Peter Murphy o regresso de “King Volcano”

Há artistas que nos habituamos a que façam parte da nossa vida. Com eles partilhamos momentos de alegria, de tristeza. É para eles que muitas vezes olhamos em busca de conforto ou alento. Peter Murphy é um deles. Primeiro com os Bauhaus e depois a solo, a verdade é que a sua voz nos acarinha as emoções desde a década de 80. Se isto não é ser da família, então não sei o que será.

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Com 58 anos de idade, o rei do pós-punk mostrou com que matéria se faz um ídolo, fazendo, para tal, desfilar pela sala de espetáculos lisboeta um alinhamento de luxo.

Trajando de negro sobe ao palco com a elegância de sempre. Ao longo do concerto o seu corpo apresenta uma linguagem corporal que, de tão caracteristicamente sua, continua a encantar. Os braços flutuam como que querendo elevar a matéria num voo rasante pleno de emoções e liberdade.

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Liberdade… palavra que em Murphy ganha toda uma força. Liberdade da voz que se apresenta quase imune ao passar dos anos, liberdade do espírito que permanece solto e indomável. Este regresso a Lisboa, agendado para uma Aula Magna esgotada, anunciava um concerto diferente, mais acústico, mais intimista. Na verdade assim foi, mas não tanto ao ponto de não nos fazer quase saltar da cadeira e dançar… num anseio como se não quiséssemos que o amanhã chegasse. O mesmo anseio com que há muitos anos tínhamos a ilusão de que o tempo não passaria, de que seriamos jovens e felizes para sempre…

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Peter Murphy e as trevas são nossas outra vez

A última vez que nos tínhamos cruzado com Peter foi quando há três anos o vimos no Coliseu de Lisboa. Poderoso e dominador, trouxe naquela altura o poder do lado mais negro do rock, aquele que na década de 80 inspirou góticos e vanguardas. Agora, trouxe com ele o poder da voz e a força de ser uma figura incontornável da música alternativa. Com 58 anos de idade, o rei do pós-punk mostrou com que matéria se faz um ídolo, fazendo, para tal, desfilar pela sala de espetáculos lisboeta um alinhamento de luxo, no qual homenageou David Bowie, com a interpretação de “Bewlay Brothers”, e relembrou os saudosos Bauhaus. Aliás, foi a sombra intensa e obscura da sua antiga banda que nos envolveu a todos através das imortais notas de músicas como “All We Ever Wanted”, “She’s in Parties” ou “Silent Hedges”.

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Acompanhado de três músicos, no baixo/violino, guitarra e bateria, Peter Murphy foi dando a volta ao som que, para nosso espanto, com pouca qualidade se apresentou, melhorando ao longo do concerto. A verdade é que para muitos tal pouco importava, pois a fixação do olhar recaia única e exclusivamente no Príncipe das Trevas, que nascido a 11 de julho de 1957, na cidade de Northampton, no Reino Unido, veio ao mundo para nos encher os sonhos de uma crença negra e sombria num mundo à parte onde só entram os eleitos.

Um nó na garganta aos primeiros acordes de “Strange Kind of Love” onde o timbre da voz de Murphy penetra pelos nossos ouvidos num intenso eco de pedaços de memória, desejo e desilusão.

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Com um público composto em grande parte por fãs que agora se encontram na faixa dos 40 anos, tal como nós, tivemos por companhia um fã iniciado de 13 anos que, mais do que à música se espantava à voz e à intensa presença física de Peter. Sinal de que a aura está para continuar e para cativar as futuras gerações de melómanos.

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Redenção de uma juventude passada, do alinhamento fizeram parte “Indigo Eyes”, “Cuts You Up”, “All Night Long” e “Marlene´s Dietrich Favourite Poem”, que, tal os espinhos da rosa que trazia presa no braço, se espetavam no nosso coração e despertavam emoções há muitos adormecidas…
Um nó na garganta aos primeiros acordes de “Strange Kind of Love” onde o timbre da voz de Murphy penetra pelos nossos ouvidos num intenso eco de pedaços de memória, desejo e desilusão.

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Já em tempo de encore, o primeiro da noite, “Lion” e “Hollow Hills” faziam antever o fim da viagem pelo reino da memória e pela história de um artista que marcou a ferro e fogo o seu lugar na música alternativa influenciando tantos outros que nas suas letras vão, ainda hoje, buscar inspiração para criar.

A cada canção, uma corrente de sangue vermelho, quente e intenso, tal como as pétalas da rosa que Peter Murphy trazia presa no braço e que no final nos foram oferecidas em memória de uma época e em nome de um amor.

Sem que ninguém arredasse pé ou parasse de bater palmas, Peter Murphy regressa a palco para dar por finalizada a noite. Com ele trazia duas emblemáticas canções que ali, cantadas em conjunto com os fãs, se apresentaram como hinos absolutos de um país onde só nós somos aceites e onde “King Volcano” abre as portas aos eleitos. Primeiro “Cool Cool Breeze”, interpretada a capella, e depois aquela canção que nos rasga as entranhas tal como a faca de que fala a sua letra, “I’ll Fall With Your Knife”.

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Foi assim, de olhos nos olhos, e sem pestanejar, que nos reencontrámos com ele. De peito aberto onde, a cada canção, brotava uma corrente de sangue vermelho, quente e intenso, tal como as pétalas da rosa que Peter Murphy trazia presa no braço e que no final nos foram oferecidas em memória de uma época e em nome de um amor.

Texto: Sandra Pinto
Fotos: Luís Pissarro

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