Placebo no Coliseu dos Recreios

Por muito que alguns queiram negar, há casamentos perfeitos. Quais? Por exemplo, aquele que há vários anos contraímos com os Placebo, relação que, apesar da distância, vive de momentos inesquecíveis, como aquele que aconteceu ontem no Casino dos Recreios.

Concertos a meio da semana implicam sempre uma logística complicada, pois entre reuniões, fecho de páginas e entrega de artigos, é ainda preciso arranjar “asilo politico” junto dos avós, maravilhosos e sempre prontos, para receber o mais jovem membro Look Mag…ah e é preciso jantar! Resolvida a primeira questão, era tempo de descer a Avenida da Liberdade, estacionar a viatura e arranjar alguma coisa para, digamos, degustar…bom, degustar não será a palavra mais acertada, pois o que aconteceu foi o “engolir”, literalmente, de uma bifana, para, à hora previamente marcada pelo promotor do concerto, nos apresentarmos no lobby do Coliseu dos Recreios. Faltavam 15 minutos para a entrada em palco da banda de abertura, os Oso Leone, pelo que já não apanhámos as extensas filas de fãs que se aglomeravam pelas Portas de Santo Antão.

Já dentro da sala do Coliseu demos de caras com uma multidão, relembremos que o concerto estava esgotado, à semelhança do que tinha acontecido na noite anterior no Porto. Gente nova e menos jovem, que, rapidamente percebemos, tinha vindo das mais variadas zonas do país para assistir ao regresso a Lisboa dos Placebo. Não visitavam terras lusitanas desde a edição de 2009 do agora Nos Alive, onde foram protagonistas de um dos momentos mais altos do festival. Na altura, vinham promover o registo discográfico “Battle For The Sun”, sendo que agora traziam como pretexto o, ainda podemos dizer, recente, “Loud Like Love”.

Remonta aos anos 90 a nossa história de amor com os Placebo (banda formada em 1994), sendo que eles próprios serviram de banda sonora a outra história de amor que conta já com 18 anos de vida… Ao longo dos anos, a nossa relação com a banda oriunda de Londres nem sempre foi a mesma, pois, como qualquer outro relacionamento, tem altos e baixos, mas a verdade é que a cada reencontro a mesma se revela sólida e com futuro.
Vieram a Lisboa encerrar a tournée que os levou um pouco por toda a Europa e foi aqui, na terra do fado, que viveram mais um episódio apoteótico de inegável sucesso. Nada que certamente os surpreenda pois já por cá passaram mais de duas mãos cheias de vezes. Com duas décadas de vida e sete discos lançados, a banda do vocalista Brian Molko continua a deixar saudades, pelo que cada concerto seu quase soa a reencontro.

A preceder a entrada dos músicos, ouviu-se no Coliseu uma mistura musical entre “Svefn-g-englar”, dos islandeses Sigur Rós e “Pure Morning”, dos Placebo. As luzes apagam-se e, de olhos pregados no palco, damos conta da entrada de seis músicos, pois, aos três a que estamos habitados, juntam-se nesta tournée os sons do violino e dos teclados. A coisa prometia!

E se prometeu, melhor o cumpriu, pois o que aconteceu a seguir foi um desfilar de canções interpretadas pela imaculada voz de Brian Molko (abençoadamente ele próprio muito bem conservado), num misto de novos temas, como «For What It’s Worth» e «Loud Like love», intercalados com canções elas próprias donas de uma vida quase autónoma, como «Every You Every Me», do álbum “Without You I’m Nothing” (1998) e «Meds» e «Song to Say Goodbye» do registo de 2006, “Meds”. Num concerto que de revivalista teve pouco (aqui confessamos alguma pena por esse facto), os Placebo optaram pela apresentação de temas mais recentes, o que, obviamente, não pode deixar ninguém espantado pois a intenção era mesmo promover o mais recente registo discográfico “Loud Like Love”, o qual deu, inclusive, nome à tournée.

Bastante mais comunicativo do que o habitual, Brian Molko mostrou-se verdadeiramente contente com a receção que estava a ter em Lisboa, aproximando-se várias vezes da beira do palco de onde olhava com evidente satisfação para os milhares de pessoas que ali estavam apenas por um motivo; vê-lo e ouvi-lo a ele!
De “Black Market Music” (2000) chegaria «Special K», tema gerador de um forte entusiasmo por parte do público, o qual não esmoreceu, antes pelo contrário aumentou com «The Bitter End», do registo discográfico “Sleeping with Ghosts” lançado em 2003, que terminou numa saída de palco apoteótica de Molko e restantes músicos.

Para o encore estavam guardados mais quatro temas, sendo a honra de abertura dada a «Begin the End», de “Loud Like Love” e a de encerramento a «Infra Red», de “Meds”. Pelo meio ouviu-se a interpretação de Molko do tema «Running Up That Hill», um original de Kate Bush lançado como primeiro single do álbum “Hounds of Love” de 1985, e «Post Blue», do sempre bem-vindo e celebrado “Meds”.

Deixando de parte possíveis quezílias sobre o alinhamento, a verdade é só uma: os Placebo vieram a Lisboa neste ano de 2014 dar um grande concerto que quem lá esteve não vai esquecer. Pela nossa parte, garantimos o fortalecimento da nossa relação com a banda londrina, a qual, apesar de hoje já não fazer parte das nossas cinco bandas indispensáveis (tirando os seus três primeiros álbuns) continua a ocupar um lugar de destaque no nosso coração e na nossa coleção de discos, e para nós isso basta!

Não eram novidade para nós que já nos tínhamos cruzado com eles a Norte no último mês de Agosto aquando da sua atuação no Vodafone Paredes de Coura (https://lookmag.pt/blog/vodafone-paredes-de-coura-2014-dia-ii/). A curiosidade era perceber como se aguentavam os espanhóis numa sala como o Coliseu, cheia de fãs de outra banda. A resposta? Aguentaram-se lindamente, trazendo à sala de concertos lisboeta um set bastante rico, demonstrativo da sua excelente qualidade musical. Na base da setlist traziam o registo discográfico “Mokragora”, que, lançado em 2013, tem ainda muitos trunfos e muita vida para viver. Composições onde se nota, e bem, a presença do rock progressivo deixaram quem não os conhecia com vontade de descobrir mais sobre eles.

Texto: Sandra Pinto
Fotos: Luís Pissarro

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