“Ponto Morto”: uma travessia emocional entre pai e filho chega a Lisboa
O espetáculo Ponto Morto, escrito por Hélio Sussekind e agora encenado por Camilo Bevilacqua, estreia em Lisboa com os atores Daniel Martinho e Danilo da Matta. A peça, já premiada no Brasil, propõe uma travessia sensível entre Brasil, África e Portugal, explorando relações familiares, comunicação e os limites do amor.
“Ponto Morto tem essa coisa de travessia, sabe? Quando finalmente houve condições — gente certa, espaço certo — eu pensei: agora vai. Foi isso. Não foi estratégia, foi caminho.” — Camilo Bevilacqua
Da motivação à adaptação
Bevilacqua já havia montado a peça em São Paulo, mas sentiu que ela podia existir em outros lugares: “Eu venho muito para Portugal, fico cá meses, tenho laços aqui. Então comecei a falar com o Hélio Sussekind, que é meu amigo há muitos anos, e ele sempre dizia que a peça não era só brasileira — que podia viajar, que podia ganhar outras camadas.” Um dos primeiros desafios foi adaptar o texto do português do Brasil para o português de Portugal: “Eu pedi aos atores para transformar o texto palavra por palavra. Assim eles entraram nele. E o texto entrou neles.” Outra diferença perceptível foi a abordagem do elenco: “No Brasil, o ator arrisca, experimenta, fala antes de perguntar. Aqui senti mais contenção, uma certa formalidade. Tive de criar confiança para que percebessem que estavam autorizados a inventar. A partir do momento em que isso aconteceu, tudo fluiu.”
A travessia emocional
Embora a peça dialogue com três geografias, o essencial é emocional: “Essa travessia está menos na geografia e mais no corpo. São territórios afetivos. Cada ator traz uma história, uma pulsação, uma maneira de habitar o silêncio. Ponto Morto não fala de países — fala de deslocamentos internos.” No centro da narrativa estão Humpty e Dumpty, pai e filho cuja comunicação é marcada pela incomunicabilidade: “É uma relação sem solução. O pai ama, mas não sabe cuidar. O filho precisa, mas não sabe comunicar. Não existe uma língua comum entre eles. Há carinho, há irritação, há repetições, há perguntas absurdas que ferem porque não têm saída.”
Silêncio, gesto e som
A peça explora o corpo e o silêncio antes da palavra: “Eu pensava que ia trabalhar muito mais o gesto. Mas, quando mergulhei na relação dos personagens, percebi que eles precisavam falar — não para se entender, mas para tentar. Mesmo assim, deixei espaços de silêncio.” O trabalho físico foi informado por conversas com profissionais que lidam com autistas: “Cada gesto carrega pesquisa, contenção, desajuste, responsabilidade.” O som também segue essa lógica: “O primeiro som não é música — é um modo contínuo, quase um motor mental. Os sons são electrónicos, metálicos, como se viessem da cabeça do Dumpty. Quando ele está só, ouvimos aquilo. É o pensamento dele que faz barulho.”
Humor, absurdo e fábula
Apesar da intensidade dramática, a peça contém humor e absurdos: “O humor nasce do desencontro. Quando o filho pergunta coisas absurdas, aquilo não é graça — é desespero. É a única linguagem que ele tem para existir. O pai tenta responder, mas não consegue. Esse desencontro cria humor — mas é um humor que arranha.” Outros elementos fantásticos reforçam a fábula: “Há a história da galinha e da raposa, que parece infantil, mas é crueldade pura. É sobre medo e sobrevivência. No final, quando ele pede ao pai que lhe quebre as pernas, já estamos no território do impossível lógico. Não é metáfora. É desespero literal.”
Espaço como personagem
O Teatro Ibérico potencializa a encenação: “Eu sempre imaginei esta peça num espaço que permitisse movimento real — uma caminhada. O Ibérico surpreendeu-me. É uma igreja, tem paredes que contam histórias, e a plateia olha de um ponto que permite ver o trajeto dos atores. Ali, a floresta existe mesmo sem árvores. O espaço faz parte da narrativa. Não é cenário — é personagem.”
