Pennywise: 40 anos depois, o punk continua vivo e o Coliseu que o diga
Há bandas que envelhecem com dignidade. Os Pennywise envelhecem com o amplificador no máximo. E, sinceramente, ainda bem.
Texto: Sandra Pinto
Fotos: Luís Pissarro
A 30 de junho o Coliseu dos Recreios, em Lisboa, recebeu uma visita que muitos fãs portugueses esperaram durante duas décadas. Os Pennywise estavam de volta a Portugal e, pelos vistos, ninguém avisou o calendário de que já tinham passado quase 40 anos desde que a banda começou a fazer barulho. A noite começou com os portugueses Soulcrusher, seguidos pelos norte-americanos END IT, antes de chegar o momento pelo qual aquela sala estava à espera. Quando os Pennywise entraram em palco, a sensação era simples: isto não é uma banda que veio cá recordar os velhos tempos. Veio cá mostrar que ainda sabe exatamente como os fazer tremer. E o Coliseu tremeu.
Os Pennywise nasceram em 1988, em Hermosa Beach, Califórnia, no coração de uma cena onde o punk, o hardcore e a cultura do skate se cruzavam constantemente. A formação original juntava Jim Lindberg, na voz, Fletcher Dragge, na guitarra, Byron McMackin, na bateria, e Jason Thirsk, no baixo. O segredo nunca foi propriamente complicado: guitarras rápidas, bateria a disparar, refrões que ficam presos na cabeça e letras com vontade de discutir o mundo. E funcionou.
O álbum de estreia, Pennywise, chegou em 1991 pela Epitaph Records. Depois vieram Unknown Road, About Time, Full Circle e Straight Ahead, discos que ajudaram a transformar os Pennywise numa das grandes referências do punk rock californiano. Enquanto outras bandas foram suavizando o som à medida que chegavam a públicos maiores, os Pennywise fizeram algo ligeiramente diferente: continuaram a tocar como se alguém lhes tivesse dito que não podiam. A receita? Raiva, melodias e vontade de cantar aos berros.
É difícil falar dos Pennywise sem falar daquilo que acontece quando o público reconhece os primeiros segundos de uma música. “Society”. “Same Old Story”. “Fuck Authority”. “Peaceful Day”. E, claro, “Bro Hymn”. Não são simplesmente músicas. São quase códigos secretos entre a banda e quem está na plateia. A mensagem também nunca foi particularmente subtil. Liberdade, autoridade, sociedade, identidade, resistência. Os Pennywise nunca precisaram de esconder a revolta atrás de três camadas de metáforas.
Se estavam irritados, diziam. Se alguma coisa estava errada, gritavam. Se havia um refrão para cantar, o público tratava do resto.
Quase quatro décadas de história também trazem momentos que não têm qualquer piada. Em 1996, os Pennywise perderam Jason Thirsk, baixista original da banda, que morreu aos 28 anos. A sua ausência tornou-se uma ferida permanente na história do grupo. Randy Bradbury assumiu posteriormente o baixo e permanece na formação. Também Jim Lindberg teve uma saída temporária. O vocalista deixou a banda em 2009 e foi substituído por Zoli Téglás, mas regressou em 2012.
Ou seja, se os Pennywise fossem uma série televisiva, já teríamos tido pelo menos três temporadas, um spin-off e uma reunião inesperada no episódio final. Só que não há episódio final à vista. Vinte anos depois, Lisboa voltou a abrir o mosh pit…e chegamos ao 30 de junho de 2026: os Pennywise estavam de volta ao Coliseu dos Recreios 20 anos depois da última passagem por Portugal. Quando entraram os Pennywise rapidamente ficou claro que a idade é um conceito bastante relativo quando se tem uma guitarra ligada a um amplificador. O alinhamento percorreu várias fases da carreira, com temas como “Peaceful Day”, “My Own Country”, “Straight Ahead”, “Same Old Story”, “The World”, “Waiting”, “Fuck Authority”, “Pennywise” e “Society”.
O público cantava, saltava e, sempre que podia, transformava o espaço numa espécie de aula prática de como fazer mosh sem destruir completamente o mobiliário histórico do Coliseu. E depois chegou “Bro Hymn”.
Mas se houve um momento em que a noite deixou de ser apenas um concerto, foi quando chegaram os primeiros acordes de “Bro Hymn”. Ali, já não era preciso Jim Lindberg cantar. O Coliseu cantou por ele: milhares de vozes juntaram-se numa só.
