Peter Hook and The Light no Misty Fest: o dia em que o CCB virou The Hacienda

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Há bandas cuja simples nomeação do seu nome transporta as memórias de cada um de nós para um lugar longínquo, um lugar onde já fomos felizes e ao qual gostávamos de regressar. Isto acontece com os Joy Division e pela mão do seu baixista, Peter Hook, regressámos a Manchester e aos anos 80 num concerto que encheu de alma o Centro Cultural de Belém.
Apresentado como um concerto de celebração à banda, com o alinhamento pré definido, pois todo ele assentaria, sobretudo, nos dois únicos registos gravados, “Closer” e “Unknown Pleasures”, a vinda de Peter Hook a Lisboa revestiu-se de uma certa solenidade.

De ar bastante descontraído, Peter Hook arranca com “Atmosphere”, logo seguido de “No Love Lost”, “Leaders of Men” e “Digital”. Quem olhasse para a sala estranharia ver toda a gente sentada, mas se observasse atentamente a fisionomia de cada um dos presentes percebia claramente que não ia ser assim por muito tempo, pois as cabeças não paravam de abanar, as mãos de mexer e os pés de bater no chão, tudo ao ritmo e compasso de cada uma das músicas.

Formados em 1976, na cidade de Manchester, os Joy Division tiveram uma vida efémera a qual terminou abruptamente no dia 18 de maio de 1980 com o suicídio do vocalista, Ian Curtis. Nos quatro anos de existência, a banda de Ian Curtis, Bernard Sumner, Stephen Morris e Peter Hook, deu vida a um conjunto de canções que não só se viriam a transformar em verdadeiros ícones, como iriam influenciar um sem número de bandas e músicos, facto até hoje percetível.

Com a sala praticamente esgotada percebemos que eram muitos os que ansiavam por uma noite assim. Entre eles muitos que viveram aqueles anos e que no concerto do CCB se fizeram acompanhar pelos filhos. Na verdade, eram bastante os sub-30 que se encontravam no público e que durante o concerto mostraram ser verdadeiros fãs da banda de Manchester, como foi o caso do casal com quem nos cruzámos à saída e que, cada um com a sua setlist religiosamente guardada, mostravam sinais evidentes de felicidade quando lhes perguntámos se tinham gostado, “então não? foi maravilhoso!”

Em cima do palco os músicos que acompanharam Peter Hook nesta aventura mostraram saber bem do assunto, tal a qualidade com que nos brindaram em temas como “Disorder” (titulo que quase antecipava o que se iria passar a seguir no CCB), “Day of The Lords” e “Candidate”, as três primeiras músicas de “Unknown Pleasures”, o primeiro álbum de originais da banda lançado em 1979. Curiosamente, a edição original do trabalho não trazia qualquer referência aos lados A e B, opção que surge apenas aquando da reedição em CD. A capa icónica mostra, numa imagem sugerida por Bernard Sumner, as ondas de uma estrela (captadas por um medidor de pulsos) na hora da morte, enquanto que na contracapa surge a frase para sempre identificada com a banda, “isto não é um conceito, é um enigma”.

Dono desde sempre de um estilo muito característico de tocar, Hook era acusado de tocar o baixo como se o fizesse a solo e não no seio de uma banda. A verdade é que o seu estilo ficou como uma marca nos Joy Division e, posteriormente, nos New Order, banda que fundou juntamento com Bernard Sumner após a morte de Curtis. No CCB pouco tocou, verdade seja dita, incidindo quase toda a atenção na função de vocalista (de referir que no baixo estava Jack Bates).

Passado que foi um certo embate e desconfiança entre Peter e o público, era tempo de as emoções começarem efetivamente a tomar conta da noite e isso teve um crescendo com “Insight” e “New Dawn Fades”, adquirindo uma força incontrolável com “She’s Lost Control”, música que deu início, à que foi para nós, a segunda parte do concerto.

Se já todos estavam já de pé numa das músicas símbolo dos Joy Division, quando começou “Shadowplay” foi um rumar até à frente do palco, sem que ninguém (muito menos os funcionários do CCB) conseguissem parar o movimento. Com quase todos de pé, colados, literalmente, ao palco ouve-se Peter Hook afirmar “you’re fucking wild” perfeitamente espantado e definitivamente rendido ao público lisboeta. Dai em diante foi imparável, assistindo-se à verdadeira comunhão entre músicos e público, agora sim, na celebração da música dos Joy Division.

