“Para mim, a componente visual é uma extensão da música”, Joaquim Ferreira

Há canções que nascem de um lugar profundamente íntimo, mas que encontram eco em experiências universais. “Voltar a Ver” é uma dessas histórias — um retrato emocional sobre perda, ausência e as perguntas que ficam quando não há respostas. Neste novo single, Joaquim Ferreira expõe o seu registo mais pessoal até agora, transformando vivências recentes numa narrativa sensível, onde a vulnerabilidade se cruza com uma abordagem musical contida e honesta. Entre o impacto da sua passagem pelo The Voice Portugal e a afirmação de um caminho próprio, o artista dá agora um passo decisivo na construção da sua identidade.

Por Sandra Pinto

Falámos com Joaquim Ferreira sobre o processo criativo por detrás do tema, o papel da música como espaço de catarse e as ambições para esta nova fase do seu percurso.

“Voltar a Ver” é descrito como o teu tema mais pessoal até agora — o que te levou a expor esta história neste momento?
Acho que a universalidade do tema foi o que me fez partilhar esta música com o público. O timing não estava bem definido… Acho que senti que era o momento.

A canção nasce de uma separação sem explicação. Foi difícil transformar essa experiência em música?
Não me é difícil expor os meus sentimentos através da música… aliás, os meus temas surgem muito daquilo que estou a sentir no momento. Depois é todo um processo de criação, surge uma frase, uma ideia, um tema… escrevo o refrão e depois, com o tempo há uma construção da melodia e das estrofes. Muitas vezes as minhas músicas até ficam guardadas na gaveta até ao dia em que faz sentido pegar nelas e criar algo. No caso específico da “Voltar a Ver” tinha perdido uma pessoa próxima há pouco tempo… terminei uma relação… O sentimento de perda estava muito presente em mim e a música nasceu destas questões todas que ficam, e para as quais não há bem uma resposta.

Sentiste que escrever este tema te ajudou a lidar com essa ausência e falta de respostas?
Sim, a música é sempre a minha fuga, quando escrevo, o que sinto é libertador. A música não me ajuda a lidar com estes sentimentos, a música é a FORMA como lido com estes sentimentos, acho que é por isso que tenho tantas músicas na gaveta. Por mais que consiga refletir os meus sentimentos nas minhas canções, há sentimentos que devemos guardar só para nós, e por isso há muitas músicas que são só minhas.

A repetição da dúvida é muito presente na letra. Isso reflete exatamente o que viveste emocionalmente?
Sim, completamente, a música surge de todas estas dúvidas e destas questões que são universais a todos, quando perdemos alguém importante para nós, apesar da ausência de respostas.

Até que ponto procuraste que o tema fosse universal e não apenas uma história pessoal?
Gosto que as pessoas sintam os meus temas tanto quanto eu os sinto, por isso procuro sempre que tenham uma dimensão universal e não fiquem presos apenas à minha experiência pessoal. A perda, por exemplo, é algo que todos conhecemos de uma forma ou de outra, tal como as questões que abordo nesta canção. Por isso, não descrevo nem identifico diretamente a pessoa que perdi — não lhe dou um nome, não digo se é ele ou ela. Na verdade, pode até nem ser uma pessoa, pode ser algo que se perdeu. Quero deixar esse espaço aberto para que cada um possa encontrar a sua própria história na música. Que seja de todos e para todos.

A tua participação no The Voice Portugal 2025 marcou uma nova fase. De que forma influenciou este lançamento?
Influenciou muito. O The Voice abriu-me muitas portas e acabou por tornar esta música ainda mais especial. No final da minha Prova Cega, onde interpretei o “Medo”, do Fernando Daniel, e que mais tarde veio a ser o meu mentor, a Sónia Tavares comentou que gostava de me ouvir cantar algo diferente, algo meu.
Foi então que decidi apresentar “Voltar a Ver”. A reação dos mentores foi incrível e a repercussão nas redes sociais também superou as minhas expectativas. Foi nesse momento que percebi que esta tinha de ser a minha próxima canção a ser lançada. A forma como as pessoas se identificaram com o tema deu-me a certeza de que estava na altura certa para a partilhar com o mundo.

Sentiste uma maior responsabilidade em apostar em originais depois dessa exposição mediática?
Senti e sinto uma maior responsabilidade, mas também que é o momento ideal para o fazer. Quando saí do programa, criei a minha banda e queria apostar todas as “fichas” na música. Este é o momento para correr atrás do meu sonho.

