Pedro Antunes no Auditório Carlos Paredes. Um grito pela libertação.
O baterista e percussionista Pedro Antunes foi ao Auditório Carlos Paredes apresentar o seu EP de estreia “Asas de Borboleta”, lançado a 6 de março. Nele dá voz à sua experiência enquanto portador de epidermólise bolhosa, uma doença rara que torna a pele excessivamente sensível e, por isso mesmo, comparada às asas de uma borboleta. Segundo o próprio, “na decisão de começar a criar música original”, a temática da sua doença “tornou-se claramente o primeiro tema a ter de ser retratado e desenvolvido”.
Texto: David Pissarro
Fotos: Pedro Gama
Composto por quatro momentos – “Asas de Borboleta I”, “Asas de Borboleta II”, “Fura Tímpanos” e “Chá de Menta” -, o EP desenvolve uma fusão de estilos, desde o ambient e rock à eletrónica e percussão industrial, passando pela música experimental e a performance, usando como foco o seu instrumento principal, a bateria. O projeto estabelece ainda parceria com a “Debra ES Portugal”, reforçando a ligação entre a criação artística e a sensibilização para as doenças raras. Esta parceria vai além da música, afirmando-se como um espaço de exposição e consciência, com o objetivo de unir a arte e a sensibilização para estas patologias.
Pedro Antunes (emmy Curl, xtinto, Xico Gaiato, Capital da Bulgária, Inóspita), é bem conhecido no cenário musical português devido a um estilo muito próprio que resulta da fusão entre a sensibilidade do jazz (estilo em que se formou pela Escola Superior de Música de Lisboa), o groove da eletrónica e a intensidade do rock, o que lhe permite uma grande versatilidade e variedade no tipo de trabalhos em que se envolve, desde a performance live ao trabalho de estúdio como baterista de sessão.
Neste espetáculo, o artista transforma o EP, que dura cerca de 12 minutos, numa performance de 50, estendendo as músicas, criando momentos de transição entre elas e utilizando a performance como meio de ligação de todo o trabalho musical. A sonoplastia é outro elemento essencial deste registo, pois, partindo do princípio cinematográfico do projeto, esta funciona como parte da narrativa, preenchendo não só o espaço sonoro, mas adicionando também elementos mais subtis que contribuem para a mesma. Pedro Antunes apresentou-se em palco acompanhado por um “elenco” de luxo, com Daniel Constantino (sintetizadores), Fred Severo (baixo elétrico) e Bonança (guitarra elétrica).
O espetáculo começa com a visão de um palco coberto de plásticos que se alastram pelos instrumentos como ondas do mar e que, simultaneamente, serve de metáfora para a invasão da doença no corpo do portador, cobrindo-o de marcas. Diminuída a luz, a sala entra na escuridão. O vulto de Pedro Antunes percorre a plateia apenas com uma pequena e ténue luz, dando início à performance. Os músicos entram, ouve-se um feedback e um bordão grave, iniciando-se, de uma forma quase ritualística, a apresentação de “Asas de Borboleta”.
“Asas de Borboleta”, o tema que abre o espetáculo, enquadra-se na estética mais experimental deste registo, misturando-se com elementos do rock e do jazz moderno. Entre silêncios ouvem-se frases gravadas: “Eu estava a viver assim tudo como uma «irrealidade»”; “Era um sofrimento que eu não conseguia assistir”, trazidas de uma conversa gravada com a mãe do artista e que serviriam para construir toda a narrativa presente no trabalho. Por fim, escuta-se: “Eu acho que foi a fase mais difícil” até se chegar ao primeiro crescendo com todos os instrumentos transformados numa batida simples ao estilo de dark jazz, ala Morphine, que abraça o ambiente deste primeiro quadro musical, negro e pesado.
É um tema de grande tensão emocional, à semelhança de todos os deste EP, que vive das texturas da guitarra tocada pelo Bonança e do sintetizador executado pelo Daniel Constantino, num constante balanço entre silêncios e explosões sonoras misturadas com uma bateria sempre em crescente tensão. À medida que esta aumenta, cresce a intensidade, com Pedro Antunes a soltar gritos, expelindo essa dor e frustração numa libertação extática alcançando o clímax deste tema musical. Desde o primeiro instante que o público fica “agarrado”, mantendo-se num silêncio respeitoso, numa sala que permite uma proximidade muito grande entre artista e público. O ouvinte entra na narrativa, reagindo de forma muito honesta e natural a todo o ambiente – arrepios percorrem os corpos há medida que o som cresce e a história se desenvolve.
Na segunda parte, “Asas de Borboleta II”, existe um desenvolvimento da conversa gravada entre Pedro e os pais, já num ambiente mais calmo, de introspeção, exemplo da estética mais ambient e post-rock do registo. A decisão de criar e incluir esta gravação foi uma decisão difícil para Pedro Antunes e para os pais, devido à lembrança de um período mais difícil, demonstrando assim um trabalho de grande peso emocional para todos os elementos que dão voz a este projeto. “A missão deste EP”, segundo Pedro Antunes, foi “procurar a mensagem que mostrasse a força e a esperança que foram necessárias para encarar a situação de ter um filho recém-nascido com uma doença rara e complexa, doença essa que até há pouco tempo, estava ausente de informação e sensibilização”.
