Peter Murphy e Bauhaus: 40 anos de uma gótica história de amor

Depois de uma passagem por Vilar de Mouros, o músico britânico regressou a Portugal para celebrar os 40 anos da mítica banda da qual foi fundador.

Ao contrário do que aconteceu aquando da gravação de “In The Flat Field”, em 1980 pela mão da editora 4AD, em palco não estavam os quatros magníficos de então, mas apenas dois, Peter Murphy e David J. Agora, quatro décadas depois no lugar de Daniel Ash e Kevin Haskins estavam, respectivamente, Mark Thwaite, guitarrista que já pertenceu aos Spear of Destiny e The Mission, e o baterista Marc Slutsky.

A noite, chuvosa e fria, deu o mote certo a um ambiente carregado de negro que invadiu uma LX Factory pouco habituada a este género de clientela. Se aquando do anúncio do espaço do concerto até nós estranhámos a escolha, a verdade é que depois de entrarmos na sala das colunas tudo fez sentido. De pendor claramente industrial, este foi, de facto, o palco certo para receber os deuses do gótico neste regresso tão ansiado pelas muitas centenas de fãs que encheram por completo a lotação.

Na base do concerto o primeiro registo discográfico da banda, cujo alinhamento, para gáudio dos fãs, foi seguido à risca. “Double Dare” serve de aperitivo para a entrada de um sexagenário Peter Murply em perfeita forma. A barba grisalha, a lembrar um Dom Quixote gótico, lembra que o tempo passa por todos nós, até pelos nossos ídolos, mas quando começa a cantar rapidamente percebemos que os deuses têm sido generosos com Murphy pois o timbre que lhe reconhecemos como único desde há tanto tempo está lá, intocável, perfeito e intenso.

Tal como no disco o concerto prossegue com “In the Flat Field”, “God in Alcove” e “Dive”. Peter Murphy não pára, percorre o palco como que querendo tocar todos e cada um dos fãs que não despregam dele os olhos, seja de forma directa ou através dos ecrãs dos telemóveis que muitos, demasiados, seguram na tentativa de imortalizar o momento.

Fundados em 1978, os Bauhaus foram a primeira banda de rock gótico, cujo som sombrio e melancólico encontrou na voz de Peter Murphy o match perfeito. Tendo lançado um primeiro single em Agosto de 1979, o ainda hoje adorado “Bela Lugosi’s dead” cujos nove minutos de duração foram à época considerados uma perfeita loucura, a banda embarca na elaboração de um álbum o qual vê a luz do dia um ano depois. Pouco acarinhado pela imprensa mais tradicional, “In The Flat Field” caiu no goto dos meios mais undergroud, tendo John Peel, o reconhecido radialista britânico chamado a banda para gravar uma das suas famosas sessions, mais concretamente a John Peel Session I, no dia 04 de dezembro de 1979.

O alinhamento da noite segue com “St. Vitus Dance” e “Stigmata Martyr”, profundas e negras como que a relembrar todos que é esta a essência do gótico, é esta alma dos Bauhaus com um Murphy a carregar nos ombros a cruz, ou melhor, o microfone recebendo sobre o rosto um foco de luz que uma maior intensidade teatral traz a toda a cena. Segue-se a intensidade de “Silent Hedges” à qual sucede a supra referida “Bela Lugosi’s Dead”. Dona de uma força impressionante, esta é a canção que inunda os nossos ouvidos, percorre o nosso corpo e alimenta a nossa alma. É ela a herança viva da mais profunda imortalidade do gótico. Murphy conta com a colaboração do público que alinha no refrão enquanto ele nos traz à memória a estrela do cinema de terror Béla Lugosi (1882-1956) que, em 1931, daria vida à imagem do vampiro moderno no filme “Drácula”.

“Kick in the Eye” foi a senhora que se seguiu, ladeada por “She’s in Parties”, que contou com a participação de um músico oriundo do Gana que a banda conheceu no avião, e “Passion of Lovers” a perfeita canção de amor gótico. O fim chega com “Dark Entries”.

Mas a emoção não se ficou por aqui, pois nos dois encores que se seguiram a magia voltou a acontecer sob a forma da incrivelmente bela “Severance”, dos Dead Can Dance, o glam de “Telegram Sam” dos T-Rex e o imortal “Ziggy Stardust” do nosso adorado David Bowie numa lindíssima homenagem de Murphy a uma das pessoas que mais o influenciaram, como já tinha acontecido em 1982, data em que a cover catapultou os Bauhaus para as famosas tabelas de então permitindo a ida da banda à televisão ao famoso programa Top of the Tops.

Se recordar é viver, o que ali se viveu foram mais do que recordações. Foi a partilha de um sentimento que nos unia enquanto jovens adolescentes e que agora se transmite às gerações seguintes. Pela nossa parte o testemunho está bem entregue.

Texto: Sandra Pinto
Fotos: Luís Pissarro

You May Also Like

As 15 melhores músicas de 2018 by Filipa Moreno

WoodRock Festival anuncia 7.ª edição

Festival Laurus Nobilis 2019 apresenta cartaz

IDLES no Lisboa ao Vivo e a luta continua