“O punk para mim é aquela energia e fome por fazer coisas que fazem de alguém um ser”, Tiago Nóia
Com o novo single Comem Tudo, Tiago Nóia transforma experiências pessoais e críticas sociais em música crua e direta. Entre riffs de guitarra, letras irónicas e reflexões sobre precariedade laboral, desigualdades económicas e consumismo, a canção funciona como um manifesto social e artístico.
Por Sandra Pinto
Nesta entrevista, Tiago Nóia revela as histórias por detrás do tema, a metáfora do “capitalismo canibal” e a importância do espírito punk na sua abordagem criativa, mostrando como a música pode ser uma ferramenta de comentário social e expressão pessoal.
“Comem Tudo” apresenta uma crítica muito direta ao capitalismo contemporâneo. Em que momento sentiste necessidade de escrever uma canção com esta abordagem tão frontal?
Senti isso desde que fui despedido de uma escola a recibos verdes por recusar trabalhar ao sábado. Nesse momento não tive aviso prévio e não tive direito a ter subsídio, ou qualquer outro tipo de apoio social, apesar do trabalho que estava a prestar ser na prática com um tipo de
vínculo contratual, mas completamente desprotegido pelo facto de serem falsos recibos verdes. Foi aí que senti fazia todo o sentido ter uma abordagem mais direta na canção, tal como tiveram comigo, sem vergonha, e com outras pessoas. O que eu retirei daquela situação foi ver a relação que o meu chefe tinha com o dinheiro, o poder e o que ele estava disposto a fazer para manter a “ordem” entre os professores. Vi coisas muito feias, sem filtro, e não é só comigo que isto acontece. É um pouco como o populismo, esta malta que berra para que os oiçam e assim acabam por ter influência sobre o outro.
A imagem de um capitalismo “canibal” é muito forte no tema. Como nasceu essa metáfora e o que querias transmitir com ela?
Essa ideia apareceu devido a esta necessidade que eu vejo nas pessoas de serem produtivas, aquela conversa de que tens que fazer coisas em prol do sucesso. Seja isso estar a trabalhar por conta de outrem e preencher todos os “checkboxes” para serem “bem sucedidas”, ou então
aquela ideia de que tens de ter várias atividades e ser bom em todas, ter sucesso nelas para eventualmente venderes os teus sucessos nos vídeos de 20 segundos onde cultivas o teu ego e vendes a tua ideia de sucesso aos outros. Isto só se repete e repete, e eventualmente estamos
todos a tentar ser influencers com vidas muito interessantes e especiais para poder postar e mostrar aos outros o nosso sucesso. Acabamos por nos comer a nós próprios, obrigamo-nos a trabalhar horas extra para poder viajar para Paris, tirar fotos e vídeos para vender a ideia de que somos cultos e bem viajados, ou aquelas pessoas que vão ao ginásio e depois dizem que se trabalhares e comeres os produtos que eles comem que vais ser como eles, e fazem isso com a esperança de ter patrocínios das tais empresas que te estão a tentar vender. Depois acabamos todos escravos do algoritmo porque queremos ser virais, acabamos por gastar dinheiro na Temu para poder ter roupa diferente e de acordo com as últimas tendências, todas a semanas à custa de crianças que trabalham em troca de nada para estas empresas. Comemo-nos a nós próprios mesmo assim não ficamos saciados.
A frase “um prato cheio de fome” cria uma tensão entre abundância e vazio. O que simboliza essa imagem dentro da narrativa da canção?
Nós acabamos sempre por ficar com os restos dos grandes, nenhum de nós faz tanto dinheiro como os nossos “superiores” e a discrepância torna-se maior com o passar do tempo. Como é que o Jerónimo Martins consegue fazer tanto dinheiro mas não consegue aumentar o salário aos seus funcionários? (por isso mesmo) Pessoas que trabalham durante 40 horas semanais e têm dificuldade em pôr comida na mesa, pagar renda ou no mínimo garantir a sua sobrevivência.
A pergunta “o que sobra de nós quando de nós não sobra nada?” atravessa o tema. Achas que estamos a viver um momento em que o consumo está a substituir outros valores?
Completamente. Nós somos capazes de fazer coisas horrendas para ter poder sobre outros, para podermos ter mais que os outros. O ser humano sempre foi capaz disso, mas acho que agora, também devido a redes sociais, distanciamo-nos mais uns dos outros, acabamos por ter menos medo de esticar a corda e ver até onde podemos ir. Temos uma nova apatia por quem nos rodeia e isso também é fruto desta ideia de que temos que ser bem sucedidos, temos que ser nós a aproveitar para não ficarmos para trás, para ganhar, para sermos especiais. Isso é algo que me incomoda imenso e é muito abordado neste tema e no resto do álbum.