A loucura continuou com as três últimas músicas de “Unknown Pleasures”, “Wilderness”, “Interzone”, onde o segundo vocal no disco original era interpretado por Peter Hook, e “I Remember Nothing”, música onde Ian Curtis tocava guitarra.

Terminado que estava o primeiro disco era chegada a altura de visitar “Closer”, o segundo registo de originais gravado pelos Joy Division em 1980. À semelhança do primeiro trabalho, também “Closer” não trazia indicação relativamente aos lados, tendo os mesmos sido instituídos aquando da reedição em CD. A foto que consta da capa foi
tirada no cemitério Staglieno, na cidade italiana de Génova, acabando por ser uma ironia do destino, uma vez que, e devido a problemas relativamente à tiragem, “Closer” só foi editado em junho de 1980, já depois da morte de Ian Curtis a 18 de maio.

Não tendo tocado todo o álbum, Peter Hook optou, e pela reação do público, bem, por quatro das nove músicas que o integram, “Heart and Soul”, “Isolation”, “Twenty Four Hours” e “Decades” no terminus das quais sai dando por terminado o concerto.

Regressa pouco tempo depois com a t-shirt de “Unknown Pleasures” vestida (a qual viria a despir algures no encore) para num encore mega intenso tocar mais quatros músicas, daquelas que deixaram em perfeita transe o público que se recusava a arredar pé da sala principal do CCB. “Dead Souls”, da compilação de 1981 “Still” onde constam não só músicas nunca gravadas, bem como o registo do último concerto dos Joy Division no High Hall da Universidade de Birmingham, seria a primeira seguida de “Transmission”, single lançado em novembro de 1979 pela Factory Recors.

“Love Will tear Us Apart”, a música pela qual muitos esperaram todo o concerto, chegou a seguir como que a antecipar um climax por todos desejado. Originalmente lançada em single em 1980, nela Ian falava dos problemas que tinha com a mulher, Deborah, tendo esta após a morte do músico pedido para que o título da música fosse gravado na pedra memorial do túmulo de Ian Curtis. A encerrar a noite que ninguém vai certamente esquecer e onde o CCB se transformou por umas horas na Hacienda de Manchester, “Ceremony”, uma das últimas músicas dos Joy Division escrita por Ian Curtis e lançada como primeiro single dos New Order, em 1981.

A abrir o concerto de Peter Hook estiveram os portuguese Uni_Form. Estiveram e estiveram muitíssimo bem. Tendo os Joy Division como uma das suas principais influências, a banda começou com “Shadow Light”, depois da qual agradeceram a Peter Hook a oportunidade que este lhes deu, “parece que temos 14 anos outra vez”, afirmaram. “Still Alive” do recente registo de originais “1984” deu a conhecer a excelente qualidade dos Uni_Form que, com este segundo álbum de originais, cimentam ainda mais a sua posição como um dos melhores e mais inovadores projetos musicais nacionais. Intensos, como intensa deve ser a música que se toca com paixão, os Uni_Form dedicaram ainda “Stealer” a Nuno Calado, enorme referência da rádio portuguesa e defensor da música alternativa, cujo programa Indiegente celebra por estes dias 15 anos de vida. Visivelmente felizes, “Peter Hook you are amazing”, terminam com a interpretação de “1984” faixa título do último trabalho. Quem não os conhecia ficou certamente com vontade de os voltar a ver, o que esperamos aconteça em breve.

Leia também a entrevista aos Uni_Form em http://look-mag.com/2012/11/07/a-conversa-com-uni_form/
Reportagem fotográfica com o apoio Canon Portugal www.canon.pt/
Texto: Sandra Pinto
Fotos: Luís Pissarro
Artigo disponível (sem necessidade de Adobe Flash Player) em: http://look-mag.com/2012/11/18/peter-hook-and-the-light-no-misty-fest-o-dia-em-que-o-ccb-virou-the-hacienda/

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