Os END IT chegaram a Lisboa para abrir a noite dos Pennywise e não precisaram de muito tempo para deixar a sua marca. Vindos de Baltimore, Maryland, os norte-americanos trouxeram consigo uma descarga de energia que não se explica apenas através dos riffs, da velocidade ou dos breakdowns. É uma energia que se sente no corpo. Antes deles, os portugueses Soulcrusher tinham preparado o terreno. Depois, os Pennywise completariam uma noite que juntou diferentes gerações e geografias de uma mesma cultura. Mas, durante aqueles minutos, os END IT tinham apenas uma missão: pegar no Coliseu e fazê-lo estremecer. E fizeram-no.
Liderados pelo vocalista Akil Godsey, não são uma banda que mantenha o público confortavelmente afastado do palco. A fronteira desaparece. A música deixa de ser apenas música e passa a ser movimento, suor, gritos e corpos lançados uns contra os outros num mosh pit que parece crescer a cada riff. É precisamente aí que a banda ganha outra dimensão.
Formados em 2017, em Baltimore, os END IT carregam a cidade consigo. Não apenas no nome, mas sobretudo naquilo que escrevem e na forma como encaram o hardcore. Baltimore é uma cidade marcada por profundas desigualdades sociais, violência, pobreza e problemas que atravessam gerações. É também uma cidade com uma enorme tradição de música pesada e uma comunidade hardcore com identidade própria. Akil Godsey escreve sobre aquilo que conhece. Sobre experiências reais, sobre pessoas, sobre dificuldades e sobre tudo aquilo que não precisa de ser inventado porque já faz parte da vida. É por isso que existe uma dimensão particularmente humana na raiva dos END IT. Não é uma raiva fabricada para parecer agressiva. É uma raiva que vem de algum lugar. E sente-se.
Musicalmente, os END IT bebem directamente da velha escola. Há muito do hardcore dos anos 90 na sua identidade, com referências como Leeway, Cro-Mags, Gut Instinct, Maximum Penalty e Stout a servirem de ponto de partida. Mas não existe aqui uma tentativa de recriar o passado. Os END IT pegam nesses ingredientes e atiram-nos para o presente.
Os riffs são secos. A bateria dispara. O baixo empurra tudo para a frente. E, quando chega o breakdown, não há muito que fazer a não ser deixar o corpo responder. Foi essa linguagem que os END IT levaram ao Coliseu. A atuação de Lisboa não foi longa, mas a duração pouco interessa quando uma banda consegue condensar tanta intensidade num espaço tão curto. O público que tinha chegado para ver Pennywise recebeu uma dose concentrada do hardcore de Baltimore. Akil Godsey comandava o palco enquanto a banda avançava sem dar espaço para respirar. O público respondeu imediatamente. Os primeiros movimentos deram lugar a um mosh pit cada vez mais intenso e, por momentos, parecia impossível distinguir onde acabava o palco e começava a plateia. Era exatamente ali que os END IT queriam estar: no meio das pessoas. No meio do caos.
Não havia necessidade de grandes produções, efeitos ou discursos. Havia cinco músicos, amplificadores, uma sala cheia e uma quantidade absurda de energia. E foi suficiente.
O percurso dos END IT começou a ganhar dimensão com o EP homónimo de 2017 e continuou com One Way Track, em 2020. Mas foi Unpleasant Living, editado em 2022 pela Flatspot Records, que ajudou a transformar a banda numa das referências da nova geração do hardcore. Em apenas seis temas, o EP concentra uma enorme quantidade de tensão. “BCHC”, “New Wage Slavery”, “Hatekeeper” e “The Comeback” são alguns dos temas que ajudaram a construir a reputação da banda. Depois vieram as digressões, os grandes palcos e os encontros com nomes como No Warning, Terror, Cold World, Drain, Speed, Angel Du$t e Scowl. Wrong Side of Heaven, lançado a 29 de agosto de 2025, representa a entrada dos END IT numa nova fase. Uma banda mais experiente, com mais estrada e mais histórias para contar, mas que continua a tocar como se ainda estivesse a tentar conquistar o primeiro palco. Talvez porque, para os END IT, a questão nunca tenha sido conquistar alguma coisa. Talvez seja simplesmente não parar.
Há algo de profundamente humano na música dos END IT. Por baixo da violência sonora existem histórias pessoais, perdas, dificuldades, amizade e uma ligação muito forte à comunidade. A banda não tenta esconder as imperfeições. Pelo contrário, transforma-as em combustível. E talvez seja isso que explique a intensidade que se sente quando entram em palco. No Coliseu dos Recreios, os END IT não foram apenas a banda que abriu para os Pennywise. Foram uma descarga de adrenalina. Foram Baltimore a atravessar o Atlântico.