Como foi o processo de criação de “Comem Tudo”? A música surgiu primeiro ou a letra?
Tinha o riff de guitarra e depois comecei a construir a letra à volta disso. Diria que foi um pouco de tudo ao mesmo tempo.
Sendo também produtor do teu próprio trabalho, sentes que tens mais liberdade para explorar ideias sonoras e conceptuais?
Acho que é só um diferente tipo de liberdade, numa banda consigo fazer coisas que nunca faria sozinho tal como consigo fazer coisas sozinho que em banda seriam diferentes. Não comecei a escrever temas em nome próprio porque sentia que precisava de liberdade, comecei só para
poder ter mais um outlet criativo, especialmente durante a pandemia porque tinha de fazer música sozinho. No entanto acho que é só diferente, tal como cada projeto e banda dos quais faço parte, cada um tem a sua liberdade e abordarmos música de formas diferentes.
As tuas músicas têm uma energia crua e direta. Foi uma escolha estética consciente para reforçar a mensagem?
Foi um pouco dos dois, eu sempre gostei de música crua e de ouvir as bandas a tocar ao vivo e isso sempre foi uma estética que me fez sentido para o que eu queria fazer e ouvir.
O teu trabalho cruza punk com um imaginário lírico quase surrealista. Como encontraste esse equilíbrio entre agressividade sonora e poesia irónica?
Sempre fui irónico, foi um tipo de humor que fazia parte do meu dia-a-dia e acho que é só uma maneira que tenho de lidar com a vida. Não sou um gajo negativo ou pessimista mas com o tempo tenho vindo a ficar mais critico a nível social e político, e para lidar com essa onda toda de informação muitas vezes pesada, uso a ironia para torná-la um pouco mais leve. Dentro da poesia e prosa que leio também sempre tive a tendência a explorar mais esse tipo de humor e estilo de escrita. Um dos livros que me influenciou imenso foi o “Livro dos Abraços” de Eduardo Galeano. Já a nível musical, uma banda que teve muito peso foi IDLES.
De que forma a ironia te ajuda a abordar temas sociais e políticos sem cair apenas no discurso direto?
Acho que só dá um tom diferente à coisa, há canções que são mais sérias por causa do assunto que abordam, mas a ironia tem um peso diferente, um pouco também para ridicularizar a situação ou até para mostrar a estupidez de alguns assuntos sociais e políticos. Tem de haver um pouco de humor para tirar a seriedade da coisa.
Sentes que a música ainda pode funcionar como uma ferramenta de comentário social relevante?
Talvez, mas não tenho bem a certeza devido à natureza do entertainment. Acho que há maneiras de promover música que conseguem tirar o peso dela, mais uma vez, porque estamos mais preocupados em ser as estrelinhas e ter o nosso momento viral. Para algo ter a carga de comentário social não pode ter como objetivo ser viral ou mero culto do ego. Na minha opinião tem que ser algo feio, algo que chegue a dentro, porque comentário social não é um assunto fácil de abordar e não pode ser deslavado, porque se assim for, faz com que não aprofundemos o suficiente e nunca resolver os problemas. Se é relevante para massas, não mas, fico feliz por conseguir chegar a algumas pessoas e de poder ver outros artistas mais pequenos que fazem o mesmo.
Nasceste em Machico, na Madeira, e agora vives no Porto. Que impacto tiveram esses dois lugares na tua identidade artística?
Machico sempre foi uma pequena aldeia, sempre tive necessidade de sair de lá para poder experienciar outras coisas, mas sempre tive sorte por ter uma família que me levava a museus, concertos, cinema, exposições e que me incentivava a ser criativo, tanto na música como em
desenho, outra área que me interessa e fascina. Consegui conhecer alguma malta que tocava coisas mais pesadas e alternativas e tínhamos uma verdadeira banda de garagem. Tirando isso, tocava numa banda de arraial, que significava apenas “um trabalho” e ganhei experiência com isso, mesmo não me identificando com a música. A minha vinda para o Porto foi também para experimentar uma nova zona em Portugal. Sempre consegui passar por Lisboa vária vezes durante a infância e adolescência, e então decidi ir para um lugar onde nunca tinha estado. À
medida que ficava mais tempo no Porto apercebi-me de que a cidade tem uma cena musical alternativa e o próprio desenho da cidade inspirou-me, aqueles montes de ruas escuras e prédios quase encostados, algo muito diferente de Machico, onde o mar e as montanhas olham para ti de cima. São duas realidades diferentes mas cada uma com uma grande influência sobre o que faço hoje.