Por detrás dos músicos, durante todo o espetáculo, a projeção de um pequeno filme, também ele realizado por Pedro Antunes, ajudou a ilustrar as paisagens sonoras criadas, tornando-se também parte da narrativa. Rico em simbologia, cada parte do filme ilustra os sentimentos e emoções nas diferentes fases do processo, como as ondas do mar e a figura de Pedro no meio de uma falésia, presentes em “Asas de Borboleta I”, representando o medo e o isolamento perante um monstro tão grande que é a doença, tal como o sangue, que se torna num dos elementos, ao longo de todo o filme, com mais peso e importância. Após o desenvolvimento desta segunda parte, no meio de improvisações e experimentações com diversas percussões, os músicos param e entra-se numa pausa da narrativa. Pedro aproveita este interregno para apresentar os instrumentistas, agradecer ao público e explicar o conceito do álbum, a sua origem e a sua relevância.
Com os músicos apresentados e narrativa do álbum explicada, o espetáculo parte para a segunda fase. O próximo quadro apresentado é “Fura Tímpanos”, onde se lida com uma fase mais intensa e pesada, sonicamente, desta narrativa, uma vez que se foca na revolta e na luta, propriamente dita. Ouve-se, de rompante, um sintetizador mais desenvolvido e a bateria entra com uma batida de rock puro industrial, um super marcado “four on the floor”, com grande influência da música eletrónica. Somos levados para um ambiente onde há raiva e violência. Ouvem-se grandes sons industriais e a sonoplastia desenvolve-se ainda mais, desde vozes da televisão falando sobre a doença, sons de máquinas e camadas de ruídos modulados e processados. O baixo de Fred Severo é muito pesado dando uma grande base a este tema, sempre colado com a bateria que nunca pára e Pedro Antunes, no meio de uma panóplia de percussões, expressa a sua luta e estranheza, através do experimentalismo na variação de sons percutidos, especialmente o som dos barris de metal, usados para dar uma estética mais industrial, ao estilo de bandas como Einstürzende Neubauten.
Desenvolve também a performance corporal, andando pelo palco e cobrindo-se de plástico, símbolo da doença. Fica preso e não tem como sair, qual lagarta presa no seu abrigo, preparando-se para a sua metamorfose, sem se conseguir libertar. Quando, lentamente, sai de dentro da sua proteção, levanta-se e limpa o preto pintado no seu braço, é a purificação. É neste momento que, tal como borboleta que larga o casulo, entra no último quadro musical, “Chá de Menta” onde se liberta das amarras e se aceita, finalmente, a si próprio e à sua condição. A projeção dá vida ao simbolismo do tema, ilustrando perfeitamente o momento. A luz, o verde da natureza e a calma, representam a última fase da relação com a doença: a aceitação e o continuar, sendo o título uma referência à limpeza espiritual, à renovação e ao fim da ansiedade.
“Chá de Menta”, surge mais terno e quente. Aqui, o baixo elétrico é substituído na versão de estúdio pelo contrabaixo, havendo grande foco nas texturas ambient criadas pelo sintetizador, tal como pela guitarra processada, caracterizando-se até ao fim por um tom nostálgico. Neste renascimento da primavera, a conversa com os seus pais desenvolve-se para o sentimento de se querer relacionar com os outros na mesma posição, uma procura por pertença e partilha. Aqui, a esperança é transmitida para o público. Partilhar a dor, diluindo-a e tornando-a acessível, é um reflexo da luta, mas também do amor, pois não há um sem o outro, e, sem todo esse amor, uma luta como esta não seria ultrapassada. É isto que Pedro Antunes quer com “Chá de Menta”: homenagear e mostrar o amor dos seus pais e a coragem perante uma adversidade tão grande. Com o final de “Chá de Menta”, acaba a viagem sonora pelo mundo de “Asas de Borboleta”. Um trabalho completo e multidisciplinar, caracterizado por uma imensa exposição devido ao seu carácter autobiográfico e de grande vulnerabilidade. Para o artista o propósito não é só catártico e assente no saber lidar com todas as emoções passadas, é também de partilha da sua história e a de tantos outros que passam pela mesma doença.
Pedro agradece a todos, público, amigos, colegas e claro, um “obrigado” especial aos seus pais por toda a superação feita e conseguida em conjunto e que, após muito esforço e trabalho, tornou possível a criação deste EP, cuja estreia ao vivo resultou num espetáculo muito impactante para todos. Temos a certeza de que “Asas de Borboleta” chegará às salas de todo o país para contar a história de Pedro Antunes: uma história de superação e de força.