Foram minutos em que a sala tremeu, os corpos se moveram e o hardcore voltou a lembrar-nos porque é que, décadas depois, continua a ser uma música tão física e tão necessária. Quando saíram do palco, o trabalho estava feito. Tinham deixado o Coliseu exatamente como deve ficar uma sala depois de um concerto dos END IT: cansada, suada e ainda a vibrar.
Há bandas que nascem de um plano. Outras nascem de uma necessidade. De uma conversa entre amigos, de um riff tocado sem grandes expectativas, daquela vontade difícil de explicar de voltar a sentir o volume no peito e o chão a tremer debaixo dos pés. Os Soulcrusher nasceram precisamente desse impulso. A história começa com Mike Ghost e Ricardo “Congas” Dias, dois nomes profundamente ligados à história do hardcore português, que decidiram juntar-se quase numa lógica de “vamos ver no que isto dá”. Só que aquilo que começou de forma descontraída rapidamente ganhou vida própria. Com a entrada de Tiago Pereira e Vidigal, a brincadeira transformou-se numa banda com vontade de subir ao palco e deixar marcas.
E talvez seja precisamente aí que esteja a essência dos Soulcrusher. Não há aqui a necessidade de provar nada a ninguém. Há músicos que já viveram muitas salas, muitos concertos, muitas horas de estrada e que continuam a sentir a mesma urgência de tocar. Porque algumas paixões não desaparecem. Podem ficar adormecidas, podem mudar de forma, mas quando voltam, regressam com força.
A formação carrega consigo uma parte importante da memória do hardcore e da música pesada portuguesa. For The Glory, Devil In Me, Men Eater e Backflip são alguns dos capítulos anteriores das carreiras dos seus elementos. Agora, essas experiências encontram-se nos Soulcrusher, numa banda que olha para trás sem ficar presa ao passado.
Os Soulcrusher bebem diretamente do hardcore dos anos 90, daquele período em que a música era tão importante como tudo o que acontecia à sua volta: a comunidade, a atitude, a proximidade entre banda e público e, claro, o inevitável mosh pit. As referências passam por Leeway, Cro-Mags, Bad Brains e Life of Agony, mas o resultado não soa a uma simples viagem nostálgica. Em março de 2023 chegou Keep On Pushing, EP que apresentou ao público uma primeira fotografia desta nova fase. “Hold On To The Light” e “Keep On Pushing” ajudaram a definir o caminho de uma banda que nunca pareceu interessada em complicar aquilo que deve ser simples: riffs pesados, intensidade e vontade de tocar. Em 9 de março de 2026, os Soulcrusher voltaram a carregar no acelerador com o lançamento do trabalho homónimo SOULCRUSHER. São apenas quatro temas — “Intro”, “Fake Coated Fur”, “No Disguise” e “Mercy Pact” — mas suficientes para mostrar que a história ainda está longe de terminar.
E depois há o palco. Porque é aí que tudo faz realmente sentido. No Coliseu, os Soulcrusher tiveram uma dessas noites que ficam na memória. O palco da sala lisboeta recebeu a banda portuguesa antes de Pennywise e End It. Durante cerca de 20 minutos, a sala foi entregue ao hardcore e a uma banda que conhece demasiado bem a linguagem daquele espaço para precisar de traduções. Entre os temas tocados esteve “Set Me Free”, num concerto que colocou frente a frente diferentes gerações de uma mesma cultura musical. De um lado, uma banda portuguesa formada por músicos que ajudaram a construir a história do hardcore nacional. Do outro, um público que sabe exatamente o que fazer quando as guitarras começam a acelerar. E é difícil não pensar que existe alguma justiça poética nesse momento. Porque os Soulcrusher poderiam simplesmente ter ficado pela memória. Poderiam ser apenas mais um projeto de músicos veteranos a recordar os tempos em que tudo começou. Mas não são. Estão aqui. Estão a tocar. Estão a escrever música nova. E isso muda tudo. Há uma diferença enorme entre recordar aquilo que se foi e voltar a fazer aquilo que ainda se ama. Os Soulcrusher parecem estar precisamente desse lado da fronteira. Não procuram reproduzir o passado ao milímetro. Procuram recuperar a sensação. Aquela sensação de entrar numa sala, ligar os amplificadores, ouvir o primeiro acorde e perceber que, durante alguns minutos, não existe mais nada. É isso que os Soulcrusher carregam consigo: a urgência de quem já viveu muito, mas ainda não perdeu a vontade de partir tudo em cima de um palco. E enquanto houver riffs, suor, público encostado às grades e alguém disposto a entrar no mosh, há uma coisa que parece certa: os Soulcrusher ainda têm muito para esmagar.
Pennywise
End It
Soulcrusher