A intensidade dos atores
Daniel Martinho (Humpty) e Danilo da Matta (Dumpty) mergulharam na complexidade emocional:
Daniel: “Tudo começou pelo convite e pelo texto. Há ali uma densidade complexa que nos obriga a decifrar o que está escrito. Senti logo uma aproximação, porque tenho familiares com este tipo de condição. Isso tornou o tema atual, próximo, urgente.”
Danilo: “O que é interessante e desafiante é a tragédia que existe na incapacidade destas duas figuras serem aquilo que, supostamente, deveriam ser. Isso não se inventa, não se força — está lá. O desafio é respeitar esse lugar.”
A relação entre pai e filho é intensa e vulnerável:
Daniel: “Sou pai. Isso muda tudo. A peça trouxe-me um ‘traquejo’ que aplico fora do palco. Às vezes questiono-me: será que quem se diz normal é realmente normal? O texto amplifica esta condição, obrigando-me a lidar não só com o personagem, mas com a minha própria vida.”
Danilo: “Há uma ‘mão invisível’ que continua a empurrar estas duas pessoas — mesmo quando já não há lógica para continuarem juntos. Há beleza nessa tragédia: como é que, apesar de tudo, continuam?”
Silêncio, gesto e travessia física
Danilo: “Esta figura está sempre a comunicar, mesmo quando parece calado. Às vezes é um gesto, um som, uma repetição. Ele precisa estar em contacto com o que o rodeia, nem que seja através de um tique, de um som, de uma ação repetitiva.”
Daniel: “No meu caso, os familiares que conheço são muito fechados, silenciosos, presos à rotina. Aqui, tive de experimentar outra lógica, porque este personagem fala — fala muito — e isso obrigou-me a aprender uma nova forma de relação.”
A viagem física simboliza a travessia emocional: “O texto já traz as indicações: floresta, cidade, percurso. É como se tivesse sido escrito para não haver descanso. Cada marco carrega um obstáculo diferente. Não é só caminhar: é atravessar. E atravessar implica perder coisas pelo caminho.”
Intensidade e entrega total
Daniel: “Ponto Morto não tem cenas de repouso — tudo exige intenção, rigor e presença. Cada silêncio, cada gesto tem peso. Há momentos em que estou a construir uma cena e o Camilo propõe o oposto. Isso obriga-nos a desapegar, a recomeçar e a confiar.”
Danilo: “São quase oitenta páginas sem alívio, onde não há um segundo de desconexão. Estás sempre em palco, sempre a reagir, sempre a falar. É hiperviolento. É intenso. Não há parte fácil. Não há momento morto. É a peça inteira.”
Amor, limites e universalidade
Camilo Bevilacqua: “A peça mostra um amor que não resolve nada. Somos educados a acreditar que o amor basta. Aqui não basta. O pai ama o filho, mas não consegue lidar com ele. O filho precisa do pai, mas não tem ferramentas para comunicar. É um amor que falha na prática — não por falta de intensidade, mas por falta de linguagem.”
Daniel: “Vejo isto na vida real. Há famílias exaustas, pais que orbitam em torno de uma criança como se ela fosse o Sol — e eles, planetas. Isso está na peça.”
A peça é universal: “Pai e filho existem em qualquer língua — e a falha de comunicação entre eles também. Pode acontecer em Lisboa, São Paulo, no deserto ou numa sala de estar.”
Para o público
Daniel: “Representar uma obra que lida com o invisível acontece no espaço da comunicação. Não damos soluções — levantamos questões. A peça não fecha nada, porque nas relações humanas não existem respostas exatas para todos os casos. Cada pessoa retira o que fizer sentido para si.”
Camilo Bevilacqua conclui:“A peça transforma o quotidiano em fábula. Convida o público a entrar na floresta devastada dos personagens, atravessando com eles os territórios do desespero, da incomunicabilidade e da ternura.”
Teatro Ibérico em Lisboa
Até 21 de dezembro