Musicalmente, “Voltar a Ver” aposta numa abordagem mais contida e emocional. Foi uma escolha consciente?
Sim, a mensagem merecia esta abordagem, apesar da vertente mais pop nunca quis que perdesse esta essência mais emocional.

Como foi o processo de trabalhar com os músicos e produtores envolvidos neste tema?
Foi toda uma aprendizagem, nunca tinha tido a experiência de trabalhar tão profissionalmente… Por norma, quando ia para estúdio com uma maquete feita por mim, a música ficava sempre muito semelhante… No caso da “Voltar a ver” foi um pouco diferente, todos achámos que a música precisava de uma nova roupagem, bastante diferente da que apresentei ao piano no The Voice, e foi daí que tudo se desenrolou.

O que procuraste transmitir com a interpretação vocal nesta canção?
O meu foco foi transmitir honestidade emocional. Quis que a interpretação vocal refletisse a vulnerabilidade da letra—as nuances de saudade, as incertezas e a esperança.

O videoclipe reforça a narrativa da música. Como surgiu o conceito visual?
O conceito visual surgiu numa conversa com o Simão Silva, da FreakFilms. Queríamos criar uma representação visual daquilo que a música transmite: a forma como a perda e a ausência podem transformar completamente aquilo que nos rodeia. Toda a narrativa decorre em torno de uma mesa, um símbolo de encontro, partilha e memórias. O videoclipe começa com a divisão cheia de vida, pessoas, objetos e detalhes que ajudam a construir um ambiente acolhedor e familiar. À medida que a música avança, não são apenas as pessoas que desaparecem; todo o cenário se vai desfazendo gradualmente, até restar apenas o vazio.
A ideia era mostrar que, quando perdemos alguém importante, não sentimos apenas a falta dessa pessoa. Muitas vezes, sentimos também a falta dos momentos, das rotinas e de tudo aquilo que fazia parte da nossa vida com ela. O videoclipe procura traduzir visualmente essa sensação de ausência, reforçando a mensagem da “Voltar a Ver”.

Consideras importante que a imagem complemente a carga emocional das tuas canções?
Sim, sem dúvida. Para mim, a componente visual é uma extensão da música. Uma canção pode transmitir emoções através da letra e da melodia, mas a imagem tem a capacidade de dar uma nova dimensão à história e de criar uma ligação ainda mais forte com quem a
ouve.

Olhando para os teus lançamentos anteriores, sentes que este single representa uma evolução no teu som? 
Sim, sinto que este single representa uma evolução no meu percurso, e acredito que isso é natural e até um bom sinal.
Além disso, a minha participação no programa The Voice Portugal abriu-me portas para conhecer um conjunto de pessoas talentosas que acabaram por se envolver neste projeto. O contributo de cada uma delas foi muito importante para o resultado final e permitiu-me crescer enquanto artista. Aliás, aproveito esta oportunidade para deixar um sincero agradecimento a todos os que fizeram parte deste caminho e acreditaram neste projeto. “Voltar a Ver” é também o reflexo desse trabalho conjunto.

Que aprendizagens trouxeste desde os primeiros temas até este momento?
Foram muitas as aprendizagens. Desde o meu primeiro single “Agradeço” até à “Voltar a Ver”, sinto que cresci não só como artista, mas também como pessoa. Aprendi a confiar mais nas minhas ideias e a dar mais atenção aos detalhes. Percebi que uma música não se faz apenas de uma boa melodia ou de uma boa letra. Existe todo um trabalho de equipa, de produção, de interpretação e de comunicação que é  fundamental para que a mensagem chegue às pessoas da forma certa.

Vais apresentar este tema ao vivo em Estarreja. O que pode o público esperar desse concerto?
Grandes surpresas, muita evolução e muita energia!!

Como tem sido a experiência de atuar com banda própria?
Tem sido incrível! Quem tem ou já teve a experiência de tocar com banda sabe o quão gratificante é e a segurança que acrescenta a um concerto para o artista.

Neste momento, em que fase sentes que está o teu percurso artístico?
Gosto de definir esta fase como a “fase de Crescimento”, ainda não atingi o meu objetivo final mas já conquistei algumas coisas que queria muito. Por isso é continuar…

O que podemos esperar de ti nos próximos tempos?
Este ano o público pode contar com pelo menos mais dois singles, e quem sabe com um EP, no início do próximo ano, que marcará o início mais “a sério” da carreira do Joaquim Ferreira.

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