canção que continua a questionar a realidade, a perceção e a própria identidade de quem observa o mundo à sua volta. Ao longo de toda a atuação, as projeções surgiram integralmente em português, um detalhe que demonstrou a preocupação da banda em garantir que a mensagem chegava de forma clara ao público. Enquanto se ouviam temas como “Black Milk”, acompanhada pela voz etérea de Liz Fraser, os ecrãs exibiam entrevistas, dados sobre conflitos internacionais e reflexões sobre a sociedade contemporânea. Um mapa-mundo mostrava a localização de satélites de vigilância detidos por capital privado; noutra sequência, surgia a pergunta: “O K-pop nasceu do protesto como movimento de resistência. Trinta anos depois, perdeu a música a sua força política?”. Outra mensagem afirmava que “a repressão dos artistas e do protesto andam de mãos dadas, por desenho, não por acaso”, mostrando a dimensão de controlo e opressão dos regimes. Pelo meio, 3D dirigiu-se ao público em português, enquanto Horace Andy voltava a demonstrar porque continua a ser uma peça essencial na identidade sonora dos Massive Attack, em temas como “Girl I Love You” e mais à frente, o clássico “Angel”. Deborah Miller foi também uma peça fulcral neste concerto, cantando duas músicas icónicas do primeiro registo do grupo, “Safe From Harm” e “Unfinished Symphony”. Houve ainda espaço para momentos de grande beleza, como a interpretação por parte de Liz Frazer da “Song to the Siren”, original de Tim Buckley, lembrando os tempos de This Mortal Coil, mas nunca se perdeu o foco da mensagem principal. A banda manifestou solidariedade para com os Kneecap, os Fontaines D.C. e todos os irlandeses que continuam a erguer a sua voz em protesto. O público correspondeu com uma atenção rara para um festival desta dimensão, respeitando os momentos de silêncio e absorvendo cada palavra e cada imagem. Mais do que um concerto, foi um exercício de ativismo artístico e um poderoso apelo à reflexão. Num festival repleto de grandes atuações, este foi provavelmente o espetáculo mais importante, aquele que não apenas entretém, mas que desafia quem o vê a olhar para o mundo de forma diferente, trazendo para milhares de pessoas questões desconfortáveis para muitos, mas de uma importância extrema para o mundo moderno.

Mal terminou o concerto dos Massive Attack, uma verdadeira maré humana atravessou o recinto em direção ao palco Vodafone para o outro concerto mais antecipado do dia, IDLES. O resultado foi uma das maiores enchentes de todo o festival para assistir a uma atuação que prometia intensidade do primeiro ao último minuto. A banda não demorou a cumprir essa promessa, entrando em palco com uma energia avassaladora que já se tornou na sua imagem de marca. Também eles nascidos em Bristol, Inglaterra, em 2009, os IDLES tornaram-se numa das bandas mais importantes do post-punk contemporâneo. Liderados pelo carismático Joe Talbot, construíram a sua reputação através de concertos intensos e de uma discografia marcada por comentários sociais, crítica política e uma energia quase inesgotável. Ao longo da última década, afirmaram-se como uma das referências do rock britânico moderno, conquistando uma base de fãs fiel graças à combinação entre agressividade sonora, músicas cativantes e viciantes, vulnerabilidade emocional e uma forte presença em palco. O alinhamento percorreu vários dos momentos mais emblemáticos da carreira do grupo, transformando a plateia num oceano de corpos em movimento. Os mosh pits sucediam-se sem descanso, cada vez maiores e mais caóticos, enquanto milhares de pessoas saltavam em uníssono ao som dos riffs abrasivos e das palavras de ordem lançadas por Joe Talbot. Apesar de já ser uma performance familiar para quem acompanha a banda, a capacidade dos IDLES para gerar comunhão coletiva continua a impressionar. Há poucos grupos capazes de mobilizar uma multidão desta dimensão com tamanha facilidade. Num dos momentos mais marcantes da noite, Talbot evocou Chuck D, dos Public Enemy, recuperando a ideia de que “It’s time to take the power back”, numa intervenção que rapidamente se transformou num comentário à atualidade política e económica. O vocalista referiu-se também ao surgimento do primeiro trilionário da história, Elon Musk, reforçando o tom crítico que sempre acompanhou a banda. Entre música, catarse e comentário social, os IDLES ofereceram mais um concerto explosivo e memorável, confirmando porque continuam a ser uma das forças mais relevantes e eletrizantes da música ao vivo contemporânea.

Para terminar o terceiro dia do festival e o último concerto desta noite, sobe a palco uma das bandas mais entusiasmantes da nova vaga da música alternativa norte-americana, Model/Atriz. Oriundos de Brooklyn, Nova Iorque, cruzam pós-punk, industrial, noise rock e música eletrónica numa proposta difícil de catalogar, mas impossível de ignorar. Depois de um concerto memorável no MEO Kalorama, regressaram a Portugal para encerrar o Primavera Sound Porto 2026 no palco Primavera, e a expectativa era enorme. Ainda assim, conseguiram superá-la. Desde os primeiros segundos percebeu-se que este não seria um concerto convencional, mas sim uma libertação total, repleta de dança e emoção. O grupo, liderado pelo vocalista Cole Haden, construiu uma identidade artística profundamente marcada por temas de vulnerabilidade, desejo, dor e libertação pessoal, frequentemente explorados através de uma perspetiva queer.  A sua presença magnética captava inevitavelmente todas as atenções, mas seria injusto ignorar o trabalho impressionante do resto da banda. Por trás do caos aparente estava um instrumental meticulosamente construído, onde eletrónica, punk e industrial coexistiam numa tensão permanente. Os silêncios e pausas surgiam nos momentos certos, amplificando o impacto das explosões sonoras que se seguiam e tornando cada canção ainda mais intensa. Com Cole entrando constantemente plateia adentro, qualquer barreira entre banda e público desapareceu, Depois da descarga de energia proporcionada pelos IDLES, o Palco Primavera transformou-se num autêntico dancefloor. Corpos em movimento constante, gritos, dança e uma sensação de libertação atravessaram toda a atuação. Havia algo de rave, algo de concerto punk e algo de performance artística em simultâneo. Noise, irreverência e humor coexistiam com temas profundamente pessoais. Canções como “Glassman” ganharam uma dimensão especial ao vivo, revelando toda a carga emocional que atravessa o repertório da banda. Por baixo da intensidade física existe sempre uma mensagem poderosa. As canções dos Model/Actriz falam frequentemente de dor, aceitação e sobrevivência, transformando experiências difíceis em momentos de compreensão coletiva. Quando Haden repetiu “You don’t, you don’t have to submit”, condensou em poucas palavras o espírito de toda a atuação: uma celebração da liberdade, da autenticidade e do direito a ser quem se é. Foi um encerramento perfeito para o festival, daqueles concertos que justificam por si só a presença num evento. Se houver oportunidade de ver os Model/Actriz ao vivo, a recomendação é simples: nunca a desperdiçar.

Triângulo de Amor Bizarro

Yard Act

Criolo, Dino D’Santiago e Amaro Freitas

Smerz

Massive Attack

IDLES

Model/Atriz

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