Que artistas, movimentos ou referências ajudaram a moldar o teu som e a tua forma de escrever?
Musicalmente IDLES, Ditz, Gurriers, Tó Trips, Linda Martini, André Henriques, Mães Solteiras, Nerves, Nirvana, The Clash, Zeca Afonso, José Mário Branco, Carlos Paredes, Gilla Band entre outros. Isto são os que tenho andado a ouvir nos últimos dois anos e os que consideraria mais importantes. As letras mudam um pouco, gosto muito da maneira como o André Henriques escreve para os seus projetos, tal como o José Mário e o Zeca, que nunca deixaram de me influenciar.
A energia do punk parece estar muito presente no teu trabalho. O que significa esse espírito para ti hoje?
O punk para mim é aquela energia e fome por fazer coisas que fazem de alguém um ser. Claro que a definição clássica é diferente, mas o que eu vi sempre no punk foi uma consciência política e social ativa e aquela atitude DIY, que para mim é muito importante. Eu não faço nada disto por dinheiro e não recebo dinheiro pelo trabalho que eu faço, mas não é por isso que não vou fazer música, ainda por cima agora é mais fácil do que nunca e isso é de aproveitar. Estúdios custam dinheiro e não só, tudo o resto que envolve a criação e captação de um álbum, e isso está certo porque os profissionais devem de ser pagos por todo o seu trabalho. Pessoalmente, não tenho dinheiro extra para poder investir tanto quanto queria na minha música, então comecei a captar e a misturar sozinho para poder tornar os meus projetos possíveis, sem ter que depender de outros ou de dinheiro. Isso é uma atitude que tenho desde a adolescência, morando em Machico não tinha acesso a salas de ensaio, músicos que quisessem fazer parte de um projeto de originais ou material de gravação, então comecei a gravar e a produzir os meus temas no tablet dos meus pais no Garageband. O espírito punk para mim é fazer o que conseguires com aquilo que tens, uma atitude muito importante para qualquer pessoa.
“Comem Tudo” antecipa o teu primeiro longa duração. Este single representa bem o universo do disco ou é apenas uma das suas faces?
Representa bem o álbum – tem sempre uma espécie de nuvenzinha negra. Acho que vem tudo do mesmo sítio e nota-se isso.
Que temas ou ideias vão atravessar o álbum?
Crítica de hierarquias, relação do tempo e dinheiro, habitação, precariedade no mundo do trabalho, questões existenciais, desigualdades social e económica, enfim, temas desta natureza.
Sentes que este disco será uma espécie de manifesto artístico ou antes um retrato de um determinado momento da tua vida?
É um manifesto social, político e artístico. Não acho que seja só algo do momento, tanto que não sou o único que aborda estes temas, não sou o primeiro e não serei o último.
Quando alguém ouve “Comem Tudo”, o que gostarias que essa pessoa questionasse ou repensasse?
Gostaria que se repensasse a relação que tem com o trabalho, o dinheiro, as hierarquias, as obrigações que tem perante uma entidade, mas mais importante para mim seria que se apercebesse de que não tem que se sujeitar a maus tratos e maus pagamentos devido ao medo de não receberem dinheiro. E para isso é preciso todos nós batermos o pé e dizermos não.
Achas que a música pode provocar reflexão ou mudança na forma como vemos o mundo?
Quero acreditar que sim, mas para isso temos de estar abertos a ouvir temas que abordem essas questões, sensibilizados com os outros, a liberdade de cada um, e não só com o nosso pequeno mundo.
Num tempo de excesso de estímulos e consumo cultural rápido, como se cria música que realmente fique com as pessoas?
Não sei… Todas as canções que fiz antes tinham esse medo- será que vai ser relevante, será que as pessoas vão perceber, será que a produção tem de ser mais limpa, será que a letra é catchy, essas coisas. A “Comem Tudo” e todas as outras canções do álbum foram feitas sem essa
preocupação e agora estou muito orgulhoso do que consegui fazer e das canções que tenho. Isso é o mais importante, o resto é um bónus. Temos de fazer algo do qual nos orgulhamos para depois mostrar ao mundo, não gosto quando me tentam agradar e eu não gosto de agradar a ninguém, e arte tem que vir daí, se não passa a ser um produto.
Se tivesses de resumir a essência do teu projeto artístico numa ideia ou frase, qual seria?
Vou morrer na praia.